sábado, 15 de outubro de 2016

Fatos sobre overdose de heroína

por Felipe Nogueira

Na entrevista que fiz com o psicofarmacologista Carl Hart, diversos mitos sobre drogas, inclusive heroína, foram mencionados. Há uma boa quantidade de pesquisas realizadas na área de overdose de heroína. Lendo alguns desses artigos, fica claro alguns fatos em relação à overdose de heroína

1 - Heroína raramente mata sozinha por overdose. 
  • Na maioria dos casos de morte, outras drogas são utilizadas em conjunto com heroína.
  • Encontrado em 50% ou mais dos casos fatais, o álcool é a droga mais utilizada junto da heroína. 
  • Em segundo lugar, aparecem medicamentos classe benzodiazepínicos, como clonazepan (Rivotril) e diazepam (Valium). Esses medicamentos são normalmente usados no tratamento da ansiedade.
  • Heroína, álcool e benzodiazepínicos são depressores do sistema nervoso central. Em conjunto, os efeitos depressores das drogas são potencializados. Com isso, as mortes normalmente envolvem parada respiratória.
Com isso, o padrão encontrado nesses casos fatais de overdose envolve usuários de heroína experientes morrendo de poli-farmácia,  e não de uma heroína assassina super potente. 

2 - Não são usuários inexperientes que morrem.

Os usuários jovens, inexperientes, e com isso menos tolerantes a droga, estão mais susceptíveis a variação de  pureza ou quantidade administrada da droga. No entanto, na realidade, são os usuários dependentes de longa duração e mais tolerantes que possuem maior risco de morrer.  A média de idade é no início dos 30 anos, a maioria estava desempregada e não fazendo tratamento no momento da morte.

3 - Concentrações de heroína encontradas não são altas

A palavra overdose sugere que altas doses de heroína são encontradas. Porém, as pesquisas não apoiam isso. As doses encontradas são baixas e em muitos casos iguais a de usuários de heroína que morrem por outras causas, como homicidios.


3 - Overdoses não são necessariamente fatais

Mais da metade dos usuários relatam episódios de overdoses, até mais de um episódio. Outras drogas também foram usadas em conjunto com heroína nesses casos. Os episódios de overdose não fatais começam apenas depois de uso de heroína por vários anos.   

4 - Suicídio ou tentativas de suicídio são minoria

Usuários de heroína possuem maior risco para depressão. O risco de suicídio é 14 vezes maior nos usuários de heroína em comparação com o resto da população. No entanto, a grande maioria das overdoses fatais são acidentais.  Na Austrália, apenas 5% dos casos fatais de overdose são suicídios e vítimas de overdoses não fatais reportaram que tais episódios foram acidentais.  

5 - A pureza da heroína não é tão importante 

Estudos mostram uma relação apenas moderada com a pureza da heroína. Além disso raramente misturas tóxicas são encontradas nas seringas ou nas autópsias de casos de overdose por heróina. Substâncias inócuas como cafeína ou sacarina são as mais encontradas em autópsias. 

6 - As mortes por overdose não são súbitas

Os casos de morte súbita são exceção. Na sua grande maioria, há um processo devagar de depressão respiratória, que poderia ser revertida. Muitos usuários vão para cama depois do uso de heroína e álcool.  Usuários em overdose, assim como suas testemunhas, raramente buscam intervenção, principalmente por medo de envolvimento policial. As testemunhas também podem estar sob overdose e/ou não reconhecendo os efeitos da depressão respiratória.  


Crenças/mitos e fatos em relação aos casos de overdose envolvendo heroína: 

Crenças/mitos Fatos
Usuários jovens, inexperientes Usuários mais velhos, experientes
Altas doses de heroína Pequenas concentrações de morfina
Pureza Associação moderada
Heroína é a causa Uso de múltiplas drogas é o comum
Mortes ocorrem na rua Maioria das mortes ocorrem em casa
Morte súbita Morte súbita não é comum
Tentativa de suicídio Maioria é acidental
Uso não injetável é seguro É mais seguro, mas mortes ainda ocorrem

Referências: 

Darke S (2016). Heroin overdose. Addiction. http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/add.13516/abstract

Darke S (2005). Heroin overdose: myths, facts and intervention. http://slideplayer.com/slide/4823826/

Darhe S, Hall W (2003). Heroin Overdose: Research and Evidence-Based Intervention.  Journal of Urban Health80(2):189-200. 



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