quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Carta à editora da revista Mente e Cérebro


por Felipe Nogueira

A edição de Outubro da revista Mente e Cérebro foi sobre Ansiedade. A matéria da capa (imagem ao lado) foi escrita pela sub-editora da revista, a jornalista Fernanda Teixeira Ribeiro.  Para minha surpresa, a última seção da matéria era pura pseudociência.

Em resposta, escrevi a seguinte carta à editora da revista.

Cara Editora Gláucia Leal,

meu nome é Felipe Nogueira, sou aluno de Doutorado em Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e assinante da revista Mente e Cérebro. Além disso, também faço divulgação científica no meu blog, há mais ou menos 2 anos.

Na sua carta ao leitor da edição de outubro da Mente e Cérebro [1], a senhora enfatizou que a proposta da revista é "divulgar informações científicas sobre o universo 'psi' de forma acessível e ao mesmo criteriosa". É exatamente isso que eu esperava da revista, assim como de qualquer ramificação que possui o nome Scientific American, sendo uma edição brasileira ou não. Acredito que a divulgação científica é bem limitada no nosso país. Considerava (gostaria de ainda poder considerar) as revistas Scientific American Brasil e Mente e Cérebro uma das poucas opções de revistas brasileiras de divulgação científica.

Pelas razões mencionadas acima, eu fiquei bastante surpreso com a seção "Agulhas que Tratam" da matéria da capa, Ansiedade, escrita pela Fernanda Teixeira Ribeiro, dessa mesma edição de Outubro. O problema dessa seção não está apenas em sugerir o uso da acupuntura como tratamento da ansiedade sem haver evidências suficientes na literatura científica para apoiar essa conclusão. O erro mais grave foi propagar idéias pseudocientíficas, tais como "Cada emoção está relacionada a um órgão - a ansiedade está associada ao coração" ou "A maioria das pessoas não se previne contra doenças, muitas delas diagnosticadas no nível energético."

Para avaliar se o título da seção está correto - se as agulhas realmente tratam ansiedade - preciso mencionar algumas referências da literatura. Em 2007, foi publicada uma revisão sistemática da eficácia da acupuntura para ansiedade e transtornos de ansiedade [2]. A revisão encontrou 4 estudos com resultados positivos para transtorno de ansiedade. Segundo o autor da revisão, esses estudos eram de baixa qualidade e de difícil interpretação. Com isso, o autor concluiu que não há evidências suficientes para chegar a conclusões definitivas. Já em relação a eficácia da acupuntura para ansiedade pré-operatória (não é o mesmo que transtorno de ansiedade), uma revisão foi publicada recentemente [3]. Os autores relataram que há alguns efeitos positivos da acupuntura para ansiedade pré-operatória. No entanto, os revisores mencionaram que essa revisão possui diversas limitações, como o pouco número de estudos incluídos. Além disso, o médico e pesquisador de medicina alternativa Edzard Ernst criticou essa revisão no seu site pessoal [4], já que os estudos incluídos eram de baixa qualidade. Segundo Ernst, a maioria dos estudos não citou eventos adversos causados pela acupuntura e estava sujeito a diversos viéses [5].    
            
Mesmo se revisões sistemáticas de estudos de alta qualidade mostrarem que a acupuntura tem efeitos positivos para determinadas condições, como ansiedade, não significa que a acupuntura tem os seus efeitos "balanceando os níveis energéticos", "mobilizando o Qi mental", ou que há "canais energéticos" no corpo humano. Essas ideias não são aceitas pela comunidade científica simplesmente porque não há evidências para apoiá-las. Como explicam os autores do artigo [6], "A perspectiva tradicional Chinesa não é baseada em evidências anatômicas, fisiólógicas e bioquímicas e assim não pode formar a base do entendimento do mecanismo da acupuntura". Na realidade, nem o British Acupuncture Council, uma organização que representa o interesse de acupunturistas ingleses, utiliza idéias pseudocientíficas como explicação do possível funcionamento da acupuntura na ansiedade. De acordo com o site dessa organização, "acredita-se que a acupuntura estimula o sistema nervoso e causa a liberação de móleculas neuroquímicas mensageiras" [7]. Note também que o mecanismo da acupuntura ainda não foi esclarecido [6] [8].  

Acredito que é possível descrever o uso de acupuntura para ansiedade de forma acessível e criteriosa ao mesmo tempo. Por isso, na minha opinião, a Seção "Agulhas que Tratam" é um desserviço para seus leitores. Primeiro porque sugere um tratamento sem comprovação científica. Como consequência, pacientes de ansiedade podem buscar esse "tratamento" sem comprovação, deixando de buscar tratamentos que de fato podem ajudá-los. Além disso, não podemos esquecer que, ao analisar um tratamento médico, devemos verificar se seus benefícios são superiores aos riscos. Como os benefícios da acupuntura para ansiedade ainda não foram estabelecidos, qualquer risco é relevante. E a acupuntura tem riscos: lesões em órgãos, como pneumotórax, infecções bacterianas, como micobactérica, e infecções virais, como hepatite [9] [10]. Porém, nenhum deles é citado na seção. Finalmente, ao propagar idéias pseudocientíficas ultrapassadas, a seção também contribui para aumentar o desentendimento científico de seus leitores, deixando-os mais distantes de entender a ansiedade, uma condição bastante comum, e o método científico.  

Com certeza, não são informações científicas que a seção está divulgando. Espero muito que a senhora, como uma editora de uma revista de divulgação científica de prestígio, manifeste-se a respeito desse acontecimento.
Obrigado pela atenção,
com o objetivo da divulgação científica,

Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

Referências

[1] Leal G. Percalços e prazeres da travessia. Scientific American Mente e Cérebro n. 261. Outubro 2014. Disponível em http://www2.uol.com.br/vivermente/artigos/percalcos_e_prazeres_da_travessia.html

[2] Pilkington K, Kirkwood G, Rampes H, Cummings M, Richardson J.  Acupuncture for anxiety and anxiety disorders - a systematic literature review. Acupuncture in Medicine. 2007. Disponível em http://aim.bmj.com/content/25/1-2/1.abstract

[3] Bae H, Bae H, Min BI, Cho S. Efficacy of Acupuncture in Reducing Preoperative Anxiety: A Meta-Analysis. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2014. Disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/25254059

[4] Ernst E. Accupunture for anxiety? Rubbish in, Rubbish out. 2014. Disponível em http://edzardernst.com/2014/10/acupuncture-for-anxiety-rubbish-in-rubbish-out/

[5] Figura do artigo referenciado em [2]. Disponível em http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4165564/figure/fig2/

[6] Wang S, Kain Z, White P. Acupuncture Analgesia: I. The Scientific Basis. Anesthesia & Analgesia: February 2008 - Volume 106 - Issue 2 - pp 602-610. Disponível em

[7] British Acupuncture Council. Anxiety. Site pessoal da organização. Disponível em: http://www.acupuncture.org.uk/a-to-z-of-conditions/a-to-z-of-conditions/anxiety.html

[8] Ernst E. Acupuncture – a critical analysis. Journal of Internal Medicine 2006. Disponível em http://www.abiomac.org.br/wp-content/uploads/2013/01/Acupuncture.-a-critical-analysis.pdf

[9] Ernst E, Lee MS, Choi TY. Acupuncture: Does it alleviate pain and are there
serious risks? A review of reviews. Pain 2011;152:755–64. Disponível em http://www.dcscience.net/Ernst-2011-AcupunctAlleviatePainRiskReview.pdf

[10] Shifen X et al. Adverse Events of Acupuncture: A Systematic Review of Case Reports. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2013. Disponivel em http://www.hindawi.com/journals/ecam/2013/581203/cta/

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