terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não tome suas vitaminas

por Paul A. Offit
Tradução: Felipe Nogueira Barbara
Fonte: NYTimes

Mês passado [Maio de 2013], Katy Perry compartilhou seu segredo de boa saúde com seus 37 milhões de seguidores no Twitter. "Eu sou tudo sobre suplementos e vitaminas" escreveu a popstar, postando uma foto dela segurando três sacos grandes de comprimidos. Há, entretanto, um fato perturbador sobre vitaminas que Katy não mencionou.

Derivadas de "vita", significado de vida em Latin, vitaminas são necessárias para converter alimentos em energia. Quando não se obtêm a quantidade necessária de vitaminas, as pessoas adoecem com escorbuto e raquitismo.  A pergunta não é se as pessoas precisam de vitaminas. Elas precisam. As perguntas são o quanto de vitaminas precisam, e elas obtêm o necessário nos alimentos?

Especialistas em nutrição argumentam que as pessoas precisam apenas dos limites diários recomendados - a quantidade de vitaminas encontrada numa dieta de rotina. Fabricantes de vitaminas argumentam que uma dieta regular não contém vitaminas o suficiente, e que mais é melhor. A maioria das pessoa assume que, pelo menos, excesso de vitaminas não faz mal nenhum. Acontece que, entretanto, cientistas sabem há anos que grandes quantidades de suplemento de vitaminas podem ser bem nocivas, na verdade.

Em um estudo publicado em 1994 no The England Journal of Medicine, 29000 homens finlandeses, todos fumantes, receberam diariamente vitamina E, beta caroteno, ambos ou placebo. O estudo descobriu que aqueles que tomaram beta caroteno por cinco até oito anos tinham mais chances de morrer por câncer de pulmão ou doença cardíaca.

Dois anos depois o mesmo periódico publicou outro estudo sobre suplementos de vitamina. Nesse estudo, 18000 pessoas com um risco maior de câncer de pulmão por causa de exposição a amianto ou tabagismo receberam uma combinação de vitamina A e beta caroteno, ou placebo. Investigadores interromperam o estudo quando encontraram que o risco de morte por câncer de pulmão para aqueles que tomaram as vitaminas foi 46% maior.

Então, em 2004, uma revisão de 14 ensaios clínicos randomizados feita pela Cochrane Database encontrou que suplementos de vitamina A, C, E, e beta caroteno, e um mineral, selênio, tomados para prevenir cânceres intestinais, na realidade aumentaram a mortalidade.

Outra revisão, publicada em 2005 no Annal of Internal Medicine, encontrou que, em 19 ensaios clínicos com quase 136000 pessoas, suplemento de vitamina E aumentou a mortalidade. Nesse mesmo ano, um estudo com pessoas com doença vascular ou diabetes encontrou que vitamina E aumenta o risco de falha cardíaca. E em 2011, um estudo publicado no Journal of the American Medical Association associou vitamina E com um risco maior de câncer de próstata.

Finalmente, no ano passado, uma revisão da Cochrane encontrou que "beta caroteno e vitamina E parecem aumentar mortalidade, e altas doses de vitamina A podem fazer o mesmo".

O que explica essa conexão entre suplementos de vitaminas e aumento nas taxas de mortalidade e câncer? A palavra chave é antioxidante.

Antioxidante vs oxidação já foi classificada como uma disputa entre o bem e o mal. Acontece nas organelas celulares chamadas de mitocôndria, onde o corpo converte alimento em energia, um processo que requer oxigênio (oxidação). Uma consequência da oxidação é a geração de escavadores atômicos chamados radicais livres (mal). Radicais livres podem danificar o DNA, membranas celulares, as linhas das artérias; não surpreendente, eles foram ligados a envelhecimento, câncer e doenças cardíacas.

Para neutralizar radicais livres, o corpo faz antioxidantes (bem). Antioxidantes também podem ser encontrados em frutas e vegetais, especialmente em selênio, beta caroteno e vitaminas A,C e E. Alguns estudos mostraram que pessoas que as pessoas que comecem mais frutas e vegetais têm menor incidência de câncer e de doenças cardíacas e vivem mais. A lógica é óbvia. Se frutas e vegetais contém antioxidantes, e as pessoas que comem frutas e vegetais são mais saudáveis, então as pessoas que tomarem suplementos de antioxidantes também deverão ser mais saudáveis. Mas não tem sido dessa maneira.

A provável explicação é que radicais livres não são tão maldosos como se pensava.(De fato, as pessoas precisam deles para matar bactéria e eliminar novas células cancerígenas). E quando as pessoa comem altas doses de antioxidante na forma de suplemento de vitaminas, o balanço entre a produção de radicais livres e destruição pode ir muito numa direção, causando um estado não natural onde o sistema imunológico é menos hábil em matar invasores danosos. Pesquisadores chamam isso de o paradoxo dos antioxidantes.

Como estudos com altas doses de suplemento de antioxidantes não apoiaram claramente o seu uso, respeitadas organizações responsáveis pela saúde pública não os recomendam para pessoas saudáveis.

Por que não sabemos disso? Por que oficiais da Food and Drug Administration (F.D.A.) [órgão que regula alimentos e drogas nos EUA] não se certificaram que estávamos cientes dos riscos? A resposta é que eles não podem.

Em Dezembro de 1972, preocupados que as pessoas estavam consumindo grandes quantidades de vitaminas, a F.D.A. anunciou um plano para regular suplementos vitamínicos contendo mais que 150 porcento do limite diário recomendado. Fabricantes de vitaminas teriam que provar que essas "megavitaminas" eram seguras antes de venderem. Não surpreendente, a indústria da vitamina viu isso como ameaça, e organizou a destruição desse plano. No final, fez mais do que isso.

Executivos da indústria recrutaram William Proxmire, um senador Democrata de Wisconsis, para introduzir um projeto de lei prevenindo a F.D.A. de regulamentar megavitaminas. Em 14 de Agosto de 1974, a audiência começou.

Apoiando a regulamentação da F.D.A. estava Marsha Cohen, uma advogada da Consumers Union. Dispondo oito melões na frente dela, ela disse, "Você teria que comer oito melões - uma boa fonte de vitamina C - para adquirir 1000 miligramas de vitamina C. Mas esses dois comprimidos apenas, simples de engolir, contém a mesma quantidade." Ela avisou que se a legislação passasse, "um tablete conteria a mesma quantidade de vitamina C de todos esse melões, ou até o dobro, ou o triplo ou 20 vezes tal quantidade. E não teria nível protetor de saciedade". Cohen estava mencionando o calcanhar de Aquiles da indústria: ingerir grandes quantidades de vitamina não é natural, o oposto que os fabricantes estavam promovendo.

Mais de um mês depois, o projeto de lei de Proxmire passou por uma votação de 81 a 10. Em 1976, virou lei. Décadas depois, Peter Barton Hutt, conselheiro-chefe da F.D.A., escreveu que "foi a derrota mais humilhante" na história da agência.

Como resultado, consumidores não sabem que tomar megavitaminas pode aumentar o risco de câncer, de doenças cardíacas e encurtar suas vidas; eles não sabem que estão sofrendo muito de uma coisa boa por muito tempo.




segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Por que mudei de opinião sobre homeopatia

por Edzard Ernst
Tradução: Felipe Nogueira Barbara
Fonte: The Guardian

Homeopatia me intriga por vários anos; de certa forma, eu cresci com ela. O médico da nossa família era um homeopata, e meu primeiro trabalho como médico júnior foi em um hospital homeopata alemão. Nas últimas duas décadas, eu investiguei homeopatia cientificamente. Durante esse período, a evidência tornou-se mais e mais negativa, e agora está bem claro que remédios homeopáticos altamente diluídos são puramente placebos. 

Dois axiomas principais constituem os princípios centrais da homeopatia. O princípio "similar cura similar" afirma que, se uma substância causa um sintoma (p.e., cebola faz meu nariz escorrer), então essa substância pode curar uma doença que é caracterizada por nariz escorrendo (p.e, alergia ou resfriado comum). O segundo princípio assume que o processo de diluição serial usada para remédios homeopáticos tornam-os não menos mas mais potentes (por isso homeopatas chamam esse processo "potenciação"). 

Ambos axiomas são contrários à ciência. Se fossem verdadeiros, muito do que aprendemos em física e química estariam errados. Se uma pessoa mostrar que os conceitos da homeopatia estão corretos, ela se torna uma séria candidata a um ou dois prêmios Nobel. Homeopatas frequentemente dizem que apenas não descobrimos como a homeopatia funciona. A verdade é que sabemos que não há explicação científica concebível que poderia explicar a homeopatia.

Ainda assim, como médico aproximadamente 30 anos atrás, eu estava impressionado com os resultados alcançados pela homeopatia. Muito dos meus pacientes pareciam melhorar dramaticamente após receberem tratamento homeopático. Como isso era possível? 

Para entender essa aparente contradição, temos que dar um passo para trás e entender as complexidades da resposta terapêutica. Quando um paciente ou um grupo de pacientes recebe um tratamento médico e subsequentemente percebe melhorias, nós automaticamente assumimos que a melhoria foi causada pela intervenção. Essa falácia lógica pode ser bem enganadora e tem impedido progresso na medicina por centenas de anos. É claro que pode ter sido o tratamento - mas há também outras diversas possibilidades. 

Por exemplo, a condição pode ter melhorado sozinha. Ou o encontro entre o terapeuta e o paciente pode ter sido terapêutico sem que o tratamento tenha contribuído significativamente. Ou o paciente poderia estar com altas expectativas no tratamento que promoveu uma poderosa resposta placebo. Ou o paciente auto-administrou outros tratamentos concomitantes que causaram a melhoria. 

Por causa dessas complexidades, precisamos conduzir ensaios clínicos que diferenciam efeitos específicos e não específicos de um tratamento. Em tais estudos, um grupo de pacientes recebe tratamento experimental (p.e, tratamento homeopático) e outro grupo recebe um placebo. Se bem desenhados, esses estudos expõem o grupo experimental aos efeitos específicos mais todos os efeitos não específicos de uma intervenção, já que o grupo controle é exposto precisamente a mesma variação e quantidade dos efeitos não específicos, mas não ao efeito específico do tratamento que está sendo testado. Nessa situação, qualquer diferença de resultado em os dois grupos foi causada por efeitos específicos.* 

Aproximadamente 200 ensaios clínicos de remédios homeopáticos estão disponíveis até hoje. Com um número dessa grandeza, não é surpreendente que os resultados não são inteiramente uniformes. Seria fácil "contar cerejas" e selecionar apenas os achados que a pessoa já gosta (e alguns homeopatas fazem justamente isso) Mas, se quisermos saber a verdade, precisamos considerar a totalidade dessa evidência e pesá-la de acordo com o seu rigor científico. Essa abordagem é chamada de revisão sistemática. Mais de uma dezena de revisões sistemáticas de homeopatia já foram publicadas. De forma quase uniforme, eles chegaram a conclusão que remédios homeopáticos não são diferentes de placebo.

Muitos homeopatas aceitam relutantemente esse cenário, mas afirmam que a experiência clínica deles é mais importante que a evidência de ensaios clínicos. Pacientes que consultam homeopatas ficam melhores e estudos observacionais mostraram isso ad nauseam. Homeopatas insistem que isso é uma evidência que é mais importante daquelas oriundas de ensaios clínicos. Mas há realmente uma contradição? 

A experiência é real, é claro, mas não estabelece causalidade. Se dados observacionais mostram melhorias enquanto ensaios clínicos nos dizem que remédios homeopáticos são placebos, a conclusão que encaixa confortavelmente com esses fatos é a seguinte: pacientes melhoram, não pelo remédio homeopático, mas por um efeito-placebo e por uma consulta demorada com um clínico compassionante. Essa conclusão não é apenas lógica, é também apoiada por dados. Homeopatas de Southampton demostraram recentemente que é a consulta, e não o remédio, o elemento que melhora os resultados clínicos de pacientes após consultarem um homeopata. 

Um dos meus professores na escola de medicina vivia nos dizendo: "Qualquer tratamento que não faz mal aos pacientes não pode ser tão ruim". Como não contém nenhum ingrediente ativo, remédios homeopatas altamente diluídos são livres de efeitos colaterais. Então, por essa perspectiva, homeopatia pode ainda ser aceitável. Esse talvez seja o debate mais difícil sobre homeopatia; há obviamente argumentos razoáveis de todos os lados. Mas antes de definir sua opinião, considere os seguintes aspectos:

- Efeitos placebo são notoriamente não confiáveis; pacientes que se beneficiam hoje pode não se beneficiar amanha. Efeitos placebo tendem a ser pequenos e de curta duração. 

- Prescrever conscientemente placebo aos pacientes seria antiético na maioria dos casos. Ou o clínico fala a verdade (p.e, "isso é um placebo"), no qual o efeito provavelmente desaparecerá, ou eles não falam, onde são mentirosos. 

- Prescrever placebo para um paciente com uma séria condição que é tratável de outra maneira coloca seriamente a saúde desse paciente em perigo. 

- Para promover uma resposta placebo em um paciente, não precisamos administrar um placebo. Todos os tratamentos vem com a cortesia do efeito placebo desde que os clínicos administrem-os com compaixão e empatia. Então, por que confiar apenas na parte da resposta terapêutica?  Isso não é ruim para o paciente? 

Minha jornada pessoal dentro e fora da homeopatia pode ser confusa. Eu sempre soube que os princípios da homeopatia são contrários à ciência. Mas eu via resultados positivos e pensava que havia algum fenômeno fundamental a ser descoberto. O que eu descobri não foi fundamental mas mesmo assim importante: pacientes podem apresentar melhorias oriundas de efeitos não específicos. Isso é a razão pela qual eles melhoram após se consultarem com um homeopata - mas isso nada tem a ver com os comprimidos de açúcar da homeopatia.  

*Nota do Tradutor: Um ensaio clínico bem desenhado é randomizado e, no mínimo, duplo cego. Randomizado quer dizer que os pacientes são aleatoriamente distribuídos entre os grupos placebo e tratamento. Quando o paciente não sabe se ele está no grupo placebo ou tratamento, mas o médico sabe, o estudo é cego. É necessário cegar o paciente, já que, se o paciente sabe que está recebendo um placebo, há grandes chances do efeito placebo desaparecer. Quando o médico e o paciente não sabem quem está em qual grupo, o estudo é duplo-cego. A necessidade de cegar o médico se deve ao fato que, ao saber quem está tomando placebo ou não, ele pode introduzir um viés, submetendo os grupos a diferentes efeitos não específicos. Há ainda o estudo triplo-cego:  paciente, o médico e o estatístico não sabem quem está em cada grupo, aumentando a imparcialidade na análise dos dados. Por fim, um estudo quádruplo-cego oculta a identificação dos grupos também para os responsáveis por escrever os resultados até o término do rascunho. A maioria dos ensaios clínicos bem desenhados que testam eficácia de um tratamento (com dois ou mais grupos, sendo um placebo) são duplo-cego.     



quarta-feira, 3 de julho de 2013

Lawrence Krauss: "Deus se tornou redundante"

"We cannot rely on what we perceive to be sensible; we have to rely on what the universe tells us is sensible. What we have to do is force our beliefs to conform to the evidence of reality, rather than the other way around." Lawrence Krauss
Lawrence Krauss
O cosmólogo Lawrence Krauss, um dos maiores divulgadores da ciência atualmente, autor do livro A Universe From Nothing. Why There Is Something Rather Than Nothing, deu uma entrevista para revista época em 2012, que segue abaixo.

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FONTE: Revista Época

ÉPOCA – O que aprendemos sobre a origem do Universo, graças ao avanço da ciência, tornou obsoleta a crença em Deus?
Lawrence Krauss – Até o século XVI, a religião detinha o monopólio da explicação dos mistérios da criação. A responsabilidade pela criação de tudo era divina, e ai de quem duvidasse! Aquele monopólio da fé começou a ser solapado a partir da obra de Copérnico (Nicolau Copérnico, astrônomo polonês do século XV) e a de Galileu (Galileu Galilei, astrônomo italiano do século XVI), que substituíram o milagre metafísico pela realidade física. Quando, há 300 anos, Newton (Isaac Newton, físico e matemático inglês do século XVII) explicou que o movimento dos planetas podia ser compreendido por meio de leis físicas bem simples que não requeriam a intromissão dos anjos, tudo mudou. O avanço da física, da química e da biologia nos fez desvendar o funcionamento da matéria e dos fenômenos biológicos. Ao mesmo tempo, esse avanço foi reduzindo o alcance do termo milagre até deixá-lo restrito ao que teria existido antes do big bang, a explosão primordial que criou o Universo há 13,7 bilhões de anos. Agora, o milagre divino perdeu esse último bastião. A cosmologia do século XX chegou ao ponto em que podemos falar sobre a criação e a evolução de todo o Universo, um tema que não é mais do domínio exclusivo da teologia.

ÉPOCA – Os religiosos sempre disseram que há algumas questões fundamentais para as quais nenhuma teoria científica jamais encontrou respostas. Ainda não é o caso?
Krauss – Não é nem nunca foi o caso. A religião alegava ter as respostas para as perguntas mais básicas do Universo e da vida antes mesmo de essas perguntas terem sido feitas. A religião também afirma que suas respostas são verdades inquestionáveis. Ora, nós, cientistas, somos movidos pela dúvida. O que move nossa curiosidade é a busca de respostas para os mistérios da natureza. Sabemos que não temos todas as respostas e que as respostas que temos não são verdades definitivas. Que questões ficariam sem resposta? Só o tempo e o esforço concentrado de pesquisa dirão. Por isso, não podemos nos deixar satisfazer com as respostas científicas já reveladas nem descansar sobre os louros conquistados, relegando a busca de novas respostas que tenham o poder de revelar uma visão mais profunda da natureza.

ÉPOCA – Os religiosos afirmam que a humanidade jamais descobrirá as verdades mais fundamentais, como a origem do Universo e como surgiu a vida.
Krauss – Jamais saberemos se essas são de fato verdades inatingíveis se não tentarmos elucidá-las. Os religiosos afirmam que conhecem as verdades fundamentais... É inacreditável. Eles afirmam saber que Deus criou o Universo. Isso é preguiça intelectual. A ciência lida muito bem com a existência de mistérios à espera de ser revelados. Sempre haverá perguntas sem resposta e mistérios a descobrir. Os milagres se tornaram obsoletos.

ÉPOCA – A ciência ensina que o Universo começou com o big bang e que antes dele não havia nada.
Krauss – A ciência nos ensina que houve um big bang, mas não diz o que havia antes. Em meu livro, explico por que, com base nos conhecimentos de ponta atuais, é plausível imaginar a hipótese de que o Universo tenha surgido a partir do nada. E, a partir do nada, o Universo teria evoluído por meio de processos naturais que levaram à formação de átomos, moléculas, estrelas, planetas, galáxias e vida.

ÉPOCA – Como o Universo surgiu do nada?
Krauss – Nosso Universo tem todas as características de um universo criado a partir do nada. Uma das descobertas mais notáveis da física moderna é que o vácuo espacial não é vazio. O vácuo pode ser inteiramente vazio de matéria, mas não de energia. Se pudéssemos observar o vácuo em dimensões infinitamente pequenas e lapsos de tempo infinitamente curtos, muito menores e mais curtos do que a tecnologia atual é capaz de fazer, veríamos que o vácuo é tudo, menos estático, e que nele partículas pipocam a partir do nada e desaparecem instantaneamente. Em determinadas condições, entretanto, essas partículas virtuais não precisariam necessariamente desaparecer. Elas poderiam não só continuar existindo, como se multiplicar, dando origem a um big bang e a um novo universo em expansão. A evidência de que isso pode ter sido realmente o caso da origem de nosso Universo é um feito notável.

ÉPOCA – Aconteceu apenas uma vez? O pipocar de partículas não poderia ter criado outros universos?
Krauss – Sim, tudo leva a crer que é o caso, embora não tenhamos como provar. Podemos viver num “multiverso”. Nosso Universo pode ser apenas um entre infinitos outros de um “multiverso que é eterno e infinito”.


ÉPOCA – Os religiosos afirmam que Deus é anterior ao Universo e existiria antes do big bang.
Krauss – O principal problema dessa noção da criação é que ela requer a existência de alguma coisa que anteceda o Universo, de modo a poder criá-lo. É aí que quase sempre entra a noção de Deus, alguma entidade que existiria em separado do espaço, do tempo e da realidade física. Para mim, Deus não passa de uma solução semântica fácil para uma questão tão profunda como a criação. Os religiosos nunca tocam na questão da criação de Deus, pois essa é ainda mais confusa do que a solução religiosa que deram para a criação do Universo. Para os religiosos, Deus simplesmente existe, não importando quantas e quão fortes sejam as evidências que a ciência fornece para indicar a extrema improbabilidade de tal coisa ser verdade.

ÉPOCA – O Universo se expandirá para sempre? Num futuro remoto, as galáxias desaparecerão, as estrelas evaporarão e o cosmos voltará ao nada? Saber disso não torna a vida sem sentido?
Krauss – A vida não precisa ter nenhum sentido, a não ser aquele que damos a ela. Por que ficarmos deprimidos? Para mim, essa é uma imagem revigorante. Justamente porque a vida é efêmera, todos nós deveríamos tirar o máximo proveito do breve momento que desfrutamos sob o sol. Deveríamos aproveitar ao máximo o fato de evoluirmos com uma consciência que nos possibilita apreciar a beleza do cosmos, ao mesmo tempo que buscamos melhorar a vida na Terra. Prefiro viver num universo onde a vida é breve e preciosa a noutro onde o sentido da vida nos é ditado por um Saddam Hussein dos céus!

ÉPOCA – O senhor diz que vivemos num momento especial da história do Universo. Como assim?
Krauss – O Universo tem 13,7 bilhões de anos. Ele é muito antigo. Quando olhamos o infinito futuro a nossa frente, o Universo ainda é muito jovem. Todas as evidências de que um dia há 13,7 bilhões de anos aconteceu um big bang ainda podem ser vistas por meio de nossos observatórios astronômicos. É o que acontece quando os astrônomos verificam que todas as galáxias estão se afastando cada vez mais rápido umas das outras. Num futuro distante, as galáxias estarão tão longe de nossa Via Láctea que não poderão mais ser observadas. Elas desaparecerão no breu cósmico. Para todos os efeitos, será como se jamais tivessem existido. Uma civilização que viva num planeta da Via Láctea naquele futuro jamais saberá como o Universo surgiu.

ÉPOCA – Para entender e aceitar a origem do Universo como descrita pela ciência, é preciso ter bom nível cultural e intelectual, pois não se trata de conceitos simples. A religião lida com conceitos que podem ser apreendidos por qualquer criança.
Krauss – Ninguém precisa ser um especialista em cosmologia para apreciar o panorama do surgimento e da evolução do Universo, da mesma forma como não é preciso ser músico para apreciar a música de Bach (que, aliás, era muito complexa!). Sim, as versões da ciência são mais complicadas que as da religião, mas também são muito mais interessantes. O Universo tem uma imaginação muito maior que a nossa e seus fenômenos que observamos, como a explosão de supernovas ou a criação de buracos-negros, são muito mais fascinantes do que os contos de fadas criados por gente que viveu há milhares de anos, muito antes de descobrirmos que a Terra orbita o Sol e que não estamos no centro do Universo.

ÉPOCA – Nos últimos anos, muitos cientistas e intelectuais começaram a defender a bandeira do ateísmo. É o caso de dois célebres ingleses, o biólogo Richard Dawkins e o físico Stephen Hawking. O senhor pertence a esse movimento?
Krauss – Acho que sim. As pessoas com frequência me colocam ao lado de Dawkins e Hawking, o que me enche de orgulho. Mas prefiro pensar em mim não como um ateu, e sim como um antiteísta. Não posso provar sem sombra de dúvidas que Deus não existe, mas posso afirmar que preferiria muito mais viver num universo em que ele não exista.

ÉPOCA – Deus se tornou irrelevante para a humanidade?
Krauss – Porque eu penso que Deus é uma invenção da humanidade, minha resposta é não. Se existisse um Deus, ele certamente teria deixado de se preocupar com os desígnios do cosmos logo depois de criá-lo, há 13,7 bilhões de anos, pois tudo o que aconteceu desde então pode ser explicado pela ciência. Não, Deus talvez não seja irrelevante. Ele é redundante.


quarta-feira, 8 de maio de 2013

Edzard Ernst: "Homeopatia não tem efeito algum"

Edzard Ernst
por Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

Edzard Ernst é um médico e o primeiro professor no mundo em Medicina Alternativa e Complementar. Ernst faz pesquisa sobre a eficácia e eficiência de terapias alternativas e complementares. Seu último livro Trick or Treatment? Alternative Medicine on Trial, não disponível no Brasil, sumariza evidências de ensaios clínicos e meta-análises em homeopatia, acupuntura, quiropraxia e outros.

Em 2011, ele deu uma entrevista muito boa para a Revista Época, onde mostra como deve ser o pensamento e postura de um cientista. Como disse o físico Richard Feynman, "o primeiro princípio é que você não pode enganar a si mesmo, e você é a pessoa mais fácil de ser enganada".

Na entrevista, Ernst diz que acupuntura tem resultado para dores no joelho. No entanto, ele deixa claro no livro Tick or Treatment? e em seu site que acupuntura é altamente "placebogênica", ou seja indutora de efeito placebo, já que: "é exótica, é invasiva, é levemente dolorosa, envolve tempo com o terapeuta e envolve toque." Ernst diz que, se alguém tivesse que inventar um tratamento que maximizasse o efeito placebo, não poderia inventar uma melhor intervenção que acupuntura! Ainda mais importante, em um post deste ano, ele deixa claro que, em diversos tratamentos, podemos estimar se os riscos são maiores que os benefícios e, quando são, paramos de usar tais tratamentos. Ele não está convencido de que podemos fazer essa mesma estimativa com a acupuntura.

Eu entrei em contato com Ernst, por e-mail, questionando se existia alguma nova evidência sobre a eficácia do acupuntura para dores no joelho. Ele me respondeu: "eu acho que a evidência é um pouco contraditória, mas, no todo, parece ser melhor que placebo para dor no joelho".  
  
A entrevista segue abaixo, com minhas marcações em itálico.

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ÉPOCA – Depois de estudar terapias alternativas por quase 20 anos, qual é sua conclusão? Elas funcionam? 
Edzard Ernst – Depende de cada técnica. Essa área inclui práticas muito diferentes entre si. Os melhores resultados estão na área de ervas medicinais. A planta Hypericum perforatum, conhecida como erva-de-são-joão, foi uma das mais estudadas. Diria que ela não é apenas eficaz contra a depressão. Ela é melhor que os antidepressivos. Em minha opinião, é melhor que o Prozac. A acupuntura funciona para algumas condições, não para todas. Há fortes evidências de que ela é eficaz no tratamento da artrose, uma doença que causa a degeneração da cartilagem nas articulações, causando dor e rigidez. O melhor resultado é no tratamento de dores no joelho. Já a homeopatia parece não ser nada além de um placebo, uma preparação sem efeito algum.

ÉPOCA – Como o senhor recebeu esses resultados, sendo homeopata? 
Ernst – Teria adorado provar que homeopatia funciona, porque eu ganharia o Prêmio Nobel de Medicina e seria muito rico. Mas fico triste em dizer que a evidência mostra exatamente o contrário. Atualmente, há cerca de 200 testes clínicos em andamento e a maioria dos resultados não é favorável à prática. É preciso dizer que os fundamentos do tratamento homeopático são implausíveis. Diluir remédios não os torna mais poderosos, mas os faz menos eficazes. Esse assunto é o mais polêmico em minha área porque as pessoas que acreditam na homeopatia o fazem quase com fervor religioso.

ÉPOCA – Por quê? 
Ernst – A realidade que o médico vê no consultório é diferente daquela que acontece em um laboratório. Você, como médico, atende um paciente com enxaqueca, decide receitar remédio homeopático e em 15 dias ele volta dizendo que a dor desapareceu. A maioria dos homeopatas diria que isso mostra que a homeopatia funciona. Mas, como cientista, você aprende a pensar de maneira diferente. Em minha opinião, a melhora do paciente não quer dizer absolutamente nada. Pode ser consequência do efeito placebo ou, simplesmente, a evolução natural da condição. A experiência como médico pode ser bastante ilusória. É exatamente por isso que nós precisamos de pesquisas. Um bom médico deve confiar em evidências científicas tanto quanto confia em sua experiência diária.

ÉPOCA – O senhor fez muitos inimigos? 
Ernst – Os resultados dos estudos do meu grupo em relação à homeopatia e à quiropraxia, técnica que usa o alinhamento da coluna para tratar dores, foram muito negativos. Os defensores dessas duas práticas não gostam do meu trabalho, não gostam de mim e me atacam pessoalmente. Eles se mostraram extremamente agressivos. Não ligo para esses ataques, se eles não forem muito pessoais ou de baixo nível. Encaro essas controvérsias como resultado do meu trabalho. Às vezes, até provoco discussões de propósito. Acho que estimula o pensamento crítico, exatamente do que precisamos nessa área.


ÉPOCA – O senhor acha que não há rigor suficiente nas pesquisas sobre terapias alternativas? 
Ernst – A maior parte dos estudos atuais não aplica análise crítica em grau suficiente. Querem apenas promover a medicina alternativa, mostrar que funciona. Os estudos não respondem a questões cruciais, como o mecanismo fisiológico que explicaria os efeitos das práticas no corpo. O que a área precisa é de ciência rigorosa, em vez de promoção pura e simples. Precisamos de cientistas que pesquisem de verdade as técnicas de medicina alternativa. Se você não é cético, não pode ser um cientista.

ÉPOCA – Acreditar na eficácia da terapia pode atrapalhar o resultado da análise? 
Ernst – O ângulo errado de encarar uma pesquisa é dizer: “Estou convencido de que esse tratamento funciona e vou usar a ciência para provar”. Para testar uma hipótese é preciso tentar derrubá-la. Se você tenta provar que um tratamento não funciona e o submete às mais extremas e severas condições e, ainda assim, ele apresenta resultados eficazes, é sinal de que funciona em qualquer circunstância. Mas não é assim que a maioria de meus colegas no mundo inteiro trabalha. Eles partem do pressuposto que a terapia é eficaz e querem provar isso. Pesquisar medicina alternativa é muito desafiador.

ÉPOCA – Quais são as dificuldades? 
Ernst – Os efeitos dessas práticas costumam ser muito discretos. Não dá para dizer que a acupuntura e a homeopatia têm efeitos revolucionários sobre a vida dos pacientes. Isso significa que os estudos precisam ser realizados em uma amostra muito grande de pacientes, porque só assim temos condições de conseguir medir os efeitos. O problema é que pesquisas com muitos voluntários são caras. O segundo desafio é encontrar uma boa maneira de avaliar se a técnica funciona. Em testes de medicamentos comuns, um grupo de pacientes toma o remédio de verdade e o outro toma placebo, uma pílula falsa, de farinha, que não tem efeito algum. O resultado da pílula verdadeira tem de ser muito melhor que o da falsa. Na medicina alternativa é infinitamente mais difícil encontrar placebos. Por exemplo, como é possível substituir as agulhas de acupuntura? Aqui na unidade nós desenvolvemos uma “agulha placebo”, semelhante às facas usadas no teatro. Elas não penetram de verdade na pele.

ÉPOCA – Como ficarão as pesquisas agora que o senhor anunciou a aposentadoria? 
Ernst – Ainda não abandonei o posto completamente. Estou trabalhando meio período até achar um sucessor. Mas, quando deixar meu cargo, não vou parar. Vou escrever um livro, talvez vários. Vou ser uma voz muito crítica, vocês vão ouvir falar muito de mim.




sexta-feira, 3 de maio de 2013

Michael Shermer´s Moral Arc of Science

by Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

Michael Shermer is a psychologist, the Founding Publisher of Skeptic Magazine, the Executive Director of Skeptics Society and monthly columnist for Scientific American (his columns have not been published in the Brazilian edition of SciAm for a long time).

Brazilian readers of this blog are aware of Michael Shermer´s work, since I had posted my translation to portuguese to some of his articles. As a leader in skeptic movement and his continuous very well done work to promote science, Michael Shermer is, no less, a true inspirer to me. In response to my first email, in which I had explained how weak is the skeptic movement around here in Brazil, he answered that I should create my own Skeptic Society! Unfortunately, I am not that far, at least not yet, but I am really trying to promote skepticism and science over here.

Michael Shermer´s last book is The Believing Brain, in which he explained the psychological drives for beliefs in things such as conspiracy theory, ghosts, and God. Now, his focusing on his next book, The Moral Arc of Science. He already posted some articles about this topic here and here. Michael´s Moral Arc of Science thesis is that a science of morality is possible, as he puts it:
the survival and flourishing of individuals is a basis for establishing moral and values, and so determining conditions by which humans best flourish ought to be the goal of science of morality.
Michael Shermer is not alone on this. The neurologist Sam Harris had written a book about the subject titled The Moral Landscape: How Science Can Determine Our Values. Sam Harris argument is based on (quoted from the book):
1) questions about values—about meaning, morality, and life’s larger purpose—are really questions about the well-being of conscious creatures.  
2) human well-being entirely depends on events in the world and on states of the human brain. Consequently, there must be scientific truths to be known about it.
It´s a controversial issue and they engaged on online discussions: Michael discussed with the philosopher Massimo Pigliucci and Sam Harris with the cosmologist Sean Carroll. Science have been studying sucessfully and determined the impacts of human actions in other issues, such as the risk of tobacco smoking and global warming; I think it can do the same with morality. I not only agree that science can study, it should study, like Shermer and Harris are arguing, and it should start now: the best thing to guide our actions is empirical evidence, which is the realm of science. So, I totally agree with the main thesis of Shermer´s theory about science of morality, but I do not agree with him about every detail he mentioned on his last lecture about the subject, presented on the Northeast Conference on Science and Skepticism 2013

1) Michael defines the Ask-First principle :
To find out an action is right or wrong, ask first.
I think it´s good principle in some cases, like adultery, the example Michael gave. He makes clear (and I agree, of course) the principle can´t be applied to all cases, like asking to Hitler or Bin Laden if it´s right to kill them. But my concern is that the Ask-First Principle is, at least a little, subjective. Consider the case of female genital mutilation. Two different woman had been mutilated and we go there and ask them if the mutilations were wrong. One says yes, like Michael presented, but the other says no, because, even she was in pain, that was God´s plan for her (or whatever the reason). How can we get out of this situation with the Ask-First Principle? We have two identitical situations. And yet we have two different answers. How can we decide now? Are we (the science of morality) going to say female genitalia mutilation is right in the case of the second woman (I think female genitalia mutilation wrong in all cases!)? The best analogy to the point I am trying to make is with medicine. The two women are analogous of two different patients with same diagnosis and the same disease severity. Are we going to prescribe different treatments for these patients? It´s possible that the treatment of choice differs from one doctor to another, but, if we want consistence, the same doctor must prescribe the same treatment. And the difference between one doctors´s choice to another doctor´s is only acceptable in the case there is no conclusive evidence of what  is the best treament ; when empirical evidence settles down the issue, all doctors should do the same. Medicine will not say the best available treatment is wrong because a patient does not want to receive that treatment. This is not possible with the ask-first principle: we´re never going to find a empirical evidence of what´s the right answer in the example I gave, because the definition of what is right and what is wrong can be different among different people in the same conditions. We need a better tool, or, at least, we need to define better the cases we would use the Ask-First Principle. 

2) The Ask-First Principle should be applied to the individual, the moral agent that has been acted upon. Why the individual? Michael offers the following explanation:
The individual is the primary moral agent because the individual is the principal target of natural selection and social evolution.
He goes on saying he rejects group selection (it is an interesting question by itself: is there any scientist  - I mean serious scientist, not figures like creationists or Intelligent Designer propopents that call themselves "scientists" - that still supports group selection?). Is the individual the principal target of natural selection? I rather say the gene is the unit target of natural selection, the individual is the vehicle. So, saying the individual is the target of natural selection is not a good justification for the individual as the primary moral agent. The important point here is that I don´t think the science of morality should constraint itself on evolutionary theory. Even if the group or species is the target of natural selection, how would that change the science of morality? The individual is the primary moral agent, because it´s the individual that suffers, or in Michael´s words, "it is the individual who is most affected by moral and immoral acts." Suffering, well-being is a function of the individual; there is no way we can, i.e, increase well-being in a group without increasing it at least in some individuals of this group.  It´s interesting to note that science of morality can have more than one focus: some moral scientists can focus in the individual, studying how to maximize flourishing for particular individuals, and others can focus in a group or society, studying how to maximize flourishing of a group of individuals. Having one does not excludes the other.

3) "If Gay is natural then gays ought Moral Progress: Gay Decriminalization."

I do think it´s very wrong to discriminate people based on race, gender, sexual orientation, weight, height, etc. So,  I agree with gay decriminalization, but it´s not because gay is natural. This remembers me the fallacy that everything natural is good or right, everything unnatural is bad or wrong (appeal to nature/naturalistic fallacy).
Some conditions like psycopathy or pedophilia can be classified as natural (at least part of it, since neurogenetics plays a huge influence), but I don´t think psychopaths killers, or pedophiles who abuse children, ought moral progress; I think they should be in jail, even it was "natural" for them to do the attrocities they´ve done. Also, science of morality should recommend changes to our nature, if that leads to more flourishing (less suffering, more happiness, more well-being, more freedom, more liberty, more justice, more prosperity, etc).

In this article, since I agree with Michael´s first premise, I tried to mention things I don´t agree with him in order to add something interesting to this discussion or to Shermer´s new book. In the end, we are not asking too much and can be summarized on his following statement:
All moral systems have shortcomings, so why not add one more arrow to quiver of ethics by adding science?
If I haven´t added anything on the discussion, maybe others have learned something, like I did with this discussion and others within the skepticism and science promoting movement. Also, as I said in the beginning, skepticism and science promoting movement is very weak in Brazil, so hopefully this discussion brings some attention to the importance of science, evidence and scientific thinking to Brazilian people; science is making our lifes better, and can make it even better. This is why Michael and I are employing and promoting science, critical thinking, asking for evidence instead of superstitious thinking, pseudoscience, anti-scientific thinking, and faith: science is the best tool to understand how the world works and our nature is and we want a society based on truth, justice, freedom and prosperity.

Thank you, Michael Shermer!                      



        



  

domingo, 28 de abril de 2013

Ciência e Religião não são amigas

por Jerry Coyne
Tradução: Felipe Nogueira Barbara de Olivera
Fonte: USAToday

Religião na América está na defensiva.

Livros ateístas tais como Deus, um Delírio e A Morte da Fé se tornaram best-sellers, por expor os perigos da fé e da falta de evidências para o Deus de Abraão. A ciência alfineta a religião, incansavelmente consumindo explicações divinas e substituindo-as por explicações materiais. A evolução deu uma boa alfinetada há um tempo, e estudos recentes envolvendo o cérebro não mostraram evidências de almas, espíritos, ou qualquer parte de nossa personalidade ou comportamento diferente do "pedaço de geleia"  que reside na nossa cabeça. Nós sabemos agora que o universo não requer um criador. A ciência está até estudando a origem da moralidade. Então, afirmações religiões se abrigam em lacunas cada vez menores que ainda não foram preenchidas pela ciência. E, apesar de que ser ateu na América ainda é ser exilado, o "tipo" de crença que cresce mais rápido é a não-crença.

Mas a fé não irá embora gentilmente. Para cada livro de um "Novo Ateísta", há muitos outros atacando o movimento e demonizando ateus como arrogantes, teologicamente ignorantes e estridentes. A maior área de resistência religiosa envolve a ciência. Ao invés de serem inimigas, ou até competidoras, o argumento diz que ciência e religião são amigas totalmente compatíveis, cada uma destinada a encontrar a sua espécie de verdade enquanto anseiam por um diálogo mútuo. 

Como um cientista e ex-crente, eu acho que isso não faz sentido. A  ciência e a fé são fundamentalmente incompatíveis exatamente pela mesma razão que irracionalidade e racionalidade são incompatíveis. São diferentes formas de inquisição, com apenas uma, ciência, equipada para encontrar a verdade. E, enquanto elas podem ter um diálogo, não é um diálogo construtivo. A ciência ajuda a religião apenas refutando afirmações religiosas, enquanto a religião não tem nada a adicionar à ciência.

Irreconciliável

"Mas certamente", você poderia argumentar, "ciência e religião precisam ser compatíveis. Afinal, alguns cientistas são religiosos." Um deles é Francis Collins, chefe do Institutos Nacionais da Saúde (National Institutes of Health) e um Cristão evangélico. Mas a existência de cientistas religiosos, ou de pessoas religiosas que aceitam a ciência, não prova que as duas áreas são compatíveis. Apenas mostra que pessoas podem ter duas noções conflitantes nas suas mentes no mesmo momento*. Se isso significa compatibilidade, podemos fazer um bom argumento, baseado no senso comum de infidelidade marital, que monogamia e adultério são perfeitamente compatíveis. Não, a incompatibilidade de ciência e fé é mais fundamental: as maneiras da ciência e da fé de entender o universo são irreconciliáveis.

A ciência opera usando evidência e razão. A duvida é valorizada e autoridade é rejeitada. Nenhum achado é considerado "verdade" - uma noção que é sempre provisória - a menos que seja repetido e verificado por outros. Nós cientistas estamos sempre nos questionando "Como eu posso descobrir se estou errado?". Eu posso pensar em dezenas de potenciais observações - como um fóssil de um bilhão de anos de um macaco - que me convenceriam que a evolução não ocorreu. 

O físico Richard Feynman observou que os métodos da ciência nos ajudam a distinguir a verdade real daquilo que queremos que seja verdade: "O primeiro princípio é que você não pode enganar a si mesmo, e você é a pessoa mais fácil de ser enganada".

A ciência pode, é claro, estar errada. Deriva Continental, por exemplo, foi ridicularizada por anos. Mas no fim o método é justificado pelo seu sucesso. Sem a ciência, todos viveríamos menos, mais miseráveis e com mais doenças, sem as amenidades da medicina e tecnologia. Como Stephen Hawking proclamou, a ciência vence porque funciona.

Religião funciona? Traz consolo para alguns de nós, impele alguns a praticar o bem (e outros a arremessar aviões em prédios) e apoia a mesma verdade moral abraçadas por ateus, mas nos ajuda a melhor entender o mundo ou nosso universo? Dificilmente. Note que quase todas as religiões fazem afirmações específicas sobre o mundo envolvendo questões tais como a existência de milagres, preces respondidas por santos milagrosos e curas divinas, nascimentos virginais, anunciações e ressurreições. Essas afirmações fatuais, cuja verdade é um alicerce da crença, trazem a religião para o escopo do estudo científico. Mas ao invés de se basear na razão e evidência para apoiar tais afirmações, a fé se baseia na relevação, dogma e autoridade.  

E isso nos leva ao maior problema com a verdade religiosa: não há maneira de saber se é verdade. Eu nunca encontrei um Cristão que foi capaz de me dizer quais observações sobre o universo fariam ele abandonar a crença dele em Deus ou em Jesus (Eu pensaria que o Holocausto faria isso, mas aparentemente não). Não horror, não há quantidade de maldade no mundo, que um verdadeiro crente não possa racionalizar como consistente com um Deus amoroso. É a maneira definitiva de enganar a si mesmo. Mas como você pode ter certeza que está certo se você não consegue saber quando está errado?

A abordagem religiosa para o entendimento inevitavelmente resulta em diferentes fés mantendo "verdades" incompatíveis sobre o mundo. Muitos Cristãos acreditam que se você não aceitar Jesus como salvador, você irá queimar no inferno pela eternidade. Muçulmanos acreditam no exato oposto: Aqueles que vêem Jesus como o filho de Deus são aqueles que queimarão. Judeus vêem Jesus como profeta, mas não como messias. Qual crença, se alguma, está certa? Como não há maneira de decidir, religiões vem brigando por séculos, gerando a miserável história humana de guerras e perseguições religiosas.

Em contraste, cientistas não se matam sobre questões como a deriva continental. Temos melhores jeitos de resolver nossas diferenças. Não há ciência Católica, ciência Hindu, ciência Muçulmana - apenas ciência, uma busca multicultural pela verdade. A diferença entre ciência e fé, então, pode ser sumarizada de forma simples: na religião, fé é uma virtude; na ciência, é um defeito.

Mas não aceite minha palavra para a incompatibilidade da ciência e fé - é amplamente demonstrada pela alta taxa de ateísmo entre os cientistas. Enquanto apenas 6% dos Americanos são ateus, a figura para cientistas Americanos é 64%, de acordo o livro Science vs. Religion da professora da Universidade de Rice (Rice University) Elaine Howard Ecklund. Mais prova: entre países do mundo, há uma forte relação negativa entre religiosidade e aceitação pela evolução. Países como Dinamarca e Suécia, com baixa crença em Deus, tem a maior aceitação na evolução, enquanto países religiosos são intolerantes à evolução. De 34 países pesquisados num estudo publicado na revista Science, os Estados Unidos, entre os mais religiosos, está no final da lista na aceitação do Darwinismo: é o número 33, apenas com Turquia abaixo. Finalmente, numa enquete do jornal Time de 2006, assustadores 64% dos americanos declararam que, se a ciência refutasse uma de suas crenças religiosas, eles rejeitariam a ciência em favor da fé.

Superstição Venerável

No final, a ciência não é mais compatível com a religião do que é compatível com outras superstições, como os duendes leprachauns. Porém, não falamos em reconciliar ciência com duendes leprachauns. Nos preocupamos com a religião simplesmente porque é a superstição mais venerada - e a mais poderosa política e financeiramente.

Por que isso importa? Porque pretender que fé e ciência são métodos igualmente válidos de encontrar a verdade não apenas enfraquece o conceito de verdade, mas também dá à religião uma autoridade não merecida, o que não faz bem ao mundo. A fé ter a certeza de estar se aproximando da verdade combinada com sua inabilidade de realmente encontrar a verdade produz coisas como a opressão de mulheres e gays, oposição à pesquisa de células-tronco e eutanásia, ataques à ciência, negação da contracepção para controle de natalidade e prevenção da AIDS, repreensão sexual, e claro todas aquelas guerras, homens-bomba suicidas e perseguições religiosas.

E qualquer progresso - não apenas científico - é mais fácil quando não estamos presos a dogmas religiosos. Claro que usar razão e evidência não fará magicamente todos concordarem, mas nossa visão seria muito mais clara sem o véu da superstição.

*Nota do Tradutor: Como explicam os psicólogos Carol Tavris e Elliot Aronson no livro Mistakes Were Made (But Not by Me), "dissonância cognitiva é um estado de tensão que ocorre quando uma pessoa mantém duas cognições (idéias, atitudes, crenças, opiniões) que são psicologicamente inconsistentes". As pessoas não descansam até minimizar esse desconforto, o que leva auto-justificação de certas atitudes. Como exemplo, Tavris e Aronson citam que muitos fumantes procuram reduzir a dissonância entre o ato de fumar e saber que é prejudicial à saúde de maneiras ingênuas, como se convencer de que fumar não é muito prejudicial à saúde.
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Jerry Coyne é professor do departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago. Seu último livro é Why Evolution is True (sem edição em português) e seu blog para divulgação  da ciência é http://whyevolutionistrue.wordpress.com 

  










quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

O que é Ceticismo, afinal?

por Michael Shermer
Tradução: Felipe Nogueira Barbara de Oliveira

Como editor da revista Skeptic, frequentemente sou questionado o que eu quero dizer por ceticismo, e se sou cético sobre tudo ou se eu acredito em alguma coisa. Ceticismo não é uma posição que você toma antes do tempo e permanece com ela não importa o que acontecer.

Considere aquecimento global: Você é um cético quanto ao aquecimento global? Ou você é um cético dos céticos do aquecimento global? Nesse caso, eu era um cético do aquecimento global, mas agora sou um cético dos céticos do aquecimento global, o que me faz acreditar no aquecimento global baseado nos fatos como eu os entendo no momento. A parte "no momento" é o que torna as conclusões da ciência e ceticismo como provisórias.

Então, ciência e ceticismo são sinônimos, e em ambos casos não há problema em mudar de ideia se a evidência mudar. Tudo se resume à pergunta: Quais são os fatos favoráveis ou contrários a uma afirmação específica?

Há uma noção popular que céticos são mentes fechadas. Alguns nos chamam de cínicos. Em princípio, céticos não são mentes fechadas, nem cínicos. Nós somos curiosos, mas cautelosos.

Ou, frequentemente escuto "Ah, voce é um cético, então não acredita em nada?". Não, eu acredito em muitas coisas, desde que haja evidência e razão para acreditar. Por exemplo:
  • acredito na teoria microbiana das doenças;
  • acredito que vacinas são boas para saúde social;
  • acredito que água fluoretada reduz cáries;
  • acredito na teoria do Big Bang do universo;
  • acredito que teoria da evolução melhor explica a vida;
  • acredito que a teoria das placas tectônicas melhor explica os continentes;
  • acredito que a tabela periódica dos elementos melhor explica a química;
  • acredito que JFK foi assassinado por um único homem armado chamado Lee Harvey Oswald;
  • acredito que aliens provavelmente estão lá fora em algum lugar, mas eles não visitaram a Terra.
Ser um cético apenas significa ser racional e empírico. O Oxford English Dictionary (Dicionário de Inglês de Oxford) fornece o seguinte uso histórico da palavra skeptic (cético, em inglês):

"Alguém que duvida da validade de quais afirmações são consideradas conhecimento em algum departamento particular de inquisição, alguém que mantém a atitude de dúvida em referência a uma questão particular ou afirmação". E "um buscador atrás da verdade, um inquiridor que não chegou ainda a conclusões definitivas".

Ceticismo não é "procure e vamos encontrar", mas "procure e mantenha uma mente aberta". Mas o que ter uma menta aberta quer dizer? É encontrar o equilíbrio essencial entre ortodoxia e heresia, entre o total compromisso com o status quo e a busca cega por novas idéias, entre ser mente aberta o suficiente para aceitar novas idéias e ter a mente muito aberta a ponto do cérebro "sair". Ceticismo é encontrar esse equilíbrio. Esta é uma definição de ceticismo:

Ceticismo é a aplicação rigorosa da ciência e razão para testar a validade de qualquer e de todas afirmações.

Céticos questionam a validade de uma afirmação em particular, exigindo a evidência para prová-la ou desprová-la. Em outras palavras, céticos são de Missouri - o estado "Me Mostre" [Show Me é o apelido do estado de Missouri]. Quando nós céticos escutamos uma afirmação fantástica, nós dizemos, "Isso é interessante, me mostre a evidência para isso". 

Você diz acreditar no Pé Grande? Eu digo, "Isso é interessante, me mostre um corpo de uma criatura Pé Grande e eu acreditarei."

Você diz acreditar que aliens visitaram a Terra? Eu digo, "Isso é fascinante, me mostre o corpo de um alien ou destroços de uma nave espacial e eu acreditarei". 

Não é sempre fácil avaliar afirmações, então nós céticos desenvolvemos o que Carl Sagan chamou de "a arte refinada da detecção de mentiras". Inspirado por Sagan, na revista Skeptic, produzimos o que chamamos de Kit de Detecção de Mentiras, que consiste numa lista de perguntas ao encontrar uma nova afirmação. Seguem algumas: 

- A fonte da afirmação faz afirmações similares? 
Pseudocientistas têm o hábito de ir muito além dos fatos, então quando indivíduos fazem numerosas afirmações extraordinárias eles podem ser mais que iconoclastas.

- As afirmações foram verificadas por outra fonte?
Tipicamente pseudocientistas farão afirmações que não são verificadas, ou são verificadas por uma fonte pertencente ao seu próprio círculo de crença. Devemos perguntar quem está checando as afirmações, e até mesmo quem está checando os checadores? O maior problema com o desastre da fusão fria, por exemplo, não foi que Stanley Pons and Martin Fleischman estavam errados; foi que eles anunciaram a descoberta espetacular antes de ser verificada por outros laboratórios (nada menos que numa conferência de imprensa) e, pior, quando a fusão fria não foi replicada eles continuaram presos na afirmação deles. 

- Alguém procurou alguma maneira de desprovar a afirmação, ou apenas evidências confirmatórias foram procuradas?
Esse é o viés da confirmação, ou a tendência em buscar evidência confirmatória e rejeitar ou reinterpretar evidência desconfirmatória. É por isso que os métodos da ciência que enfatizam checagem e rechecagem, verificação e replicação, e especialmente buscam refutar uma afirmação, são tão necessários.

- O afirmador forneceu uma explicação diferente para um fenômeno observado, ou é estritamente um processo de negar uma explicação já existente?
Essa é uma estratégia de debate clássica - critique o seu oponente e nunca afirme o que você acredita com objetivo de evitar críticas. Mas esse estratagema é inaceitável na ciência. Céticos do Big Bang, por exemplo, ignoram a convergência de evidência desse modelo cosmológico, e focam nas poucas falhas do modelo aceito, e ainda precisam oferecer uma alternativa cosmológica viável que carregue uma preponderância de evidência a seu favor. 

- As crenças pessoais e viéses do afirmador motivaram as conclusões, ou vice-versa?
Todos os cientistas possuem crenças sociais, políticas e ideológicas que podem potencialmente enviesar suas interpretações dos dados, mas como esses viéses e crenças afetam a pesquisa deles? Em algum ponto, usualmente durante o sistema de revisão de pares, tais viéses e crenças são eliminadas, ou o artigo ou livro é rejeitado para publicação. Isso é a razão pela qual alguém não deve trabalhar num vácuo intelectual. Se você não detectar os viéses na sua pesquisa, alguém irá. 

Também no kit de ferramentas dos céticos existe um aforismo frequentemente atribuído a Carl Sagan, mas que foi dito anteriormente por outros e com várias palavras diferentes, mas independente de sua etimologia esta é uma linha que você deve se lembrar quando alguém chamar à sua atenção para uma afirmação extraordinária:

Afirmações extraordinárias requerem evidências extraordinárias

Isto é, quanto mais fantástica for a afirmação, mais cético você deve ser a não ser que a evidência seja igualmente fantástica.