sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Segunda Coluna na Newsletter Skeptical Briefs

por Felipe Nogueira

Como expliquei em um post anterior, sou colunista regular da Skeptical Briefs, que é a newsletter da organização de divulgação científica, do ceticismo e pensamento crítico The Committee of Skeptical Inquiry. 

Na edição de inverno de 2014/2015, foi publicada minha segunda coluna, um artigo com o título Pseudoscience and Bad Science in the Brazilian Scientific American (Pseudociência e Ciência Ruim na Scientific American Brasil). 

Nessa coluna, eu discuti sobre alguns artigos ruins que foram publicadas sob o nome da Scientific American Brasil. É importante enfatizar, como eu fiz na coluna, que a revista brasileira é diferente da americana, com o seu próprio processo editorial. A edição brasileira tem o direito de publicar artigos traduzidos da revista original assim como adicionar artigos escritos por jornalistas ou pesquisadores brasileiros. 

O motivo da minha coluna foi um artigo sobre ansiedade publicado na edição de Outubro de 2014 da Mente e Cérebro, uma revista brasileira que também tem o nome da Scientific American na sua capa. O artigo foi escrito por uma jornalista brasileira e sub-editora da revista. O problema é que a última seção do artigo era qualquer coisa menos ciência. Era uma defesa e recomendação do uso da acupuntura para tratar ansiedade inundada com afirmações pseudocientíficas, como "Cada emoção está relacionada com um órgão - a ansiedade está assoaciada ao coração". (Em resposta à essa seção terrível, enviei uma crítica por email à editora da revista) 




Mencionei também outros dois artigos publicados na Scientific American Brasil. Um deles foi uma nota pseudocientífica sobre homeopatia publicada em 2012 e a médica Harriet Hall já o criticou de forma pertinente no blog Science Based Medicine.

O outro artigo não era pseudociência, mas a conclusão do autor sobre os efeitos do uso de maconha na saúde não era apoiada pelos dados que ele apresentou, exagerando os riscos, dizendo, por exemplo, que a causalidade entre o uso de maconha e episódios psicóticos está estabelecida. No entanto, os autores do artigo Adverse Health Effects of Marijuana Use, publicado no New England Journal of Medicine em 2014, concluíram que não é possível determinar com confiança que a maconha causa episódios psicóticos, mesmo que os usuários de maconha estão mais propensos a terem episódios psicóticos do que os não usuários.

A divulgação científica já está em falta no Brasil. Certamente não precisamos que as coisas piorem com revistas de prestígio como a Scientific American publicando artigos pseudocientíficos ou com ciência ruim nas suas revistas brasileiras.  

sábado, 24 de janeiro de 2015

Psicologia Anomalística

por Felipe Nogueira

Diversos psicólogos estudam como e por que as pessoas acreditam em diferentes coisas. Na divulgação científica, Michael Shermer, o psicólogo e fundador da Sociedade dos Céticos, já escreveu diversos livros nesse tema, como Cérebro e Crença e Por Que As Pessoas Acreditam Em Coisas Estranhas. Como outro exemplo, há também o psicólogo Bruce Hood, autor de Supersentido.   

Há um tempo descobri o campo chamado Psicologia Anomalística. O psicólogo Christopher French é o diretor e criador da Unidade de Pesquisa de Psicologia Anomalística (APRU - Anomalistic Psychology Research Unit) na Universidade de Londres, Goldsmiths. Segundo French, a psicologia anomalística 
tenta explicar crenças paranormais e relacionadas e ostensivamente experiências paranormais em termos de fatores físicos e psicológicos conhecidos (ou conhecíveis). É voltada a entender experiências bizarras que muitas pessoas têm, sem assumir que há algo paranormal envolvido.  
Junto com a professora de psicologia anomalística e pensamento crítico Anna Stone, French é autor do interessante livro Anomalistic Psychology. O livro apresenta uma revisão bem abrangente das pesquisas da psicologia anomalística. Por exemplo, o Capítulo 2 resume as pesquisas que investigam as diferenças individuais associadas com a crença no paranormal, como idade, gênero, status socioeconômico, etc.

Sempre me lembro de há pessoas que insistem que há evidências científicas para a existência do paranormal (existência de espíritos, comunicação com mortos, percepção extranssensorial, psicocinese, etc.).  Entretanto,  French e Stone são bastante claros no seguinte trecho do livro
É possível, é claro, que as pessoas acreditem no paranormal porque forças paranormais realmente existem e essas pessoas tiveram uma experiência pessoal dessas forças. Essa é uma possibilidade que vem sendo levada a sério por muitos dos melhores intelectuais da história da ciência e considerável quantia de tempo e esforço vem sendo dedicada para provar que forças paranormais realmente existem. Depois de mais de um século de sérias pesquisas científicas investigando essa possibilidade, a comunidade científica permanece não convencida pelas evidências produzidas até hoje. O Capítulo 10 desse livro apresenta uma visão geral da parapsicologia que conclui que, embora algumas abordagens atuais aparentam pelo menos merecer pesquisas adicionais, a comunidade científica está completamente justificada no seu ceticismo. 
Em relação às evidências de testes controlados com médiuns, os autores dizem que diversos estudos solicitaram que mediums fornecessem uma leitura para diferentes pessoas. Posteriormente, cada pessoa era solicitada a escolher a leitura que melhor aplicasse a ela. De acordo com os autores, os resultados mostram que as pessoas não conseguem selecionar as leituras corretas, não oferecendo apoio para a hipótese da sobrevivência da consciência (que alguma parte da consciência sobrevive a morte).  

Como não terminei de ler, minha revisão do livro, se eu fizer, ficará para outro post. No entanto, o livro é bastante abrangente, explorando diversos tópicos relacionados à crença ou experiências paranormais.  Como exemplos:
  • crenças na infância; 
  • experiências de quase morte e experiências extracorpóreas
  • vieses cognitivos e vieses da memória;
  • leitura fria;
  • reconhecimento de padrões em dados aleatórios;
  • afirmações de contatos alienígenas;
  • o status científico da paranormalidade. 
A minha previsão é que qualquer um interessado na psicologia da crença, como eu, irá considerar esse livro bastante interessante e uma leitura obrigatória. 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Primeira Coluna na Newsletter Skeptical Briefs

por Felipe Nogueira

Tentando publicar as entrevistas que eu fiz em revistas de divulgação científica, Benjamin Radford me convidou para ser colunista regular na newsletter Skeptical Briefs. 

Skeptical Briefs é publicada quatro vezes ao ano para os membros associados do Committee for Skeptical Inquiry, uma organização "cética" dedica a divulgação da ciência e do ceticismo. Essa organização publica a famosa revista cética Skeptical Inquirer. 

A minha primeira coluna foi a entrevista que realizei com o bíologo evolutivo Jerry Coyne (disponível aqui), que postou sobre no site dele, conforme a imagem abaixo.  


Interessante é que Jerry Coyne comentou que eu estava bem preparado: "... Brazilian writer Felipe Nogueira who was clearly well read about my stuff".  

Um dos leitores do site do Coyne fez um comentário elogiando as perguntas, particularmente a pergunta "Mayr vs Dawkins".  

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Comportamento Moral em Animais

por Felipe Nogueira

Um dos grandes cientistas que estuda moralidade em outra espécies, principalmente em primatas,  é o primatologista Frans de Waal. Segue abaixo sua palestra na TEDTalk com legenda em português.

Na palestra, Frans de Waal mostra exemplos de comportamento moral em chimpanzés, bonobos, elefantes. Quem quiser mais detalhes mais detalhes sobre moralidade em outras espécies, pode recorrer aos livros de divulgação científica escritos pelo Frans de Waal: The Bonobo and The Atheist (não disponível em português), A Era da Empatia - Lições da Natureza para uma Sociedade Mais Gentil, Eu, Primata - Por que Somos como Somos

domingo, 20 de julho de 2014

O Sonho Americano da Igualdade de Renda Ainda Vive

por Michael Shermer
tradução: Felipe Nogueira

Um dos livros mais vendidos de 2014 é O Capital - No Século XXI do economista francês Thomas Piketty, um livro de 696 páginas sobre a história econômica. Por que essa dissertação com muitos dados dessa "ciência triste" é tão atraente? Porque é sobre a desigualdade de renda e imobilidade, que, num discurso de dezembro de 2013, o Presidente Barack Obama chamou de "o desafio definitivo do nosso tempo", concluindo que põe "uma ameaça fundamental ao sonho americano". Mas será que ameaça mesmo? Talvez não.

Os ricos estão ficando mais ricos, como encontrou o economista Gary Burtless do Brookings Institution ao analisar dados do Congressional Budget Office (Gabinete de Orçamento do Congresso) das tendências das rendas após as deduções de impostos entre os anos de 1979 e 2010 (incluindo assistência governamental). Os primeiros cinco assalariados dos Estados Unidos aumentaram seus percentuais da renda nacional de 43% em 1979 para 48% em 2010. Além disso, os primeiros 1% aumentaram suas partes do "bolo" de 8% em 1979 para 13% em 2010. Mas note o que não aconteceu: os restantes não ficaram mais pobres. Eles ficaram mais ricos: a renda dos outros quintis aumentou de 49%, 37%, 36% e 45%, respectivamente.

A metáfora do bolo é enganadora porque um bolo possui um tamanho fixo. Se a sua fatia é maior, a fatia de outra pessoa é menor. Mas as economias crescem e o bolo fica maior de uma maneira que você e eu podemos ganhar fatias maiores do que as fatias que recebemos do bolo do ano anterior, mesmo se o aumento da sua fatia for relativamente maior do que o meu aumento. Um relatório liberado pela Reserva Federal no início de 2014, por exemplo, notou que riqueza geral de americanos atingiu o maior nível até o momento, com a rede de casas americanas crescendo 14% em 2013, o que é um aumento de $10 trilhões para um quase inimaginável $80.7 trilhões, o maior valor já registrado pela Reserva Federal. É claro que, num planeta com recursos finitos, tal expansão não pode continuar indefinidamente, mas historicamente capital e produção de riqueza deslocam à medida que a indústria muda de, digamos, agricultura e fazenda, para carvão e aço, e para informações e serviços.

E em relação a mobilidade da renda, a qual o Presidente Obama também identificou como problema? Escrevendo no National Tax Journal, economistas Gerald Auten e Geoffrey Gee analisaram retornos de impostos individuais entre 1987-1996 e 1996-2005 e encontraram que, para indivíduos com 25 anos ou mais, aproximadamente metade dos contribuintes mudaram para um diferente quintil de renda e aproximadamente a metade dos contribuintes que começaram no quintil de renda inferior foi para um grupo de renda maior no final de cada período e aqueles com as rendas mais altas no ano base eram mais prováveis [do que aqueles em outro quintis] de cair para um grupo de renda inferior. De fato, eles encontraram que 60% daqueles no 1% do topo no ano inicial caíram para um centil inferior ao final do décimo ano. Menos de um quarto dos indivíduos no 1% do topo permaneceu nesse grupo em 2005. Num estudo posterior que incluiu dados de renda ao longo de 2010, economistas encontraram que "aproximadamente metade dos contribuintes do primeiro e quinto quintil permaneceu no mesmo quintil 20 anos depois. Aproximadamente 1/4 daqueles no último quintil subiram um quintil, enquanto 4.6% foram para o quintil do topo. 

Uma das razões para a controvérsia é que as pessoas superestimam as diferenças entre ricos e pobres. Em um estudo de 2013 publicado na Psychological Science com o título "Better Off Than We Know" (Melhor do que Sabemos), o psicólogo John R. Chambers e seus colegas da Universidade de St. Louis encontraram que a maioria das pessoas estimam que os 20% mais ricos ganham 31 vezes mais que os 20% mais pobres (o correto é 15.5 vezes), e eles acreditam que a média de renda anual dos americanos 20% mais ricos é de $2 milhões, enquanto que na verdade é $169.000, uma diferença perceptual de quase 12 vezes. "Quase todos dos participantes do nosso estudo", os autores concluíram, "superestimaram grosseiramente a média da renda e superestimaram o nível de desigualdade de renda". 

Então tanto desigualdade quanto mobilidade, apesar de não ideal como gostaríamos que estivessem na terra de oportunidades iguais, não são tão grandes e imóveis como a maioria de nós percebe.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Física e a Imortalidade da Alma

por Sean Carroll
Tradução: Felipe Nogueira

O tópico de "vida após a morte" levanta desonrosas conotações de regressão a vidas passadas e casas mal-assombradas, mas há um grande número de pessoas que acreditam em alguma forma de persistência da alma individual após a morte. Claramente essa é uma questão importante, uma das mais importantes que podemos pensar em termos de relevância para a vida humana. 

[O físico] Adam Frank acha que a ciência não tem nada a dizer sobre isso. Ele advoca ser "firmemente agnóstico" na questão (O co-blogger dele Alva Noë discorda). Tenho um grande respeito por Adam; ele é um cara esperto e um pensador cuidadoso. Quando discordamos, fazemos com um diálogo respeitoso que deveria ser o modelo para discordar de pessoas que não são loucas. Mas sobre essa questão ele está completamente errado. 

Adam afirma que "simplesmente não há informação controlada, verificável experimentalmente" em relação à vida após a morte. Por esses padrões, não há informação controlada, verificável experimentalmente sobre se a Lua é ou não feita de queijo. Com certeza, podemos ver o espectro de luz que reflete na Lua e até enviar astronautas e pegar amostras para análise. Mas com isso só estamos arranhando a superfície. E se a Lua for feita quase toda de queijo, mas for coberta com uma camada de pó de alguns metros de espessura? Tem como realmente saber que isso não é verdade? Até realmente examinarmos cada centímetro cúbico do interior da Lua, realmente não temos uma informação verificável experimentalmente, não é mesmo? Então, talvez o agnosticismo na questão da Lua feita de queijo seja justificado (Pegue qualquer informação que temos sobre a Lua; eu te prometo que estará de acordo com a hipótese do queijo).

Obviamente, isso é loucura. Nossa convicção que queijo faz parte de uma fração negligenciável do interior Lua não vem de observação direta, mas da grande incompatibilidade dessa ideia com outras coisas que pensamos saber. Com o que entendemos de rochas, planetas, laticínios e do Sistema Solar, é um absurdo imaginar que a Lua é feita de queijo. Nós sabemos mais do que isso. 

Também "sabemos mais do que isso" em relação à vida após a morte, embora as pessoas são muito relutantes para admitir. Reconhecidamente, evidência "direta" é difícil obter - tudo que temos são algumas lendas e afirmações superficiais feitas por testemunhas não confiáveis que tiveram experiências de quase morte, junto com dosagens elevadas de pensamento desejoso. Mas certamente é adequado considerar a evidência indireta - ou seja, a compatibilidade da ideia de alguma forma de alma individual que sobrevive a morte com outras coisas que sabemos sobre o funcionamento do mundo.

As afirmações de que alguma forma de consciência persiste após nossos corpos morrerem e decaírem nos seus átomos constituintes enfrentam um obstáculo grande e insuperável: as leis da física relacionadas a vida do cotidiano estão completamente entendidas. E não há como essas leis permitirem que a informação armazenada nos nossos cérebros persista após a nossa morte. Se você afirma que alguma forma de alma persiste após a morte, de que partículas essa alma é feita? Quais forças estão mantendo tais partículas juntas? Como essas partículas interagem com a matéria comum?

Tudo o que sabemos sobre a teoria quântica de campos* diz que não há nenhuma resposta sensata para essas perguntas. É claro, tudo que sabemos sobre teoria quântica de campos pode estar errado. A Lua pode ser feita de queijo também.

Entre os defensores da vida após a morte, ninguém nem tenta fazer o trabalho duro de explicar como que a física básica de átomos e elétrons teria de ser alterada para que isso seja verdade. Se tentássemos, o absurdo fundamental da tarefa ficaria evidente bem rápido.

Mesmo que você não acredite que os seres humanos são "simples" coleções de átomos que evoluem e interagem de acordo com as regras impostas pelo Modelo Padrão da física de partículas, a maioria das pessoas admitiriam a contragosto que átomos são partes de quem nós somos. Se realmente não existe nada além de átomos e das leis conhecidas, claramente não há maneira para a alma sobreviver a morte. Acreditar na vida após a morte, colocando de maneira leve, requer uma física que vai além do Modelo Padrão. E mais importante, precisamos de uma maneira para que essa "nova física" interaja com os átomos que possuímos. 

Falando a grosso modo, quando a maioria das pessoas pensa em uma alma imaterial que persiste após a morte, elas tem em mente algum tipo de energia espiritual que reside perto do nosso cérebro e dirige nossos corpos, como uma mãe que dirige um carro utilitário. As questões são estas: que tipo de energia espiritual é essa e como ela interage com nossos átomos comuns? Não é necessária uma nova física apenas, mas uma nova física bem diferente. De acordo com a teoria quântica de campos, uma coleção de "partículas espirituais" e "forças espirituais" que interagem com nossos átomos regulares não podem existir, porque teríamos detectado isso em experimentos existentes. A navalha de Ockham não está do seu lado aqui, já que você teve de postular um aspecto completamente novo da realidade obedecendo regras bem diferentes daquelas que já conhecemos. 

Mas vamos supor que você postule isso. Como a energia espiritual interage conosco? Esta é a equação que nos diz como elétrons interagem com o mundo do dia-a-dia:
Não se preocupe com os detalhes; é o fato da equação existir que importa, não sua forma particular. Essa é a equação de Dirac - os dois termos na esquerda são a velocidade do elétron e sua inércia - ligados com o electromagnetismo e gravidade, os dois termos na direita. 

No que diz respeito a qualquer experimento já feito, essa equação é a correta descrição de como elétrons se comportam nas energias do dia a dia. Não é a descrição completa; não incluí a força nuclear fraca, ou ligações com partículas como o bóson de Higgs. Mas isso não tem problema, já que isso só é importante em altas energias e/ou pequenas distâncias, muito longe da escala relevante para o cérebro humano. 

Se você acredita em uma alma imaterial que interage com nossos corpos, você precisa acreditar que essa equação não está correta, até mesmo nas energias do dia a dia. É necessário um novo termo (no mínimo) na direita, representando como a alma interage com os elétrons. (Se esse termo não existe, elétrons vão continuar no caminho deles como se não existisse alma nenhuma). Então, qualquer cientista respeitável que levou essa ideia a sério estaria perguntando - que forma essa interação tem? É local no espaço-tempo? A alma respeita a invariância de gauge e invariância de Lorentz? A alma tem um [operador] Hamiltoniano? As interações preservam unitaridade e a conservação da informação?  

Ninguém faz essas perguntas em voz alta, possivelmente porque elas soam tão bobas. Quando você começa a fazer tais perguntas, você claramente se depara com uma escolha: ou jogue fora tudo que pensamos ter aprendido de física moderna ou desconfie da mistura de relatos religiosos/testemunhos não confiáveis/pensamento desejoso que faz as pessoas acreditarem na possibilidade da vida após a morte. Não é uma decisão difícil, no que diz respeito à escolha de teoria científica. 

Não escolhemos teorias em um vácuo. Somos permitidos - na verdade, requisitados - a perguntar como que afirmações sobre como o mundo funciona se encaixam no que já sabemos sobre o funcionamento do mundo. Estou falando aqui como um físico de partículas, mas há uma linha de raciocínio análoga da biologia evolucionária. Provavelmente aminoácidos e proteínas não possuem almas que persistem após a morte. E em relação a vírus e bactérias? Onde, na corrente da evolução partindo de nossos ancestrais moleculares até hoje, os organismos deixaram de ser descritos puramente como átomos que interagem através da gravidade e electromagnetismo e desenvolveram uma alma imortal imaterial?   

Não há razão para ser agnóstico com idéias que são radicalmente incompatíveis com tudo o que sabemos de ciência moderna. Quando superarmos qualquer relutância em enfrentar a realidade nessa questão, podemos nos aprofundar em perguntas muito mais interessantes relacionadas ao real funcionamento dos seres humanos e consciência.

Nota do Tradutor:
* Teoria quântica de campos é utilizada para descrever campos de força (e interação entre partículas) nos níveis atômico e subatômico.
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Sean Carroll é físico teórico do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). Ele é autor dos livros From Eternity to Here e The Particle at the End of the Universe. Visite o blog dele (em inglês) aqui.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Avaliação do NHMRC sobre a eficácia da homeopatia

por Felipe Nogueira

A homeopatia é uma forma de medicina alternativa e complementar baseada em dois princípios. O primeiro, chamado de "similar cura similar", diz que substâncias curam os mesmos sintomas (ou doenças) que elas causam. O segundo princípio é a "potenciação" ou "dinamização": a substância é diluídas diversas vezes. Homeopatas utilizam a notação C para identificar a diluição de 1 parte da substância ativa em 100 partes de água. Então, a notação 200C, utilizada por exemplo na preparação do Oscillococcinum, indica que a substância ativa foi, primeiramente, diluída em 100 partes de água. Posteriormente, 1 parte do resultado de cada diluição é diluída novamente em 100 partes de água até totalizar 200 diluições. Isso quer dizer que, no final das 200 diluições, 1 parte da substância ativa foi diluída em 100200 partes de água. Homeopatas chamam as diluições sucessivas de potenciação já que eles acreditam - por mais absurdo que pareça - que, quanto mais diluído o medicamento homeopático, mais potente ele é. 

O National Health and Medical Research Council (NHMRC) é a instituição líder da Austrália no desenvolvimento e manutenção da saúde pública e individual. Sua missão, como está escrita no site, é trabalhar para criar uma Austrália mais saudável.

Recentemente, o NHMRC realizou uma grande avaliação das evidências sobre a eficácia da Homeopatia. A revisão foi feita porque é função do NHMRC prover a melhor evidência para ajudar os australianos a tomarem decisões referentes a questões de saúde. E isso inclui decisões em relação ao uso de medicina alternativa e complementar. O NHMRC publicou um relatório inicial dessa revisão para avaliação do público e das partes interessadas*. Qualquer evidência adicional pode ser submetida para análise até o final do mês de maio. 

Evidências analisadas pelo NHMRC 
Conforme escrito no documento, o objetivo da avaliação foi responder a pergunta "Homeopatia é um tratamento eficaz para condições de saúde, comparado com o não uso da homeopatia, ou comparado com o uso de outros tratamentos?" Para fazer isso, o NHMRC avaliou 57 revisões sistemáticas, que examinaram as evidências da eficácia da homeopatia para 68 condições clínicas.  É importante destacar que:
  • foi considerada "evidência" pelo NHMRC apenas estudos controlados e prospectivos em humanos; não foram incluídas experiências individuais, testemunhos, relatos de casos, ou pesquisas que não utilizaram métodos padronizados.
  • o NHMRC considerou artigos submetidos pelo público  e pelas instituições homeopáticas Australian Homeopathy Association e Australian Medical Fellowship of Homeopathy; 
  • a revisão não levou em consideração se a homeopatia é eficaz na prevenção de condições de saúde ou se a homeopatia é boa para a saúde em geral. 
Homeopatia em comparação com placebo
Foram encontrados estudos comparando homeopatia com placebo para 55 condições clínicas.
Para 13 condições clínicas, a homeopatia não se mostrou melhor que o placebo na maioria dos estudos bem elaborados e com número suficiente de participantes. Essa condições são: vegetação adenoide em crianças, asma, ansiedade ou condições relacionadas ao estresse, diarreia em crianças, dor de cabeça e enxaqueca, dor muscular, parto (indução ou redução), dor devido a procedimento dentário, dor devido a cirurgia ortopédica, íleo pós-operatório, síndrome pré-menstrual, infecções das vias áreas respiratórias superiores, verrugas 

Para 14 condições clínicas, alguns estudos reportaram que a homeopatia é melhor que o placebo, porém esses estudos foram considerados pelo NHRMC como não confiáveis por serem mal elaborados ou com pequeno número de participantes.  Essas condições são: rinite alérgica, déficit de atenção/desordem de hiperatividade em crianças, hematomas, síndrome da fatiga crônica, fibromialgia, ondas de calor em mulheres que tiveram câncer de mama, infecção por HIV, doenças similares a gripe, artrite reumatoide, sinusite, distúrbios de sono ou distúrbios do ritmo circadiano, estomatite devido à quimioterapia e úlceras.

Para 29 condições, apenas 1 estudo comparou homeopatia com placebo e esses estudos não foram considerados confiáveis por serem mal elaborados ou com pequeno número de  participantes. Com isso, não foi possível chegar à conclusão se homeopatia é eficaz ou não para essas condições, que são as seguintes: acne vulgar, otite média aguda em crianças, torção aguda do tornozelo, trauma agudo, amebíase e giardíase, espondilite anquilosante, furúnculo e pioderma, afasia de Broca em pessoas que tiveram AVC, bronquite, cólera, tosse, poliartrite crônica, dificuldades no parto, eczema, vício em heroína, hematoma na junta do joelho, dor na lombar, náusea e vomito associados a quimioterapia, líquen oral plano, osteoartrite, proctocolite, agitação e dor pós operatória (postoperative pain-agitation syndrome), radiodermatite, dermatite seborreica, supressão da lactação após parto em mulheres que não podiam amamentar no peito, AVC, lesão cerebral traumática (leve), prurido urêmico e problemas nas veias causados por cânulas em pacientes recebendo quimioterapia.

Homeopatia em comparação com outros tratamentos
Foram encontrados estudos comparando homeopatia com outros tratamentos para 15 condições de saúde. 
Para 8 condições, alguns estudos reportaram que a homeopatia é equivalente ou mais eficaz que outros tratamentos. Porém, esses estudos foram considerados não confiáveis pelo NHMRC por serem mal elaborados ou não conterem número suficiente de participantes. Essas condições são: otite média aguda ou otite media com efusão em crianças, rinite alérgica, ansiedade ou condições relacionadas ao estresse, depressão, eczema, rinite não alérgica, osteoartrite e infecção do trato respiratório superior. 

Para 7 condições, apenas 1 estudo comparando a homeopatia com outros tratamentos foi encontrado. Esses estudos foram considerados não confiáveis, já que são de baixa qualidade, qualidade desconhecida ou por não conterem número suficiente de participantes. Com isso, não foi possível chegar à conclusão se a homeopatia é eficaz ou não, para as seguintes condições: queimadura de segundo ou terceiro grau, fibromialgia, síndrome do intestino irritável, malaria, proctocolite, candidíase vulvovaginal recorrente, artrite reumatoide. 

Estudos não encontrados
As revisões sistemáticas analisadas pelo NHMRC procuraram mas não encontraram estudos examinando a eficácia da homeopatia em pessoas com as seguintes condições: glaucoma, constipação em crianças, enurese noturna, homens com sintomas no trato urinário inferior, transtorno de personalidade borderline, demência e dor crônica facial. Com isso, não foi possível avaliar se a homeopatia é eficaz para essas condições.

Conclusão
Com o que foi mencionado anteriormente, acredito que a conclusão é bastante deduzível. A tradução da conclusão encontrada na página 10 do relatório é a seguinte:
O NHMRC conclui que a avaliação da evidência da pesquisa em humanos não mostra que a homeopatia é eficaz para tratar as diversas condições de saúde consideradas. 
Não há condições de saúde com evidências confiáveis de que homeopatia é eficaz. Nenhum estudo de boa qualidade, bem elaborado e com número suficiente de participantes para alcançar resultado significativo, reportou que a homeopatia proporcionou mais melhorias na saúde do que placebo ou proporcionou melhorias equivalentes a de outros tratamentos.
Comentários
Ao todo, o NHMRC publicou quatro documentos extremamente detalhados. As revisões sistemáticas incluídas foram extensivamente analisadas; foram publicados os formulários preenchidos com a avaliação da qualidade de cada estudo. Todas essas informações estão disponíveis para consulta on-line*.

Não é de surpreender que essa avaliação foi considerada pelo Edzard Ernst, primeiro professor de Medicina Alternativa e Complementar do mundo, como a revisão mais minuciosa e independente já feita na história da homeopatia. Essa avaliação, segundo Enrst, une duas perspectivas - a do cético e do defensor da medicina baseada em evidências - isolando a perspectiva indefensável do crente na homeopatia. Acredito que mais comentários além do que Ernst disse na seguinte tradução não são necessários
parece mais e mais que homeopatia está se degenerando rapidamente em um culto caracterizado pelo compromisso inquestionável e submissão incondicional dos seus membros que sofreram uma lavagem cerebral tão forte que não percebem que seus fervores os isolaram das seções mais racionais da sociedade. E um culto é dificilmente o que precisamos na saúde, eu deveria pensar. Me parece que esses desenvolvimentos intrigantes podem finalmente terminar com o erro que a homeopatia representou por quase 200 anos. 

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* Todos os documentos da revisão feita pelo NHMRC podem ser encontrados aqui.