quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Jerry Coyne: "A teoria da evolução foi confirmada como verdade diversas vezes"

por Felipe Nogueira

Entrevista com Jerry Coyne
Jerry Coyne é um biólogo evolutivo, professor do Departamento de Ecologia e Evolução da Universidade de Chicago e membro dos comitês de Genética e Biologia Evolucionária. 

Coyne é um grande divulgador da evolução e ciência. Seu último livro é Why Evolution is True, onde ele mostra com clareza as diversas evidências para a teoria da evolução, além de desbancar diversos argumentos de criacionistas.  

Eu fiz uma entrevista com ele, que está disponível no Youtube. Esta é a primeira parte do texto da entrevista. Para aqueles que não sabem, hoje é o Dia de Darwin. Acho que a postagem dessa primeira parte da entrevista, onde eu converso com Coyne sobre diferentes aspectos da evolução, como concepções erradas, evidências e mecanismos, é uma boa maneira de celebrar este dia. Agradeço ao Coyne pela sua atenção e oportunidade de entrevistá-lo.  


Poderia explicar por que evolução não é apenas uma teoria?
É uma teoria e um fato. Como eu explico no meu livro, teoria na ciência tem um significado diferente daquilo que a maioria das pessoas acham. Eu acho que isso foi mencionado no debate entre Ken Ham e Bill Nye. Alguém na audiência disse que evolução é apenas uma teoria, implicando que é apenas um chute ou especulação. Na ciência, teoria é uma proposição ou uma explicação que junta vários fatos para explicar um fenômeno. Então, nós temos a teoria da gravidade ou a teoria microbiana das doenças, por exemplo. Ou a teoria atômica: matéria é feita por constituintes chamados de átomos. Átomos são fatos. Da mesma maneira, evolução é chamada de teoria, porque Darwin propôs um mecanismo explanatório para diversos fatos. Então, evolução assim como a teoria atômica ou teoria microbiana das doenças é tanto teoria quanto fato, mas teoria no sentido cientifico, que é uma explicação bem estabelecida para um diverso grupo de fenômenos. E esse talvez seja o equívoco mais perverso sobre evolução, pelo menos nos Estados Unidos. 

Você mencionou claramente no seu livro que a teoria da evolução é mais do que a afirmação de que a evolução aconteceu e inclui a explicação de como a evolução acontece. Poderia elaborar?
É uma afirmação do que aconteceu e porque aconteceu. O [paleontólogo] Stephen Gould deixou isso claro, embora ele pensava que a teoria era a explicação e o fato era a coisa em si mesma. É uma questão de gosto do que você chama teoria, mas não é uma questão de gosto de que a teoria da evolução é algo que foi confirmada como verdade diversas vezes. Isso é que importante de enfatizar quando você lida com esse equívoco.

As palavras "teoria da evolução" são equivalentes às palavras "síntese evolutiva moderna"?
A teoria da evolução que eu falo no meu livro é a que a maioria das pessoas defendem, basicamente a mesma que Darwin propôs, que envolve os elementos de evolução, transformação gradual de população (genética, apesar de que Darwin não sabia sobre genética), divisão das linhagens, então temos uma espécie que forma outras, montando uma árvore da vida, com cada par de espécies tendo um ancestral comum, e os organismos parecem que eles foram projetos, que é o resultado da seleção natural. Então essa é a teoria Darwiniana da evolução. A teoria Neo-Darwiniana é baseada em genes e há outros processos, como a deriva genética e a transferência horizontal de genes. Eles são importantes e foram confirmados como verdades, mas, para a pessoa que desacredita na evolução, o que ela desacredita é esses cinco elementos que eu mencionei. 

Qual é o equívoco mais comum sobre a evolução? 
Um que é bem comum entre crianças está relacionado com transformação instantânea da população, como se cada individuo virasse outra coisa, ao invés de uma mudança genética gradual na composição da população. Outro equívoco é que não há evidências para evolução, que não temos evidências para que um tipo de animal se torne outro animal com o passar do tempo. Mas a verdade é que há muitas evidências, as pessoas apenas não sabem.

Há o equívoco de que a evolução é apenas um processo aleatório. 
Esse é muito bom: "como tudo isso aconteceu por chance?" É facilmente desbancado se você entende o que é seleção natural, mas é um equívoco bem comum. Nos Estados Unidos, a evolução está associada com todo tipo de coisa religiosa, como se você acredita em evolução, você tem de abandonar a sua moralidade. Essa é provavelmente a razão pela qual pessoas religiosas se opõem à evolução nos Estados Unidos e talvez no Brasil também, já que é um país religioso. Eles perguntam "que base você tem para ser moral, se é apenas um ser evoluído, como um chimpanzé?". E esse equívoco vem de um entendimento errado da real origem da nossa moralidade.  

E também existe o equívoco da definição da palavra aleatória no contexto de mutação aleatória. 
As pessoas leigas não sabem que mutação é um processo aleatório, muito menos entendem o que realmente queremos dizer por processo aleatório. Queremos dizer que a ocorrência de mutações é indiferente dos seuss efeitos  no sucesso reprodutivo dos indivíduos que as carregam. Esse equívoco é provavelmente mais comum entre criacionistas mais sofisticados. Porém, não acho que seja um equívoco, acho que é intencional, algo que eles dizem para fazer as pessoas questionarem a evolução, o que é a missão deles. 

E em relação ao equívoco do elo perdido?
Esse é um equívoco do que um elo perdido realmente é. O elo perdido entre humanos e chimpanzés seria o ancestral comum entre humanos e chimpanzés. Isso é uma única espécie que se dividiu em duas populações: uma que deu origem aos hominídeos e outra que deu origem aos bonobos e chimpanzés. Geralmente não encontramos uma espécie única no registro fóssil, mas não precisamos do elo perdido para provar que humanos e chimpanzés possuem um ancestral comum. Como explico no meu livro, à medida que vamos "para trás" na linhagem humana, esperamos encontrar mais formas intermediárias (ou transitórias) que mostram um ancestral com a forma de um primata. De fato, é isso que encontramos. Ken Ham disse isso no debate com Bill Nye: "temos evidência para evolução para cachorros evoluindo em outros cachorros, mas não para um cachorro evoluindo para um gato". Mas se você olhar para os registros fósseis, você vê essas formas transitórias. Tiktalik, que foi mencionado por Bill Nye, é a forma intermediária entre peixes e anfíbios; há a forma transitória entre anfíbios e répteis, entre répteis e mamíferos. Temos fósseis também entre répteis e aves, temos uma boa coleção de fósseis temos dos dinossauros com penas. Então, temos não apenas os elos entre os maiores tipos de animais que foram previstos pela teoria da evolução como temos também elos entre tipos diferentes que a criação bíblica diz que não poderia existir. Esses fósseis desbancam absolutamente qualquer forma de criacionismo.  

E sobre as idéias dos criacionistas/defensores do design inteligente de que a asa ou olho são muito complexos para evoluírem por mudanças graduais com o passar do tempo?
Darwin foi o primeiro a lidar com o olho no seu livro A Origem das Espécies, mostrando que temos todos os degraus do desenvolvimento do olho em espécies vivas e não há problema em visionar como você vai de um desses degraus para outro. Segundo, há um artigo escrito por Nilsson and Pelger* , onde eles fizeram um modelo simples da evolução de um olho que é uma câmera complexa a partir de um olho que é uma fenda sensível à luz. Eles fizeram suposições bem conservadoras em relação às taxas de mutação, quais as pressões seletivas. Em torno de mil gerações, eles viram esse olho complexo evoluir.
A coagulação sanguínea é outra característica complexa que os defensores do design inteligente utilizam. Eles dizem "como temos essa complexa cascata de reações enzimáticas que resulta na coagulação? Não pode ter evoluído, porque, se qualquer passo intermediário for removido, o sangue não irá coagular. Então, tudo tem de estar lá e Deus que fez". Mas pequisas mostram que você pode remover certos passos intermediários e ainda ter coagulação. Não sabemos como aconteceu, porque não estávamos lá, mas não precisamos observar diretamente para rejeitar os argumentos de criacionistas de que é muito complexo para evoluir. O que você precisa é mostrar que é um cenário plausível, que cada passo tem vantagem adaptativa, mostrando que a evolução foi plausível. E fizemos isso para quase todos esses traços supostamente não passíveis de evolução e muito complexos.       

O livro O Gene Egoísta de Richard Dawkins foca na visão da evolução centrada no gene. Mas o biólogo evolutivo Ernst Mayr era um crítico dessa visão. Qual é a visão atual do alvo da seleção natural?
Quando você usa as palavras "alvo da seleção", você está de alguma maneira antropomorfizando o processo, porque a seleção não é uma força. O que queremos dizer é a unidade de reprodução diferencial que causa a evolução. De forma geral, eu acho que Dawkins está certo. Em quase todos os casos que conhecemos, podemos reconstruir o que aconteceu e ver a base da adaptação evolutiva e a sua base o gene. Resistência a inseticidas em insetos é uma resistência contra inseticidas de organofosfato e em muitos casos é o mesmo gene. Podemos localizar onde está a lesão ocorrida no gene que está causando a resistência. Em muitos casos, é exatamente a mesma mutação em insetos diferentes. Nesse caso e em muitos outros, a seleção iniciou no nível do gene.
Mas há outros possíveis alvos de seleção. Muitos argumentam que a seleção de grupo, onde é o grupo que tem a reprodução diferencial, é uma alternativa viável. Isso tem sido usado para explicar algumas coisas desde da evolução do altruísmo até sexo. Primeiro, grupos não proliferam e são extintos como o indivíduo. Segundo, não consigo pensar em uma adaptação que é boa para o grupo, mas ruim para o indivíduo, que é o que se espera se a seleção de grupo ocorre sobrepondo a seleção individual. E eu acho que Dawkins está bem certo: a coisa que tem de mudar para ocorrer evolução é o gene, mas faz isso afetando o sucesso reprodutivo dos indivíduos que carregam tal gene. Você pode pensar que o gene é o replicador e o indivíduo cuja reprodução é afetada pela interação com o ambiente como o veículo para o gene. 

Mayr era crítico da definição de evolução "mudança na frequência dos genes".      
A maioria das pessoas considera evolução como mudanças observáveis nos organismos com o passar do tempo, como dinossauros evoluíram para pássaros. Mas, é claro, que isso significa que houve uma mudança na frequência dos genes. Prefiro olhar para evolução como a mudança na frequência dos genes, porque certas mudanças nos fenótipos com o passar do tempo não são o que chamamos de evolução. Por exemplo, a população Japonesa cresceu pelo menos 6 polegadas em altura, desde da 2ª Guerra Mundial, por causa de melhorias na nutrição. Não acho que chamamos isso de evolução. Algumas pessoas iriam chamar, porque elas acham que evolução é mudança. Mas para evolução biológica, que é o que estamos falando, temos que ir até o nível do gene, porque o aumento na altura dos japoneses não é evolução biológica. Acho que Mayr estava discutindo semântica, porque, afinal, ele admitiu explicitamente para mim que não sabia nada sobre genética populacional. Então, ele preferiu uma definição que era mais compatível com a área dele, que era a mudança dos fenótipos. 

Você mencionou outros mecanismos além da seleção natural, como a deriva genética. Há também seleção sexual. Qual é a importância deles? 
Seleção sexual é seleção natural; é uma forma específica de seleção natural que envolve acasalamento. Eu não separo isso de seleção sexual, mas algumas pessoas tentaram fazer isso. E.O.Wilson tentou chamar de um processo evolutivo separado. Mas não é; é a mesma coisa. A deriva genética é a mudança aleatória na frequência dos genes devidos a diferenças reprodutivas estocásticas, tais como a diferença na proporção do sexo, e diferença no número de prole, que não estão relacionadas com aptidão. É provavelmente importante na evolução molecular, porque há muitas características na evolução molecular que suas mudanças não afetam aptidão, como as partes do DNA que não fazem nada, o que é conhecido como "DNA lixo". Então, mudanças genéticas nessas regiões provavelmente vão evoluir apenas por deriva genética, porque não podem afetar o sucesso reprodutivo dos indivíduos que os carregam. No contexto de evolução de fenótipos, é difícil provar que uma característica evoluiu por deriva genética ao invés de seleção, dado que uma pequena vantagem seletiva pode causar mudanças ao longo de milhões de anos e é possível medir isso. A frequência mais alta de genes deletérios em populações humanas como Dunker e Amish e a frequência mais alta de genes causadores de doenças em judeus Ashkenasi podem ser atribuídos a deriva genética. Mas é difícil dar exemplos desse processo operando em características observáveis dos organismos. Provavelmente opera, só não temos bons exemplos disso. Há também distorção de segregação (meiotic drive), onde há duas cópias diferentes do mesmo gene e, no momento em que óvulos e espermas são feitos, uma delas mata a outra e isso é representado na próxima geração. Mas você pode pensar nisso como um tipo seleção, embora não seja uma seleção adaptativa; é a reprodução diferencial do gene que não torna os indivíduos que os carregam mais aptos e, na verdade, pode extinguir populações. Então, as duas grandes forças da evolução são a força determinística da seleção natural e a força aleatória da deriva genética. 

Algumas pessoas acreditam que as únicas evidências para evolução é o registro fóssil. Mas mesmo sem o registro fóssil evolução é verdade. Quais são as outras maneiras de corroborar evolução? 
Eu acho que o Dawkins fez esse argumento. Temos evidências suficientes de outras áreas que podemos documentar a evolução sem o registro fóssil. Temos a evidência de que os organismos são relacionados; os dados embriológicos, que só fazem sentido sob o foco da evolução; os dados biogeográficos, que eu descrevo no meu livro, é evidência bem poderosa para evolução; órgãos vestigiais; a existência de genes vestigiais, o genoma humano tem genes para a produção de gemas de ovo e não fazemos gema de ovo, esses genes foram desativados. A explicação para isso é que evoluímos de organismos que originalmente produziam gemas de ovos. Dez anos depois de Darwin, quase todo biólogo e pessoa leiga racional aceitou evolução e não havia nenhum registro fóssil que mostrava a evolução. Mas, para muitas pessoas, o registro fóssil é a evidência mais convincente. Quando é possível mostrar um fóssil de um dinossauro com pena, esse tipo de evidência é bem convincente. 

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* Esse artigo é “A Pessimistic Estimate of the Time Required for an Eye to Evolve” de autoria de Dan-E. Nilsson e Susanne Pelger publicado em Proceedings of The Royal Society of London, Series B, 256, 53-58, 22 de Abril de 1994. 
O resumo do artigo está disponível em: http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/256/1345/53.abstract.



domingo, 22 de dezembro de 2013

"Pare de gastar dinheiro com suplementos de vitaminas e minerais"

por Felipe Nogueira 

"Pare de gastar dinheiro com suplementos de vitaminas e minerais" é a recomendação de um editorial elaborado por médicos pesquisadores publicado no jornal médico Annals of Internal Medicine, no dia 17 dezembro de 2013. Os autores são muitos claros:
O grande corpo de evidência acumulado tem implicações na clínica e na saúde publica. As evidências são suficientes para recomendar contra a suplementação rotineira, e devemos traduzir achados nulos e negativos em ações. A mensagem é simples: a maioria dos suplementos não previne doenças crônicas ou morte, seu uso não é justificado, e eles devem ser evitados. Essa mensagem é especialmente verdadeira para a população geral sem claras evidências de deficiência de micronutrientes, que representa a maioria dos usuários de suplementos nos Estados Unidos e em outros países.
As evidências também têm implicações para pesquisa. Antioxidantes, ácido fólico e vitaminas B são nocivos ou inefetivos para prevenção de doenças crônicas, e grandes ensaios clínicos na prevenção não são mais justificados. Suplementação com vitamina D, entretanto, é uma área aberta de investigação, particularmente em pessoas deficientes. Ensaios clínicos tem sido equivocados e algumas vezes contraditórios. Por exemplo, suplementação com vitamina D, que poderia prevenir quedas em pessoas idosas, reduziu o risco de quedas em alguns ensaios, não teve efeito na maioria dos ensaios, e aumentou as quedas em 1 ensaio. Embora estudos futuros são necessários para determinar o uso apropriado de vitamina D, seu uso difundido não é baseado em sólidas evidências de que benefícios superam os malefícios. 
O editorial se baseia nas evidências de diversos estudos feitos com suplementação multivitamínica. Nessa mesma edição do jornal científico, foi publicada uma revisão sistemática da evidência do uso de vitaminas e minerais na prevenção primária de câncer e doença cardiovascular. 

A revisão incluiu 26 estudos, dos quais 24 são estudos randomizados e controlados. Os autores não encontraram evidências consistentes que suplementos de vitaminas e minerais afetam doença cardíaca, câncer, ou mortalidade em geral em indivíduos saudáveis sem deficiências nutricionais conhecidas. Além disso, a revisão também confirmou o estabelecido dano da suplementação de beta-caroteno na incidência de câncer pulmonar e morte para indivíduos em alto risco de câncer pulmonar. Os autores concluíram da seguinte maneira:
a literatura atual em vitaminas e minerais é suficiente para desencorajar estudos adicionais de beta-caroteno ou vitaminas A, C, e E em populações gerais sem déficits de nutrientes. Estudos adicionais de vitamina D devem ser feitos separadamente de estudos de cálcio. Estudos de vitamina D e cálcio devem incluir todo os benefícios hipotéticos, incluindo prevenção de fratura, para possibilitar uma comparação abrangente de todos benefícios e malefícios. Em conclusão, não encontramos evidências de efeito de doses nutricionais de vitaminas ou minerais em doença cardiovascular, câncer, ou mortalidade em indivíduos saudáveis sem deficiências nutricionais conhecidas para a maioria dos suplementos que examinamos. Na maioria dos casos, os dados são insuficientes para chegar a uma conclusão, embora para vitamina E e beta-caroteno a falta de benefício é consistente entre diferentes ensaios. Identificamos 2 ensaios com multivitamínicos que encontraram menor incidência de câncer em homens. Ambos ensaios são metodologicamente sólidos, mas a falta de efeito em mulheres (pelo menos em 1 ensaio), a significância limítrofe em homens nos dois ensaios, e a falta de qualquer efeito em doença cardiovascular nos dois estudos tornam difícil concluir que suplementação multivitamínica é benéfica.
A mensagem não poderia ser mais clara: pare de tomar suas vitaminas!

  


  




domingo, 24 de novembro de 2013

A pseudociência de Deepak Chopra

por Felipe Nogueira

Se eu tivesse que escolher uma pessoa como ícone da pseudociência, essa pessoa seria Deepak Chopra. Todas as vezes que eu ouvi Chopra, ele usou termos científicos de forma errada diversas vezes - parece que o termo quântico não pode ficar de fora - combinados com idéias religiosas/supernaturais. Quando é possível extrair algum significado do que ele está falando, normalmente contém erros científicos. 

Chopra tem propagado a noção de "medicina quântica" ou "cura quântica". A palavra quântica vem de mecânica quântica, que descreve o comportamento da matéria em escalas microscópicas. Em outras palavras, efeitos quânticos são significantes em escalas muito pequenas e, numa escala muito maior que a atômica, efeitos quânticos desaparecem e não são percebidos. Então, não existe isso de "medicina quântica".

Recentemente, o renomado biólogo evolucionário Richard Dawkins debateu com Deepak Chopra. O debate está no Youtube. É impressionante como Deepak Chopra não consegue responder adequadamente uma pergunta, ou comentar sobre uma determinada questão, sem mudar o assunto, sem usar termos científicos fora de seus contextos. Dawkins mencionou isso diversas durante o debate e ressaltou um dos incorretos usos da palavra "quântica" feitos por Chopra: 
Você usou a frase "salto quântico" aplicada à origem da linguagem, origem da vida e pulos nos registros fósseis. Isso é apenas um uso metafórico do termo salto quântico. Você está usando o termo para uma mudança que ocorreu no mundo que ainda não temos explicação. Por outro lado, você usou a palavra quântica no adequado sentido físico. Você falou de informação digital indo para satélite. Nesse caso, você estava falando sobre teoria quântica no verdadeiro sentido de mecânica quântica. Você está enganando as pessoas ao usar quântico em dois sentidos completamente diferentes, dando a impressão que há algo sobre física moderna, sobre os aspectos estranhos da física moderna, para coisas como a origem da linguagem, origem da vida e quebras no registros fósseis. Essas três coisas - origem da vida, origem da linguagem e quebras nos registros fósseis - são problemas científicos que ainda não respondemos; ainda estamos trabalhando neles. Eles não tem absolutamente nada a ver com o termo quântico no sentido físico.
Outros cientistas também criticaram Chopra. Apenas há alguns dias, o biólogo evolucionário Jerry Coyne fez o seguinte comentário sobre Chopra: 
ele é um pseudocientista, mostrando todas as características desse gênero, inclusive o uso de um jargão sem sentido que soa profundo, a recusa de discutir seriamente suas visões, e a noção de que é perseguido "pelo estabelecimento".
Em um debate na Caltech, o psicólogo Michael Shermer e o neurocientista Sam Harris debateram contra Chopra (e a escritora Jean Houston). Shermer disse o seguinte sobre o modo de falar do Chopra:
juntando, num padrão rápido, um monte de palavras que soam científicas misturadas com palavras espirituais da Nova Era... não quer dizer nada.  
Um das coisas interessantes sobre esse debate na Caltech é que Chopra pede para um físico na platéia falar em sua defesa. Na sessão de perguntas e respostas, o moderador o debate reconheceu o físico teórico Leonard Mlodinow na platéia e pede para ele fazer uma pergunta. Se as críticas de Shermer e Harris não foram suficientes para aquele dia, Mlodinow resolveu a questão claramente (disponível aqui):
Você [Chopra] gostaria de fazer um curso pequeno em mecânica quântica para que possamos corrigir seu uso levemente errado da notação quântica?*
Mlodinow não foi o único físico a criticar Chopra. Em uma coluna na Scientific American, o renomado cosmologista Lawrence Krauss comentou que Chopra é um dos piores abusadores da mecânica quântica para o lucro. Krauss também disse o seguinte Chopra:
Eu tenho lido inúmeros textos dele sobre como mecânica quântica provê racionalidades para tudo desde a existência de Deus até a possibilidade de mudar o passado. Nada que eu tenha lido, entretanto, sugere que ele tem conhecimento suficiente de mecânica quântica para passar em curso de graduação que eu possa lecionar no assunto.  
A pseudociência de Chopra vai além disso. Ele também diz que o universo tem propósito e consciência. De acordo com Chopra, até átomos e partículas subatômicas têm consciência; evolução é orientada pela consciência. É claro que dizer essas coisas não as torna verdades e Chopra não oferece nenhuma evidência para suas afirmações. No debate recente, Dawkins explicou que alguns organismos têm propósito, por conhecidas razões evolucionárias, mas isso não quer dizer que o universo propriamente dito tem propósito. Alguns organismos também têm consciência, mas isso não é verdade para átomos, fótons, elétrons e universo, porque consciência é originada no cérebro. E a evolução deu origem a consciência, então não pode ser guiada por ela.

Acho que a seguinte contradição é bem evidente. Quando um cientista diz que não há evidências para o sobrenatural (Deus, vida após morte, almas e fantasmas, etc), alguns religiosos/espirituais, Chopra inclusive, dizem que a ciência não tem e não pode ter todas as respostas, porque a metodologia da ciência é incompleta. Porém, isso não os impede de usar termos científicos. Parece que ter a crença religiosa e rezar para o Deus deles não são suficientes: eles insistem desesperadamente que a religião deles é apoiada pela ciência, quando não é. 

A importância de mencionar essas coisas é que o entendimento cientifico já está comprometido; Chopra está fornecendo explicações erradas, as pessoas caem, compram e propagam essas idéias sem sentido. Por exemplo, mecânica quântica é, de fato, altamente não intuitiva e estranhas coisas acontecem o tempo todo, mas acontecem, como eu disse, em escalas microscópicas. Entretanto, muitas pessoas acreditam que a mecânica quântica está associada com religião, sobrenatural, espiritualidade, meditação ou misticismo. Essas pessoas estão simplesmente erradas.** Em uma entrevista sobre essas pseudociências relacionadas com mecânica quântica, Krauss é bem claro
mecânica quântica, para melhor ou pior, não trás nenhum benefício espiritual a mais que a gravidade.
Deixar afirmações falsas, como essas feitas por Chopra, espalhar sem críticas é um desserviço para a ciência e falhar em reconhecer a importância do entendimento científico na nossa sociedade. O "obscurantismo intencional" que Chopra tem feito é exatamente o que Dawkins falou no final do debate: "o inimigo da verdade e da ciência."  

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* A discussão entre Shermer, Mlodinow e Chopra não terminou aí e eles tiveram em um debate na Chapman University. O confronto entre Mlodinow e Chopra deu origem ao livro Ciência x Espiritualidade. Dois Pensadores, Duas Visões de Mundo coautorado por ambos. Quando eu fiquei sabendo desse livro, eu pensei que poderia dar um crédito não merecido ao Chopra, embora presumi que Mlodinow iria mostrar a confusão que Chopra faz com frequência. De fato, a parte do Mlodinow é boa e eu recomendo o livro quando eu quero mostrar como um cientista pensa e algumas contradições entre ciência e idéias religiosas (ou espirituais). 

** Se você é uma dessas pessoas, você deveria considerar aperfeiçoar o seu conhecimento cientifico. Por exemplo, se quiser saber mais sobre mecânica quântica, você pode tentar a excelente explicação do físico teórico Sean Carroll disponível em inglês aqui, ou em português aqui  Para uma explicação em português, o livro Quem Tem Medo da Física Quântica do físico brasileiro Ramayana Gazzinelli é excelente.   

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ATUALIZAÇÃO -  02/11/2016: 

1)  No dia 29/10/2016, foi divulgado a escolha de Deepak Chopra como "speaker" numa conferência de autismo.  Em relação à tal escolha, o site de notícias CBC news perguntou a opinião de Timothy Caulfield, que disse o seguinte: 
 
"Chopra é o ícone da pseudociência"

"Ele [Chopra] é como o grande deseducador. Ele legitimiza essas ideias que não possuem base científica e faz com que se pareçam científicas. Ele é realmente uma fonte de um jargão sem sentido"

"Eu acho que nós, como sociedade, precisamos ser incrivelmente suspeitos de pessoas que estão tentando distorcer a ciência para favorecer uma perspectiva que não possui nenhuma evidência por trás."

2) Eu e Iran Filho, um dos colaboradores do Universo Racionalista, traduzimos a excelente introdução de física quântica do Sean Carroll e está disponível aqui. A nota acima foi atualizada. 
    


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Lawrence Krauss: "Ciência é um método para distinguir fato de ficção"

por Felipe Nogueira 

Entrevista com Lawrence Krauss
Lawrence Krauss é um físico teórico renomado, foi um dos primeiros físicos a sugerir que a maior parte da energia do universo reside em espaço vazio, o que atualmente é conhecido como "energia escura". Ele tem participado de vários debates e discussões para divulgação científica e dado palestras ao redor do mundo sobre seu último livro A Universe From Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing. O livro, que ainda não tem edição no Brasil, explica que o nosso universo pode ter surgido a partir do nada.
A Universe From Nothing

Eu fiz uma entrevista com ele, que está disponível no Youtube. Na minha opinião, Krauss é um dos melhores divulgadores da ciência atualmente; um grande defensor do ceticismo científico, da educação científica. Através de seus debates, palestras e livros, tenho aprendido muito com ele por um bom tempo: Krauss é um dos meus educadores, mesmo que eu não conheça ele pessoalmente. Com isso, Krauss é dos meus maiores inspiradores na minha "jornada científica" e, logo, deste blog. Não posso deixar de registrar a minha felicidade em conversar com ele; me sinto honrado de ter feito isso e sou muito grato a ele pela oportunidade e atenção.

Esta é a primeira parte da entrevista. Links: segunda parte | vídeo  no youtube | english version

Nos seus debates, você tem dito que ciência não é uma "coisa", mas sim um processo. Elabore um pouco isso, o que é ciência?
Krauss: Ciência é um método para distinguir fato de ficção. É um método para fazer perguntas sistematicamente e responder essas perguntas em uma maneira que é possível testar. Uma outra coisa importante é que a ciência é baseada em evidência empírica: alguém faz perguntas sobre o universo, alguém testa o universo com perguntas empíricas e observações, então alguém confirma ou refuta algo. A coisa importante é que em ciência você não pode provar que algo é verdade, geralmente você só pode provar apenas que algo é falso, mas, assim como Sherlock Holmes, você se livra das coisas falsas e o que sobra é verdade.

E em relação a concepções erradas sobre ciência?  Por exemplo, eu acho que há uma noção errada de que ciência é uma questão de opinião e deveríamos ouvir "todos os lados da história". 
Sim, como eu gosto de dizer, a ótima coisa sobre ciência é que um lado está geralmente errado. Há questões abertas, onde há incerteza e debate. A resolução dos debates não se dará por retórica ou volume, e sim pela natureza. Então, se você tem uma ideia, faz uma mensuração e essa ideia discorda com a observação, então você joga a ideia fora. Não há discussão, não há necessidade de debater a questão se a Terra é redonda ou plana. Ainda há pessoas que afirmam a Terra é plana. Mas elas estão simplesmente erradas. Como jornalista, você não precisá citá-las. Similar à evolução: há pessoas que de alguma forma não acham que a evolução ocorreu, mas elas estão erradas. E eu tenho de dizer o mesmo sobre o fato de que mudanças climáticas induzidas pelo homem estão acontecendo e que as pessoas que argumentam contra isso estão simplesmente erradas. 

Você falou recentemente que o único conhecimento que importa é o empírico. Poderia elaborar isso? 
Eu não entendo quando as pessoas falam que elas obtém conhecimento através de revelação. Isso simplesmente leva à ilusão. Nós todos, de fato, nos iludimos diariamente. Precisamos ser céticos de nós mesmos e precisamos testar as coisas. Eu posso ver reflexão ou até sabedoria, mas conhecimento vem de observação, teste e experimento. Alguém que afirma ter conhecimento de outra forma, em primeiro lugar, não pode demonstrar, e em segundo, está provavelmente errado.  

Você também mencionou que, nesse processo da ciência, não aprendemos como o universo funciona pela lógica...
O ponto é que a lógica clássica se baseia no que parece razoável. Mas o que parece razoável é baseado na nossa experiência e, à medida que ampliamos a nossa experiência, o que parece razoável pode mudar. Mecânica quântica é o exemplo perfeito. Não parece razoável uma partícula estar em dois lugares ao mesmo tempo, mas na mecânica quântica é isso o que acontece. Baseado em observações, é possível fazer raciocínios cuidadosos e argumentos lógicos. Mas presumir o que é lógico ou usar lógica clássica tem de ser feito com cuidado, porque o mundo não é clássico. 

O que você quer dizer com o "mundo não é clássico"? 
Como Richard Dawkins [renomado biólogo evolucionário] diz e eu gosto de repetir, nós evoluímos o nosso senso de lógica e raciocínio para escapar de leões na Savana e na África; não para entender mecânica quântica. Mas, em escalas muito pequenas e em escalas muito grandes, o universo se comporta de uma maneira que parece paradoxal para nós. E é paradoxal para nós porque nossa intuição é baseada num segmento pequeno da realidade e esse segmento não se aplica universalmente e precisamos ter cuidado para não fazer isso. Ciência nos ensina que nossas visões míopes não necessariamente representam toda a realidade e temos de ter muito cuidado para concluir que aquilo que pensamos ser natural ou sensível é isso realmente.

As pessoas dizem que a ciência muda o tempo inteiro e que isso é uma coisa ruim.
Ciência realmente muda, é chamado de progresso. Muda em uma maneira bem definida. Não jogamos fora o que foi feito antes. Isso é uma das concepções erradas da ciência. O que sobrevive ao teste e experimento sempre sobrevive. Até as Leis de Newton, que foram substituídas pela Relatividade Geral e Mecânica Quântica, na escala que elas se aplicam, para o movimento de balas de canhão, bolas de basebol, mísseis contra a Síria, as Leis de Newton sempre aplicarão. Então, podemos aprender coisas novas nas fronteiras da conhecimento - de fato, sempre iremos, o que faz a ciência ser maravilhosa - que mudam a nossa figura subjacente das coisas, mas há uma consistência na nossa habilidade de prever, e não jogamos fora o que foi feito antes.

Qual a sua opinião sobre filosofia? 
Filosofia é útil para refletir sobre o conhecimento gerado pela ciência. E todos os bons filósofos que eu conheço fazem isso. Eles usam lógica e raciocínio rigoroso para refletir em cima do conhecimento, interpretá-lo, e fazer novas perguntas. Então, filosofia é útil às vezes para fazer perguntas, mas é a ciência que é útil para obter as respostas e gerar esse conhecimento. Eu acho que qualquer filósofo que argumenta o contrário está exagerando. Como eu disse, tenho muitos amigos filósofos e acho que concordamos que é para isso que filosofia é bom. E filosofia era indistinguível da física na época de Filosofia Natural, mas as duas divergiram. Filosofia simplesmente não é o jeito certo de gerar conhecimento sobre o mundo, é o jeito de refletir sobre esse conhecimento. 

As pessoas aplicam palavras, como "teoria" ou "nada", de forma diferente do que na ciência. O que é teoria para ciência? 
Teoria em ciência é o nível mais alto de conhecimento, não é uma hipótese. Teoria, como a teoria da gravitação universal de Newton ou teoria quântica, é uma suposição matemática que foi submetida a testes várias e várias vezes. Então, quando falamos que evolução é uma teoria, estamos colocando-a no pedestal mais alto possível, não sugerindo que é uma hipótese aleatória. 

Mas há um artigo que você escreveu há um tempo atrás que dizia que a teoria das cordas não é uma teoria no mesmo sentido que evolução é uma teoria...
Cientistas são humanos e usam as palavras de forma errada como qualquer outra pessoa. E agora estou feliz de dizer que eu convenci pessoas como Brian Greene [físico teórico de cordas], que é meu amigo, e ele concorda comigo agora - mas é claro que ele não me cita - que a teoria das cordas não é uma teoria e não deveria ser chamada de teoria. Há muitas teorias que não temos e um bom exemplo é a teoria quântica da gravidade. Não temos uma teoria do que acontece no centro da singularidade de buracos negros, não temos ainda uma teoria do que acontece quando t = 0 no big bang. Temos ideias, mas não fomos capazes de testá-las. Algumas pessoas argumentaram que complexidade é uma teoria - Teoria da Complexidade - mas eu não estou convencido que há realmente uma base teórica da complexidade. 

A teoria das cordas não é uma teoria por que não faz previsões ainda ou por que as previsões que faz não são refutáveis neste momento? 
Teoria das cordas é ambos. Realmente não faz previsões neste momento porque ainda é uma ideia em desenvolvimento. E todas as vezes que faz previsões, eles descobrem que provavelmente são prematuras. As previsões que poderia fazer estão provavelmente além do escopo do experimento, embora teóricos espertos continuam pensando em maneiras de como testar as idéias, como a existência de dimensões extras, por exemplo. Há uma pequena possibilidade de testar tais dimensões no Large Hadron Collider, mas é uma possibilidade bem pequena na verdade. 

O que você quer dizer que o universo pode ter surgido a partir do nada no seu último livro? 
Eu quero dizer que é plausível, dado tudo o que sabemos e toda medida que fizemos sobre o universo que pode ter surgido a partir do nada: sem espaço, sem tempo, sem partículas, sem radiação. Em particular, se perguntarmos quais seriam as características de um universo que surgiu do nada, dada as conhecidas leis da física e algumas extrapolações razoáveis das leis da física, seriam as características do nosso universo.  

No seu livro e nas palestras, você define três níveis de "nada".
Sim, nada, assim como teoria, é uma palavra que tem diferentes significados para diferentes pessoas. Como eu gosto de dizer que as pessoas que não gostam do que eu digo definem nada de um jeito que só Deus pode criar algo. Mas, para muitas pessoas, nada era o espaço vazio da Bíblia. É claro que isso não é nada, nós mostramos isso. Esse tipo de nada pode criar algo.* Isso pode ser definido como nada: espaço vazio é uma boa aproximação, mas é mais complexo que imaginávamos. Então, eu digo que uma versão mais dramática do nada envolve não só a ausência de partículas, tempo e radiação, mas a ausência do espaço-tempo também. O espaço-tempo pode vir à existência por qualquer teoria razoável da gravidade quântica. E, então, a versão final do nada: talvez até as leis que governam como as coisas evoluem no nosso universo são acidentais. Essa é última versão: sem leis, sem espaço, sem tempo, sem matéria, sem radiação. Bem, isso pode não ser o nada, mas é um nada muito bom para mim. 

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* Lawrence Krauss está se referindo ao fato de que espaço vazio, ou vácuo, contém partículas virtuais criadas a partir do nada e que rapidamente deixam de existir. Elas são chamadas virtuais porque não podemos observá-las diretamente, mas seus efeitos indiretos foram observados repetidas vezes. Na verdade, essas partículas "virtuais" são responsáveis pela maior parte da massa do seu corpo (e a maior parte da massa do universo reside em espaço vazio)!
No seu livro, Krauss menciona outro fato interessante sobre as partículas virtuais: a teoria prevê o impacto dessas partículas virtuais no espectro do átomo de hidrogênio. E essa é a melhor, mais correta, previsão em toda a ciência: a previsão teórica e observações estão de acordo em 1 parte em um bilhão!!

Links: Parte 2 | Youtube | Versão em inglês

Lawrence Krauss: "As doutrinas das grandes religiões do mundo são incompatíveis com a ciência"

por Felipe Nogueira

Entrevista com Lawrence Krauss

Lawrence Krauss é um físico teórico renomado, foi um dos primeiros físicos a sugerir que a maior parte da energia do universo reside em espaço vazio, o que atualmente é conhecido como "energia escura". Ele tem participado de vários debates e discussões para divulgação científica e dado palestras ao redor do mundo sobre seu último livro A Universe From Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing. O livro, que ainda não tem edição no Brasil, explica que o nosso universo pode ter surgido a partir do nada.

Esta é a segunda parte da entrevista que fiz com ele, que está disponível no Youtube. Me sinto honrado por ter feito isso e só agradeço ao Krauss pelo tempo e pela atenção.

Links:  Primeira parte | Video no Youtube | English version.

Eu sou fascinado com a ideia de computação quântica.
Krauss: Computadores quânticos são uma idéia fascinante, mas o ponto é que eles permitem fazer certos algoritmos que classicamente não são possíveis, como fatorar números grandes em seus números primos. Todo número tem um expressão única em termos de produtos de números primos. Os números primos que números muito grandes são produtos não podem ser facilmente determinados. Esse algoritmo é possível em computadores quânticos. Por que deveríamos nos importar? Acontece que as pessoas usam números grandes e seus primos como chaves de segurança de cartões de crédito e contas bancárias. Então, se pudermos fatorá-los facilmente, teremos de pensar em outras maneiras para garantir a segurança. Essa é a notícia ruim. A boa notícia, entretanto, é que computadores quânticos permitem encriptação quântica e de certa forma possibilita ver se alguém espionou uma mensagem (eavesdropping). Então, há ganhos e perdas com computadores quânticos. Mas não está claro que poderemos fazer computadores quânticos praticamente.

Não conseguimos fazê-los por causa da decoerência quântica?  
Em geral, isso está certo. O mundo quântico é geralmente invisível por boas razões porque as interações das partículas com o ambiente destroem as correlações quânticas e é precisamente as correlações quânticas que se deseja explorar para fazer um computação quântica ou teletransporte quântico.    

Sobre ciência e moralidade, você diz que sem a ciência nossas morais são inúteis?        
Sim. Todo mundo que diz que moralidade é baseada em religião, na verdade baseia moralidade na razão. Eu digo para as pessoas com frequência que se elas não acreditassem em Deus elas provavelmente não mataria seus vizinhos. Embora, algumas pessoas dizem que matariam. O ponto é que a ciência nos diz as consequências das nossas ações. E se não sabemos as consequências de nossas ações, não podemos determinar certo e errado. Então, usamos razão, evidência empírica das consequências das nossas ações e raciocinamos sobre nisso para determinar o que é apropriado. A maioria das pessoas opera dessa forma e nisso que as leis da maioria das nações são baseadas, não são baseadas em doutrinas religiosas, mas sim na razão e evidência empírica. Como Steven Pinker [renomado psicólogo evolucionário] colocou, você pode perguntar como Deus sabe o que é certo e errado. Há duas possibilidade. Uma é que ele inventou arbitrariamente e, nesse caso, qual é o ponto de se preocupar com isso?  Ou a segunda: ele baseia certo e errado no que é razoável, mas se ele faz isso, podemos nos livrar do homem do meio e ir nós mesmos diretamente na razão.

Você acha que há uma moral objetiva?  
Acho que há morais universais no sentido que as pessoas são biologicamente programadas para pensar que certas coisas são erradas, como, por exemplo, a maioria das pessoas acha a priori que incesto é repulsivo. Mas há razões biológicas para isso. Eu acho que moralidade é determinada contextualmente, num contexto relacionado ao tempo e certas circunstâncias. E como eu digo, em certas circunstâncias, incesto não é errado na minha opinião. Deixando claro: em certas circunstâncias, não é óbvio que é errado ou imoral.

Você disse que as leis da mecânica quântica são determinísticas, mas e as distribuição das probabilidades?
As equações subjacentes são equações diferenciais secundárias, que são determinísticas: a partir de um conjunto inicial de condições, é possível derivar sem ambiguidade. A função de onda evolui deterministicamente, então a física subjacente evolui deterministicamente. É totalmente verdade que efetivamente do ponto de vista de observação ou experimento as coisas são probabilísticas, mas as leis subjacentes são determinísticas.     

O que você acha sobre livre-arbítrio?
Acho que é um ilusão, uma ilusão eficiente. Vivemos em um mundo que para todas as intenções e propósitos se comporta como um mundo em que temos livre-arbítrio. A questão se livre-arbítrio existe ou não é uma dessas questões irrelevantes.

Você deixa bem claro que usar Deus como explicação é uma escapatória...
Sim. As pessoas querem dizer muitas coisas diferentes com Deus, porque Deus não é bem definido. Todo mundo inventa o seu próprio Deus. Quando as pessoas usam o termo Deus, é bem pessoal e pode significar muitas coisas diferentes. É um termo mal definido, não é para menos porque é uma ilusão.

Algumas pessoas argumentam que ciência e religião são compatíveis, porque alguns cientistas acreditam em Deus.   
Isso é ridículo. Há cientistas que podem manter crenças mutualmente contraditórias. E esses cientistas viram ateus quando eles entram no laboratório e param de ser ateus quando saem do laboratório. Então, se você consegue ignorar tudo que você acredita em uma circunstância, é absolutamente compatível. E uma crença vaga em uma certa ordem e propósito no universo não é incompatível com a ciência: não evidência para isso, mas não é incompatível. Mas as doutrinas das grandes religiões do mundo são incompatíveis com a ciência. Então, um deísmo vago é compatível com a ciência, mas certamente não a crença nas grandes religiões.  

E em relação à ideia de que ciência lida com as perguntas do tipo "como?" e religião lida com as perguntas do tipo "porque?"
Isso é besteira. Religião não lida com nada. O que nós queremos dizer com "por que"? Se você pergunta por que, você assume propósito. Religião presume propósito e presume respondê-lo. Mas a presunção de propósito é uma presunção. A não ser que você estabeleça evidências de propósito, você está inventando coisas e é por isso que religião inventa coisas.

Algumas pessoas religiosas usam o argumento do ajuste fino do universo como um "ponto" para eles...
Eles não entendem do que estão falando. A antiga afirmação de que abelhas foram finamente ajustadas para ver as cores de flores e isso significaria que elas fora projetadas. Mas não. Se elas não pudessem ver as cores das flores, elas não iriam obter o néctar e não seriam capazes de reproduzir. Nossas características parecem de um jeito que são finamente ajustadas para o universo em que vivemos. Para colocar do outro jeito, elas sugerem que o universo é finamente ajustado para nós. Mas isso pode ser um acidente. Evoluímos nesse universo; se tivéssemos evoluído em outro universo, nossas características poderiam ser diferentes. Segundo, o universo não é finamente ajustado para vida: o universo é bem inóspito para vida e ele está tentando nos matar todo o tempo. Terceiro: há constantes que poderiam ser mais naturais e isso faria a vida ser ainda melhor. Todos esses argumentos são baseados numa falta de entendimento do ajuste fino.   

E sobre o documentário The Unbelievers*? Você sabe se terá distribuição no Brasil? 
Estamos na fase final da negociação das distribuições. Terá uma distribuição mundial em 2014 e estará em alguns cinemas nos Estados Unidos em 2013. Certamente será distribuído na Amazon, Netflix, video sob-demanda, e por DVD. Se terá distribuição no cinema, dependerá da negociação com cada país da qual eu não faço parte.
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* The Unbelievers ("Os Incrédulos") é um documentário que acompanha Lawrence Krauss e o renomado biólogo evolucionário Richard Dawkins na divulgação da ciência e defesa da razão em vários lugares do mundo. 

Paul Offit: "Peço para as pessoas serem mais céticas"

Entrevista com Paul Offit
Paul Offit é um pediatra americano, chefe da Divisão de Doenças Infecciosas do Children's Hospital of Philadelphia (Hospital da Criança da Filadélfia) e foi co-inventor da vacina do rotavírus. Seu último livro, Do You Believe in Magic? The Sense and Nonsense of Alternative Medicine, é uma análise crítica da medicina alternativa. 

Esta é a segunda parte da entrevista que fiz com Paul Offit, que está disponível no Youtube. Links: primeira parte | video no youtube

Com maiores riscos de adquirir doença cardíaca e câncer com a ingestão de vitamina E, você está ciente que hepatologistas usam vitamina E para esteato-hepatite não alcoólica*?
Não estou familiarizado com esses dados. Se há estudos claros mostrando que vitamina E é uma valiosa adição nessa situação, tudo bem. Mas eu não conheço esses dados. O que me impressiona na história da vitamina E é o seguinte. Eu peguei um frasco de vitamina E que dizia "vitamina E natural 1000", mas no verso do rótulo estava escrito que continha 3330% do limite diário recomendado, o que é 33 vezes o limite recomendado. Essa cápsula gelatinosa tem metade do tamanho de uma amêndoa, que é uma ótima fontes de vitamina E. Você precisaria comer 1650 amêndoas para obter a mesma dose dessa cápsula gelatinosa. Isso não é uma coisa natural a se fazer. É por isso que não entendo porque eles colocam a palavra natural no rótulo. Mas as pessoas nunca vêem dessa maneira. Eu acho que tomar grandes quantidades de qualquer coisa deve ser visto com suspeitas. E agora sabemos: se tomar grandes quantidades de vitamina E ou betacaroteno por um tempo prolongado, você aumenta o risco de câncer, aumenta o risco de doença cardíaca e potencialmente diminui a sua vida. Esses dados são claros: há 20 estudos que mostram isso. Se fosse uma indústria regulamentada, eu acho que teria um aviso em uma tarja preta, mas o que está escrito é que a FDA. não aprovou o medicamento para tratar ou prevenir doenças.

E suplementação multivitamínica, sem doses exageradas?
Há um estudo com mulheres que tomaram suplementação multivitamínica, que tem a dose próxima do limite diário recomendado, e elas foram pior do que as que não tomaram. Eu gostaria de ver esse estudo ser repetido, antes de dizermos isso com alguma confiança. Mas o perigo disso é o seguinte. As pessoas pensam "minha dieta não é perfeita" ou "não presto muito atenção na minha dieta e talvez eu não estou comendo a quantidade necessária de frutas e vegetais, então talvez não estou obtendo a quantidade de vitaminas que preciso, então só para ter certeza vou tomar esse multivitamínico". A falsa suposição é que as vitaminas dos suplementos serão processadas da mesma maneira do que as vitaminas da frutas ou vegetais. Eu acho que você está muito melhor servido e será mais barato se você apenas gastar tempo pensando na sua dieta.         

Eu acho 
uma forma de preconceito assumir que suplementos de vitaminas são seguros. Não sei da onde vem essa confiança das pessoas. É como responder antes de fazer a pergunta. O que você acha?  
Sim. Eu dou crédito para indústria, que consegue se vender como natural. Em um lado você tem a grande indústria farmacêutica, que faz produtos sintéticos e só quer ganhar dinheiro e não se importa. E você tem a indústria nutracêutica e a de suplementos dietéticos que se vendem como natural, que não fazem mal nenhum, e cujos suplementos são feitos por hippies ao lado de montanhas floridas. Isso não é verdade. Pfizer e Hoffman-LaRoche são bem ativas na indústria de suplementação dietética e elas são grandes empresas farmacêuticas. Segundo, é uma indústria não regulamentada, sem obrigação de apoiar suas afirmações e que nos Estados Unidos conseguiu influência política para impedir a FDA de regulamentá-la.

Por que as pessoas acreditam que há uma controvérsia, quando não há? Isso acontece, ainda mais historicamente, com evolução e criacionismo...
Há 4000 estudos publicados diariamente em jornais médicos científicos. Não surpreendente, eles seguem uma "curva em forma de sino" [distribuição normal]: alguns deles são excelentes, alguns são ruins e a maioria é mais ou menos na média. Isso quer dizer que você consegue encontrar um estudo que prova qualquer coisa. Seria um estudo ruim, mas isso não importa. Em 1950, quando os dois primeiros estudos saíram mostrando que fumar cigarro estava associado com câncer pulmonar, esses dados não poderiam ser mais claros. Mas a indústria disse que isso era controverso, porque tinha sido feito em ratos e foi mostrado que cigarro não era prejudicial. E "aqui está meu amigo Bob que está vivo até os 90 anos e fuma diariamente e está bem". Isso foi apresentado como controverso até não poder ser mais taxado de converso, porque havia muitos dados. A mesma coisa aconteceu com a fusão fria. Quando a fusão foi proposta em 1980, isso era controvérsia, até ser impossível chamar de controvérsia. E eu acho que isso irá acontecer com essas  altas doses de vitaminas. Eu tenho de acreditar que, em algum momento, a FDA vai levantar e dizer que há danos sendo feitos e que não podem ser ignorados, porque existem 20 estudos.

E outras tipos de medicina alternativa, como acupuntura? Você acha que tem valor para alguma condição?
O trabalho de Edzard Ernst, que eu acho brilhante, foi o primeiro a fazer estudos com agulhas retráteis que mostraram que se você pensar que a agulha está indo dentro da sua pele é tão valioso quanto a agulha realmente ir dentro da sua pele. Há estudos mostrando que algumas pessoas podem aprender a liberar neuro-endorfinas com acupressão. Posso te dizer que há dois pediatras no Hospital da Criança da Filadélfia que são treinados como acupunturistas - é como ser treinado para ser vidente, na minha opinião - e querem trazer acupuntura para o hospital. Isso não vai acontecer. Por que eles querem isso? Eu acho que é porque os pacientes demandam. Ao invés de fazer o que deveríamos como médicos, que é ajudar pacientes, ao invés de definir um padrão profissional, nos tornamos garçons em um hospital. O Hospital da Universidade da Pensilvânia, que faz parte da faculdade de medicina da Universidade de Pensilvânia, oferece reiki para ajudar a manipular energias de cura na clínica de oncologia. Não acho que isso seja danoso, mas cria essa noção de que há energia de cura a serem manipuladas.

As pessoas precisam entender que se um tratamento funciona não quer dizer que funciona da maneira que afirma.
Esse é um argumento muito bom. Mehmet Oz, que é bem popular nos Estados Unidos e tem um programa de televisão que 4 milhões de pessoas assistem anualmente, foi perguntado o que ele faz quando suas crianças ficam doente. Ele respondeu: minha a mulher dá arnica homeopática e, se elas não melhorarem, então ela me liga." Aqui está a lógica disso. Provavelmente 80% das doenças que vemos na emergência do Hospital da Criança da Filadélfia são auto-limitadas. Elas vão embora sozinhas, por exemplo infecções virais do nariz e garganta. Então, você pode fazer o argumento de que a arnica homeopática não irá machucá-los e a probabilidade é que eles estejam com uma infecção viral. Dar arnica homeopática significa que as crianças não estão tomando antibiótico para infecção viral, o que é bom. Significa que elas não estão tomando uma preparação para tosse e resfriado, que contém pseudoefedrina, que pode ser bem prejudicial especialmente para crianças novas, e isso é bom. E elas melhoram. O problema é ele ou a mulher dele acreditar que a arnica fez elas melhorarem. Então, você dá próximo e possivelmente terrível passo: quando uma criança tem asma, você dá broncodilatadores homeopáticos. Crianças tomaram broncodilatadores homeopáticos e morreram, ao invés de tomar broncodilatadores reais, que salvariam a vida delas.

Qual foi o objetivo de escrever o seu livro Do You Believe in Magic?
Acho que tenha essa noção fantasiosa de que, se você explicar de uma forma clara, convincente e interessante, as pessoas podem parar e pensar no que elas estão fazendo. É tudo que eu peço. O que eu peço é para as pessoas serem mais céticas com que elas põem nos seus corpos. Acho que você deve ser cético com tudo que você põe no corpo, inclusive vacinas.

No seu livro, você menciona que nós usávamos explicações sobrenaturais para as doenças e hoje foram substituídas. Você acredita que idéias religiosas ou sobrenaturais dificulta ou cria uma barreira para o entendimento científico?
Sim. Quando eu escrevi esse livro, eu recebi vários emails raivosos de pessoas que acredito que tiveram seus sistemas de crença atacados por mim. Eu ataquei a igreja de vitaminas e suplementos. Na verdade, meu próximo livro tem a ver com isso e o subtítulo deve ser: "o confronto entre medicina moderna e crenças religiosas". Religião é um sistema de crença e ciência é um sistema baseado em evidência. As pessoas fazem com que o que deveria ser um sistema baseado em evidências seja um sistema de crença.

Por que as pessoas não acreditam na medicina moderna?
Acredito que é porque pode ser frustante, tecnológica e fria. O que a medicina alternativa oferece é algo "quente" e construído em cima de alguma espiritualidade. E o fato de que a  medicina moderna é incerta. Há muitas coisas que não sabemos. Tenho certeza que saberemos mais em 100 anos do que sabemos agora. Estamos constantemente gerando novas informações, isso é que é a ciência. Na ciência, à medida que geramos novas informações, você pode pegar gerar um livro texto e jogar fora sem dúvida. Isso é uma coisa boa, a ciência é mutável, é sempre auto-corretiva. Acho que a incerteza é desconcertante, quando você tem a certeza do Andrew Weil. Se você olhar os livros dele, ele não apenas diz como tratar sua hepatite, ele diz como ser amigo, como educar suas crianças; é como uma bíblia. Acho que as pessoas são atraídas a isso.

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 *É uma recomendação publicada em um guideline da American Association for the Study of Liver Diseases, American College of Gastroenterology e American Gastroenterological Association disponível aqui. 

domingo, 22 de setembro de 2013

Paul Offit: "Ciência não tem nada a ver com ser mente aberta"

por Felipe Nogueira Barbara

Entrevista com Paul Offit
Paul Offit é um pediatra americano, chefe da Divisão de Doenças Infecciosas do Children's Hospital of Philadelphia (Hospital da Criança da Filadélfia) e foi co-inventor da vacina do rotavírus. Ele já escreveu livros sobre a importância das vacinas, além de esclarecer os riscos, que são frequentemente mal compreendidos pela população. Como exemplo, várias pessoas acreditam que a vacina MMR ou tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) causa autismo. No entanto, essa suposta relação já foi cientificamente analisada e sabemos que está errada.

Este ano ele lançou o livro Do You Believe In Magic? The Sense and Nonsense of Alternative Medicine, onde analisa criticamente a medicina alternativa.  Eu já traduzi um de seus textos, sobre o perigo do uso excessivo de suplemento de vitaminas, disponível aqui. 

Eu fiz uma entrevista com ele, que está disponível no Youtube. A entrevista será dividida em dois posts. Este é o primeiro. 

Quando exatamente começou o movimento de anti-vacinação?
Acho que começou com a primeira vacina. A vacina da varíola, que foi desenvolvida por Edward Jenner no final do ano 1700. Houve uma violenta oposição a essa vacina logo no início do ano 1800 e a razão disso é que a vacina era obrigatória. As pessoas não gostam de ouvir do governo que elas precisam de vacina. Então, isso aconteceu com a primeira vacina e é verdade hoje. Se você conversar com os profissionais da anti-vacinação, como National Vaccine Information Center, Moms Against Mercury, Safeminds, Generation Rescue, eu acho que eles parariam o movimento da anti-vacinação se as vacinas fossem opcionais.

Vacinas podem causar complicações mais sérias. Por exemplo, existe uma associação da Síndrome de Guillain-Barré com a vacina da gripe? Qual é esse risco real ?
Eu acho que pode ser dito com confiança que a vacina para gripe suína usada em 1976 tinha um risco de causar Síndrome de Guillain-Barré em 1 de 100.000 pessoas vacinadas. Não está claro se as vacinas usadas depois disso causam Guillain-Barré. Mas o limite da detecção é 1 por milhão. Então, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças  e outros grupos que tentaram caracterizar isso afirmam que não podemos dizer que é mais comum do que 1 por milhão. As pessoas tem essa vaga noção que vacinas podem causar Síndrome de Guillain-Barré e desde da vacina da gripe suína de 1976 não há evidência clara para isso.

Se uma vacina causa um sintoma, a doença que essa vacina tenta prevenir normalmente causa o mesmo sintoma com maior risco. Você poderia comentar sobre isso?
O melhor exemplo para isso é trombocitopenia, que é baixa quantidade de plaquetas. A vacina de sarampo pode causar trombocitopenia. Há alguns estudos que foram consistentes e reproduzíveis. A vacina de sarampo causa trombocitopenia de 1 a cada 25.000 até 1 cada 30.000 vacinados. O vírus do sarampo também faz isso e é muito mais comum. Uma pessoa vacinada para catapora pode ter um leve rash em 8 até 12 dias depois de ser vacinada o que é consistente com menos de 5 bolhas, mas às vezes pode causar 30 bolhas, mas se alguém pegar a catapora pode ter de 300 a 500 bolhas.         

Sabendo que a vacina MMR (tríplice viral) não causa autismo, o quanto você acha perigoso divulgar informação não corroborada pela ciência?
Eu gostaria de ter a resposta para isso. Eu acho que, uma vez que você assusta as pessoas, é difícil desassustá-las. Quando se abre a caixa de pandora, é difícil fechá-la. Quando essa pergunta foi levantada por Andrew Wakefield em 1998 com a sua publicação no Lancet, aquilo não era um estudo, era apenas uma série de casos de 8 crianças que foram vacinadas e desenvolveram sintomas de autismo em 1 mês. Não era um estudo, era apenas uma série de casos. Subsequentemente, foram feitos 12 estudos com um grupo grande de pessoas que receberam e não receberam a vacina para responder a pergunta "você tem maior risco de desenvolver autismo se for vacinado?". A resposta foi bem reproduzível: não. Mas como você convence as pessoas? Em um lado, eu acho que as pessoas se convencem muito mais por anedotas do que por estatística. Então, se a Jenny McCarthy for na Oprah e dizer chorando "eu vi o meu filho receber essa vacina, eu vi a alma dele sair pelos olhos", é muito convincente. Um cientista no programa diria "ok, pergunta justa: pode a vacina ter causado o autismo? Quando foi vacinado estava bem, agora tem sintomas de autismo. Isso é uma relação de causa e efeito? Isso é apenas um efeito temporal? Ou é um efeito plausível?" Você pode responder essa pergunta. É uma pergunta científica. Pode ser e foi respondida de forma cientifica. Mas como você convence as pessoas com a ciência? E como você supera anedota com a ciência? E a mídia tem um papel fundamental e eles não são bons nisso.

E em relação a sua história com urologistas, PSA e câncer de próstata? Se a maioria dos homens com câncer de próstata morrem com ele e não por causa dele, temos de pesar os benefícios e os riscos da remoção da próstata. 
Sim. Eu fiquei trocando de urologistas, porque os urologistas que eu estava indo continuavam com a noção de repetir exames de PSA e biópsias. Há morbidade associada a isso. Meu pensamento era achar um urologista que estivesse praticando medicina consistente com a evidência de que PSAs e biópsias não estão associados com maior duração da vida de homens americanos. Muitos PSAs e biópsias significam muito dinheiro para os urologistas e eles estão vivendo disso. Foi bom poder achar um urologista disposto a praticar medicina baseada na evidência. Eu vi um artigo que saiu há poucas semanas no New England Journal of Medicine que comparou as pessoas que tomaram finasterida com quem não tinha tomado. O estudo encontrou, nas pessoas que tomaram finasterida, uma menor incidência de câncer de próstata que é improvável de matar, os mesmos tipos que causam altos níveis PSA, que são chamados de neoplasia intraepitelial prostática tipo I e II. Isso é improvável de matar. O problema acontece quando o câncer chega no terceiro estágio. Como os urologistas frequentemente vão perseguir diagnósticos com contínuos níveis de PSA e biópsias, a finasterida diminui o risco de alguém passar por isso. De qualquer maneira, é um sistema falho, por todas as biópsias que foram feitas, por todos os PSA que foram feitos, não estão associados com maior duração da vida de homens americanos. Mas isso é uma boa forma de fazer dinheiro para os urologistas. Então, acho que eles não irão desistir.

Qual a sua opinião sobre estudantes medicina serem ensinados em faculdades de medicina disciplinas não científicas?
Eu acho criminoso. Eu recebi um e-mail de um aluno da Universidade do Estado de Nova York do terceiro ano da faculdade de medicina. Ele disse que ele teve uma palestra de um homeopata, que explicou que a água pode lembrar que havia uma substância ativa no passado, o que não faz o menor sentido. Então, ele escreveu uma carta para o reitor da medicina dizendo que ele estava ofendido por um homeopata ter lecionado na faculdade medicina, que deveria ser baseada em evidência e não mística. O reitor respondeu que ele deveria ser mais mente aberta. Bem doloroso. Isso não tem nada a ver com ser mente aberta; é tudo sobre evidência. Ciência não tem nada a ver com ser mente aberta; ciência é formar uma hipótese, estabelecer ônus da prova, e submeter essas provas a análises estatísticas. Não tem nada a ver com política, com ser mente aberta. Eu pensava que o reitor da faculdade medicina saberia isso, mas ele não sabia.

Pode ser dito que quem não estava sendo mente aberta era o reitor da faculdade de medicina, por não aceitar que homeopatia não funciona.
Devido ao efeito placebo pode funcionar. Às vezes, você toma algo que acha que vai funcionar e acaba funcionando simplesmente porque acha que é verdade. O efeito placebo não é trivial. É um efeito real, que pode ter uma base fisiológica. Eu falo sobre isso no último capítulo do meu livro. As pessoas podem aprender a liberar as neuro-endorfinas e regular o sistema imune.

As pessoas normalmente mencionam para mim que não é bom ser tão cético. Elas acreditam a priori que ser cético é ruim. Você tem problemas com isso também?
É verdade. Quando eu fiz cirurgia no joelho, meu cirurgião me orientou no momento da recuperação que eu tomasse sulfato de condroitina e glucosamina. Mas se olhar os dados, sulfato de condroitina e glucosamina não fazem nada para promover recuperação, não fazem nada para diminuir a inflamação e dor. E há estudos mostrando que eles não fazem nada para dor da osteoartrite. Eu tinha lido esses estudos e não conseguia me convencer que deveria tomá-los. Alguém pode argumentar que se eu pensasse que isso iria remover a minha dor, eu não precisaria tomar anti-inflamatório não-esteroide ou um anti-inflamatório COX-2. É caro, mas não iria me fazer mal. Então, alguém pode argumentar isso. Mas eu não compartilhava esse sistema de crença. Na teoria, ciência não deveria ser um sistema de crença; é baseada em evidência. E a evidência não estava lá para isso.

Poderia fornecer exemplos de práticas usadas na medicina alternativa que sabemos funcionar? 
Há um remédio antigo chinês baseado na planta artemísia para tratar malária. Nessa planta artemísia, há uma substância ativa, que hoje chamamos de artemisinina, que tem atividade anti-malárica. As pessoas tinham o hábito de mastigar a planta dedaleira, que contém digitalis. Hoje sabemos que há digitalis nessa planta e podemos sintetizar drogas como digoxina. Uma medicina alternativa pode virar medicina convencional, ortodoxa. Mas isso tudo pode ser estudado, entendido; não precisamos olhar para os deuses para explicar porque certas coisas funcionam. Quando as coisas não funcionam, temos de aceitar o fato de que não funcionam. Então, não existe isso de medicina alternativa: se uma medicina alternativa funciona, então é medicina; se não funciona, não é alternativa.

E em relação a erva-de-são-joão para depressão?
Há estudos que comparam a erva de são joão com placebo para depressão leve a moderada e pode ser dito que a evidência apoia o uso da erva de são joão. Certamente, erva de são joão é melhor que placebo para depressão severa. O problema com essa indústria é: o que é erva de são joão? Como é uma indústria sem regulamentação, é difícil comparar um estudo com outro, porque não há garantia do que um produto contém é similar ao que contém em outro produto. Por exemplo, quando alguém chega no nosso hospital com malária, não usamos cinchona como fonte de quinina; usamos quinina de uma companhia regulamentada pela FDA. Então, sabemos exatamente a dosagem. Se algum psiquiatra no nosso hospital quiser usar erva de são joão por causa da evidência existente, teríamos problema com isso porque não saberíamos se o que está no produto é o que está descriminado no rótulo e isso tem sido historicamente verdade nos Estados Unidos. O rótulo reflete sem acurácia o que está dentro do suplemento. Isso precisa ser regulamentado. Erva-de-são-joão funciona para depressão, então uma empresa deveria fazer e ser regulamentada pela FDA e saberíamos o que estamos dando aos pacientes.