terça-feira, 2 de abril de 2019

Rastreamento dos cânceres de próstata e mama: é mais complexo do que parece



publicado na Skeptical Inquirer Volume 43.1 (Jan/Fev 2019)

O rastreamento do câncer busca pela doença antes de seus sintomas aparecem. As mensagens encorajando o rastreamento dos cânceres de próstata e mama contêm estatísticas enganadoras e  também não discutem o principal dano do rastreamento: ser diagnosticado e tratado desnecessariamente.

Felipe Nogueira




O
utubro Rosa e Novembro Azul são campanhas de conscientização dos cânceres de mama e próstata, respectivamente. No Brasil e em outros países, a população é incentivada a realizar exames como o PSA para o câncer de próstata e mamografia para o câncer de mama. 

A principal ideia é o rastreamento (screening): fazer exames em pessoas assintomáticas, com objetivo de detectar a doença antes dos sintomas aparecerem e, com isso, aumentar as chances de cura e até oferecer um tratamento menos agressivo. Um bom exemplo é o rastreamento do câncer de colo de útero, onde a incidência de casos avançados diminuiu depois que o exame Papanicolau foi iniciado (Adegoke et al. 2012). Entretanto, estudos que analisam a eficácia do rastreamento dos cânceres de próstata e mama mostram que a realidade não é tão simples como divulgada nessas campanhas.

Em Maio de 2018, a Força-Tarefa de Serviços Preventivos dos Estados Unidos (USPSTF) revisou os estudos de rastreamento do câncer de próstata com PSA (Fenton et al. 2018). Apenas dois estudos randomizados controlados tiveram qualidade suficiente para avaliar o impacto do PSA na mortalidade. Um deles chamado de PLCO1 não mostrou diferença na mortalidade. O segundo estudo, chamado ERSPC2, mostrou que o rastreamento reduziu a mortalidade do câncer de próstata em homens entre 55-69 anos. Mas ainda assim não é tão simples. Para evitar uma morte por câncer de próstata e três casos de câncer de próstata com metástase, 1000 homens entre 55-69 anos precisaram ser rastreados a cada quatros anos durante 13 anos. Dos 1000, 27 homens receberam tratamento  cirurgia para remoção da próstata e/ou radiação. Mais importante, a maioria dos homens tratados, 24 pacientes, recebeu tratamento agressivo sem nenhum benefício, apenas danos causados pelo próprio tratamento. Independente de terem feito rastreamento, cinco homens morreram de câncer de próstata. Veja a Tabela 1 para as estimativas completas.


Tabela 1 – Estimativas da USPSTF dos benefícios e danos do rastreamento do câncer de próstata no estudo ERSPC (Fenton et al. 2018).
Uma análise criteriosa do rastreamento tem de considerar os danos causados pelo tratamento. A revisão da USPSTF encontrou que, daqueles que fazem cirurgia para remoção completa da próstata, um em cinco homens desenvolve incontinência urinária e dois a cada três homens têm impotência. Mais da metade daqueles que recebem radiação desenvolve impotência e um em seis desenvolve sintomas intestinais, incluindo urgência e incontinência fecal (Fenton et al. 2018).   

A visão geral de que o rastreamento do câncer de próstata pode fazer mais mal do que bem é longe de ser novidade. Uma meta-análise de 2013 da Cochrane (Ilic et al. 2013) de cinco estudos não mostrou redução na mortalidade. Em 2012, a USPSTF tinha recomendado contra o rastreamento independente da idade. Atualmente, a USPSTF conclui que os benefícios e malefícios do rastreamento para homens com 55-69 anos são balanceados, recomendando uma decisão individual após uma consideração cuidadosa dos potenciais benefícios e danos. Para homens com 70 anos ou mais, a USPSTF recomenda contra o rastreamento. Veja o link para a Figura de apoio à decisão da USPSTF.


Em relação ao câncer de mama, a evidência parece um pouco mais favorável ao rastreamento, mas não de forma tão clara como as mensagens das campanhas sugerem. Um artigo publicado no JAMA em 2018 (Keating e Pace 2018) estimou que 10 em 10 mil mulheres nos seus cinquenta anos rastreadas anualmente durante dez anos evitariam morte por câncer de mama. Em contrapartida, 940 mulheres seriam submetidas a biópsias desnecessárias e 44 seriam tratadas desnecessariamente com cirurgia, radiação, quimioterapia, ou terapia hormonal. Independente do rastreamento, 62 mulheres ainda morreriam de câncer de mama. Como o tratamento para câncer de mama melhorou muito desde que os estudos foram conduzidos, o benefício do rastreamento pode ainda ser menor do que o reportado (Keating e Pace 2018). Para oferecer benefícios e reduzir os danos, a USPSTF recomenda mamografia apenas a cada dois anos e recomenda contra ensinar o auto-exame da mama.

Essa complexidade não está restrita ao câncer de próstata e mama. Entre 1975 e 2009, a incidência de câncer de tireoide praticamente triplicou nos Estados Unidos; de 4,9 para 14,4 em cada 100 mil pessoas. No entanto, a mortalidade continuou constante: 0,56 a cada 100 mil pessoas (Esserman et al. 2014).  Já um estudo finlandês mostrou que, em 36% dos participantes sem qualquer sinal de doença na tireoide, pelo menos um nódulo do tipo mais brando na tireoide foi detectado na autópsia (Esserman et al. 2014). 


Estudos de autópsia da próstata em homens que morreram por outras causas também mostram um grande “reservatório” de câncer. Em homens autopsiados entre 60-79 anos, a incidência de câncer de próstata variou entre 14 e 77%. Surpreendentemente, câncer de próstata foi encontrado até em homens autopsiados em seus vinte anos de idade, com uma incidência de 8-11% (Sandhu e Adriole 2012).

O que esses dados estão descrevendo é chamado sobrediagnóstico (Welch e Black 2010; Carter e Barrat 2017). O rastreamento detecta principalmente casos de câncer não letais ou indolentes  se não fosse pelo rastreamento, morreríamos com esses cânceres sem nem termos conhecimento que tínhamos a doença.


Sobrediagnóstico não é um resultado falso-positivo, onde após um teste positivo a avaliação subsequente não detecta sinais de câncer. No sobrediagnóstico, a lesão detectada de fato preenche os critérios de diagnóstico para câncer, mas não teria causado sintomas (por exemplo, não teria sido diagnosticado na ausência de rastreamento) (Welch e Black 2010; Carter e Barrat 2017). 

O sobrediagnóstico e sua consequência são os principais danos do rastreamento. Uma vez que no momento do diagnóstico é impossível diferenciar lesões indolentes das letais, quase todos os casos são tratados (Welch e Black 2010). Estimativas sugerem que entre 20 e 60% dos cânceres de próstata detectados por rastreamento foram sobrediagnosticados (Fenton et al. 2018; Carter et al. 2015). Dos cânceres de mama detectados por rastreamento, a estimativa de sobrediagnóstico obtida pelos estudos randomizados é 19% (Keating e Pace 2018), enquanto uma análise de programas de rastreamento reportou 52% (Jørgensen e Gøtzsche 2009). Então, alguns podem se beneficiar do rastreamento do câncer de próstata e mama, porém mais pacientes lidam com danos de um tratamento agressivo que eles nem sequer precisavam.

Uma das premissas do rastreamento é que o câncer tem uma progressão linear, que sempre permite detecção antes de ser letal. Mas essa premissa está desatualizada. O câncer é uma doença heterogênea, com diferentes taxas de progressão (Figura 1) (Carter e Barrat 2017). É mais provável que o rastreamento detecte os casos de câncer que crescem devagar ou que teriam regredido. Criticamente, os mais letais, aqueles que crescem rápido, são menos prováveis de serem detectados pelo rastreamento, uma vez que eles tendem a causar sintomas no intervalo entre exames de rastreamento (Carter e Barrat 2017). 


Figura 1 – Heterogeneidade do câncer. Nem todos os casos tem a mesma taxa de progressão. (Carter e Barrat 2017 – adaptado de Welch e Black 2010).

Enquanto que as mensagens encorajando o rastreamento raramente mencionam sobrediagnóstico, elas frequentemente trazem afirmações como “se o câncer for diagnosticado precocemente, a chance de cura é 95%, mas cai para 20% se for diagnosticado em estágios avançados”. Entretanto, quando há sobrediagnóstico, a proporção de pacientes curados fica enviesada, uma vez que o número de pacientes que sobreviveram vai aumentar “automaticamente”, porque esses pacientes com esses casos não fatais são classificados como "curados", mesmo quando o rastreamento não oferece nenhum benefício. Ironicamente, o aumento da incidência e taxas infladas de cura devido ao sobrediagnóstico podem aumentar os esforços para fazer rastreamento, levando a mais sobrediagnóstico 3 (Brodersen et al. 2018). 

Outra maneira que a estatística de sobrevivência fica enviesada está relacionada com quanto tempo o paciente vive após o diagnóstico. O rastreamento só é eficaz se conseguir detectar doença precocemente. Considere, por exemplo, que sem rastreamento, pacientes são diagnosticados pelos sintomas aos 70 anos e morrem aos 75 anos. Agora, considere que esses pacientes seriam diagnosticados por rastreamento aos 65 anos e morreriam pelo câncer dez anos depois. Com essas descrições, o rastreamento parece ser benéfico, já que quem faz rastreamento tem sobrevida de 10 anos, enquanto que sobrevive 5 anos após o diagnóstico. Em ambos os casos, os pacientes morreram com a mesma idade; o rastreamento apenas antecipou o diagnóstico, sem prolongar a vida. Isso é chamado de viés do tempo ganho (lead time bias) (Raffle e Gray 2007).

Devido a vieses, a estatística de sobrevivência (ou sobrevida) não mostra a eficácia do rastreamento. Se rastreamento é eficaz, a incidência de casos avançados tem de cair. Após a introdução de rastreamento dos cânceres de próstata e mama, é esperado um aumento da incidência de casos iniciais dessas doenças. Isso deve ser seguido, à medida que a população envelhece, por um declínio compensatório em casos avançados, enquanto a incidência geral permanece igual (Esserman et al. 2009). Note na Figura 2 que a incidência de casos iniciais de câncer de mama aumentou significativamente, enquanto que a incidência de casos regionais caiu bem pouco e a taxa de metástases para outras partes do corpo permaneceu estável. Curiosamente, apesar da mortalidade do câncer de mama estar caindo, o declínio foi maior em mulheres jovens não convidadas para o rastreamento (Gøtzsche et al. 2012; Narod et al. 2015). Além disso, a mortalidade do câncer de mama caiu de forma parecida em todos os lugares do mundo, mas o inicio do rastreamento difere entre os países (Gøtzsche 2015a). Observações semelhantes podem ser feitas sobre o câncer de próstata. Após o rastreamento, não houve um declínio significativo da mortalidade como esperado, e diferentes taxas do uso de rastreamento e tratamento não relacionam com a mortalidade do câncer de próstata (Esserman et al. 2009). Essas análises temporais, embora não demonstrem causalidade, indicam que o rastreamento leva a considerável sobrediagnóstico de casos iniciais e seu impacto na mortalidade no melhor caso é pequeno.


Figura 2 – Taxas de incidência dos diferentes estágios do câncer de mama em mulheres americanas e brancas padronizadas pela idade. SEER 9, 1975–2011 (Narod et al. 2015). 


A melhor maneira para avaliar a eficácia do rastreamento é usando ensaios clínicos randomizados, como PLCO e ERSPC. Estudos clínicos comparam o grupo rastreado com um grupo controle, procurando por uma redução das mortes causadas pelo câncer sendo rastreado  o que é chamado de mortalidade específica do câncer. É, por exemplo, a redução na mortalidade do câncer de mama que leva a afirmação que o rastreamento com mamografia “salva vidas”. Porém, como as mulheres sobrediagnosticadas com câncer de mama podem receber radioterapia, que aumenta mortalidade devido a câncer de pulmão (Gøtzsche 2015b), o rastreamento pode causar mais mortes do que mortes evitadas devido ao câncer de mama. Uma vez que as mortes de tratamento são usualmente classificadas como outras causas, a mortalidade especifica do câncer é enviesada a favor do rastreamento. Esse viés é evitado usando a mortalidade geral. O que pode ser assustador é que os estudos clínicos de rastreamento não mostram redução na mortalidade geral. Como Vinay Prasad e coautores escreveram no BMJ, “nunca foi demonstrado que o rastreamento do câncer salva vidas” 4. O rastreamento aumenta as mortes por outras causas? Não sabemos ainda – pode ser apenas “chance”, uma vez que milhões de pessoas seriam necessárias em um estudo clínico para detectar diferença na mortalidade geral. Prasad e coautores acreditam que esses grandes ensaios clínicos são necessários para conhecermos os efeitos do rastreamento. Em contraste, o pesquisador Peter Gøtzsche acredita que fazer tais estudos não é ético, já que muitas pessoas teriam de ser rastreadas sem sabermos se isso prolongaria as suas vidas, enquanto que os faria mais infelizes devido a estresse psicológico causados por falso-positivos e sobrediagnósticos. Devido a pequeno, se algum, beneficio na mortalidade, mas danos documentados, Gøtzche afirmou que o rastreamento com mamografia teria sido retirado do mercado, se fosse um medicamento (Gøtzsche 2015b).

Outros pesquisadores, como a Laura Esserman, acreditam que devemos focar em melhorar o rastreamento. Por exemplo, ela e coautores sugerem não chamar tais casos indolentes usualmente detectados por rastreamento de “câncer” (Esserman et al. 2009) Uma vez que, na cabeça de médicos e pacientes, um diagnóstico de câncer é associado com uma doença letal que causa sofrimento, renomear tais casos para lesões indolentes pode reduzir tratamento desnecessário. Isso foi proposto pela primeira vez pelo menos há dez anos, mas em Agosto de 2018 outros cientistas ainda estão pedindo por essas mudanças (Nickel et al. 2018). Esserman também propôs focar em um rastreamento baseado no risco, que foca em pessoas com alto risco de câncer. Testar se o rastreamento baseado em risco pode reduzir o uso da mamografia sem aumentar casos avançados é o objetivo do estudo Wisdom (Esserman et al. 2017).

Enquanto isso, o publico precisa ser informado adequadamente. As campanhas de conscientização precisam ser usadas para informar a população as complexidades do rastreamento. Isso é bem importante. De acordo com pesquisas de opinião, mulheres superestimam os benefícios da mamografia por um fator entre 10 e 200 (Wegwarth e Gigeren­zer 2018). Além disso, como o rastreamento é frequentemente promovido como prevenção, 68% das mulheres em uma pesquisa de opinião acreditaram erradamente que mamografia reduz as chances de desenvolver câncer de mama. (Domenighetti et al 2003 Como um artigo de perspectiva no New England Journal of Medicine colocou, “Como as mulheres podem fazer uma decisão informada se elas superestimam o beneficio da mamografia tão grosseiramente?” Isso pode ser explicado pela falha dos médicos em comunicar os riscos do rastreamento: em uma pesquisa de opinião com 300 pacientes de rastreamento nos Estados Unidos, 90% deles não receberam informação do seu médico sobre os possíveis danos do rastreamento (Wegwarth e Gigerenzer 2018).


Essa não é a história completa. Uma revisão sistemática mostrou que médicos usualmente superestimam os benefícios do rastreamento e tratamento enquanto que subestimam seus danos. Uma pesquisa de opinião com médicos dos Estados Unidos sugeriu que médicos não compreendem as estatísticas do rastreamento: 76% dos médicos participantes foram enganados pela métrica de sobrevida discutida anteriormente (Wegwarth et al. 2012). Eles equivocadamente pensaram que pacientes diagnosticados por rastreamento com melhores taxas de sobrevida (5 após o diagnóstico) do que pacientes diagnosticados por sintomas significa que o rastreamento salvou vidas. Em um artigo, Wegwarth e Gigerenzer (2018) perguntaram “Por que o conhecimento do risco é tão escasso na saúde?” Os autores discutiram como a dificuldade de entender os riscos e benefícios na saúde provavelmente se deve como a informação estatística é apresentada, em artigos enviesados em períodos médicos e até o uso do risco relativo e estatística enganadora pela mídia. E pesquisas mostram como ferramentas elaboradas para auxiliar a decisão ajudam os pacientes a ficarem mais informados em relação ao rastreamento. Os pesquisadores concluíram perfeitamente: “Uma crítica massa de cidadãos informados não irá resolver todos os problemas na saúde, mas pode constituir um grande gatilho para uma melhor saúde” (Wegwarth e Gigerenzer 2018). 



Notas:
1. PLCO: Prostate, Lung, Colorectal, and Ovarian Cancer Screening Trial
2. ERSPC: European Randomized Study of Screening for Prostate Cancer
3. Isso foi chamado do paradoxo da popularidade: “Quanto maior o dano pelo sobrediagnóstico e sobretratamento gerado pelo rastreamento, mais pessoas acreditarão que devem a saúde, ou ate suas vidas, ao programa”. (Raffle e Grey 2007, 68).
4. Um estudo clínico de 2011 de rastreamento com tomografia em fumantes reportou redução da mortalidade geral. Embora isso seja um caso de rastreamento em um grupo de alto risco, Prasad e coautores consideraram a melhor evidência para redução da mortalidade geral em um estudo de rastreamento do câncer. Entretanto, como discutido pelos autores, uma meta-análise de 2013 para USPSTF não demonstrou redução da mortalidade geral (Prasad et al. 2016). 





Livros interessantes:

· Overdiagnosed: Making People Sick in the Pursuit of Health de H. Gilbert Welch, Lisa Schwartz e‎ Steve Woloshin (2012);



· Mammography Screening: Truth, Lies and Controversy de Peter C. Gøtzsche (2012)



Referências



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Biller-Andorno, N. 2014. Abolishing Mammography Screening Programs?  A View from the Swiss Medical Board. New England Journal of Medicine 370(21): 1965-1967

Brodersen, J., B.S. Kramer, H. Macdonald, et al. 2018. Focusing on overdiagnosis as a driver of too much medicine. BMJ 362:k3494. doi: 10.1136/bmj.k3494

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Domenighetti, G., B. D’Avanzo, M. Egger, et al. 2003. Women’s perception of the benefits of mammography screening: population-based survey in four countries. International Journal of Epidemiology 32:816-21

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Esserman, L.J., I.M. Thompson, B. Reid, et al. 2014. Addressing overdiagnosis and overtreatment in cancer: a prescription for change. The Lancet Oncology 15: e234-e242. doi: 10.1016/S1470-2045(13)70598-9

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sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Legado Científico de Stephen Hawking

por Sean Caroll
fonte: Preposterous Universe
tradução: Felipe Nogueira

Stephen Hawking é o raro cientista que também é uma celebridade e um fenômeno cultural. Mas ele também é o raro fenômeno cultural cuja celebridade é inteiramente merecida. Suas contribuições podem ser caracterizadas de forma bem simples: Hawking contribuiu mais para o nosso entendimento da gravidade do que qualquer outro físico desde Albert Einstein. 

"Gravidade" é uma palavra importante aqui. Durante grande parte da carreira de Hawking, a física teórica como comunidade esteve muito mais interessada na física de partículas e em outras forças da natureza - eletromagnetismo e as forças forte e fraca. A gravidade "clássica" (ignorando as complicações da mecânica quântica) foi descoberta por Einstein na sua teoria da relatividade geral, e  a gravidade quântica (criando uma versão quântica da relatividade geral) parecia muito difícil. Aplicando seu prodigioso intelecto à força mais conhecida da natureza, Hawking foi capaz de chegar a diversos resultados que surpreenderam completamente a comunidade. 

Por aclimatação, o resultado mais importante de Hawking é a realização que buracos negros não são completamente negros - eles emitem radiação, da mesma maneira como objetos comuns. Antes desse artigo famoso, ele provou teoremas importantes sobre buracos negros e singularidades, e depois estudou o universo como um todo. Em cada fase de sua carreira, as contribuições dele foram centrais. 

O Período Clássico

Enquanto trabalhava na sua tese de doutorado em Cambridge no meio da década de 1960, Hawking ficou interessado na questão da origem e o destino final do universo. A ferramenta certa para investigar esse problema é a relatividade geral, a teoria de Einstein do espaço, tempo e gravidade. De acordo com a relatividade geral, o que percebemos como "gravidade" é uma consequência da curvatura do espaço-tempo. Entendendo como a curvatura é criada por massa e energia, podemos prever como o universo evolui. Isso pode ser visto como o período "clássico" do Hawking, contrastando a relatividade geral clássica com suas investigações posteriores na teoria quântica dos campos e na gravidade quântica. 

Por volta da mesma época, Roger Penrose em Oxford provou um resultado impressionante:  de acordo com a relatividade geral, sob amplas circunstâncias, espaço e tempo colapsariam em si mesmos formando uma singularidade. Se a gravidade é a curvatura do espaço-tempo, uma singularidade é um momento no tempo quando essa curvatura se torna infinitamente grande. Esse teorema mostrou que singularidades não eram apenas curiosidades, elas são uma característica importante da relatividade geral.       

O resultado de Penrose se aplicava a buracos negros  regiões de espaço-tempo cujo campo gravitacional é tão forte que nem a luz não consegue escapar. Dentro de um buraco negro, a singularidade se esconde no futuro. Hawking pegou a ideia de Penrose e virou ao contrário, mirando no universo passado. Ele mostrou que, sob circunstâncias gerais parecidas, o espaço deve ter surgido a partir de uma singularidade: o Big Bang. Cosmólogos modernos falam (de forma confusa) tanto sobre o "modelo" de Big Bang, que é uma teoria muito bem sucedida que descreve a evolução de um universo em expansão ao longo de bilhões de anos, quanto sobre a "singularidade" do Big Bang, o que ainda não afirmamos entender.

Hawking então mudou seu foco para buracos negros. Um outro resultado interessante de Penrose demonstrou que é possível extrair energia de um buraco negro em rotação, essencialmente sangrando seu spin até que não esteja mais em rotação. Hawking foi capaz de demonstrar que, embora é possível extrair energia, a área do horizonte de eventos circundante ao buraco o negro sempre aumentará em qualquer processo físico. Esse "teorema de área" foi importante por si só, mas foi também evocativo de uma área completamente separada da física: termodinâmica, o estudo do calor.

A termodinâmica obedece um conjunto de leis famosas. Por exemplo, a primeira lei diz que a energia é preservada, enquanto a segunda lei diz que a entropia  uma medida do nível de desordem do universo  nunca diminui para um sistema isolado. Trabalhando com James Bardeen e Brandon Carter, Hawking propôs um conjunto de leis para a "mecânica de buraco negro", em uma analogia similar com a termodinâmica. Assim como na termodinâmica, a primeira lei da mecânica de buraco negro garante que a energia é preservada. A segunda lei é o teorema de área de Hawking, que a área do horizonte de eventos nunca diminui. Em um outras palavras, a área do horizonte de eventos é análoga à entropia de um sistema termodinâmico - ambos tendem a aumentar com o tempo.

Evaporação do Buraco Negro            

Hawking e seus colaboradores estavam orgulhosos das leis da mecânica de buraco negro, mas eles vinham essas leis simplesmente como uma analogia formal, não uma conexão literal entre gravidade e termodinâmica. Em 1972, um estudante de pós-graduação na Universidade da Princeton chamado Jacob Bekenstein sugeriu que tinha algo a mais além de uma analogia. Bekenstein, usando como base alguns engenhosos experimentos de pensamento, sugeriu que o comportamento de buracos negros não apenas parecia com termodinâmica, de fato é termodinâmica. Em particular, buracos negros têm entropia.

Como muitas ideias agressivas, essa ideia foi recepcionada com resistência por parte dos especialistas - e nesse momento,  Stephen Hawking era o especialista do mundo em buracos negros. Hawking estava cético e por boas razões. Se a mecânica de buraco negro é apenas uma forma de termodinâmica, isso quer dizer que buracos negros possuem temperatura. E objetos que possuem temperatura emitem radiação - a famosa "radiação do corpo negro" que desempenhou um papel central no desenvolvimento da mecânica quântica. Então, se Bekenstein estivesse certo, isso implicaria que buracos negros não são realmente negros (embora o próprio Bekenstein não foi tão longe assim).

Para endereçar esse problema seriamente, é preciso olhar além da relatividade geral, uma vez que a teoria de Einstein é puramente "clássica" - ela não incorpora os insights da mecânica quântica. Hawking sabia que os físicos Russos Alexander Starobinsky e Yakov Zel'dovich tinham investigado os efeitos quânticos na vizinhança de buracos negros e tinham previsto um fenômeno chamado "superradiância". Assim como Penrose tinha demonstrado que é possível extrair energia de um buraco negro em rotação, Starobinsky e Zel'dovich mostraram que um buraco negro em rotação pode emitir radiação espontaneamente via mecânica quântica. Hawking não era um especialista nas técnicas da teoria quântica de campos, que na época eram o território dos físico de partículas e não de relativistas gerais. Mas ele era um estudioso rápido e se lançou na difícil tarefa de entender os aspectos quânticos de buracos negros, para que ele pudesse encontrar o erro de Bekenstein.

Em vez disso, ele se surpreendeu, e no processo virou a física teórica de cabeça para baixo. O que eventualmente Hawking descobriu era que Bekenstein estava certo — buracos negros têm entropia —e que as implicações extraordinárias dessa ideia eram verdade — buracos negros não são completamente negros. Nos referimos à "entropia de Bekenstein-Hawking" de buracos negros, que emitem "radiação Hawking" nas suas "temperaturas Hawking".

Há uma maneira boa e informal de entender a radiação Hawking. A mecânica quântica diz (entre outras coisas) que não é possível atribuir um estado clássico definitivo para um sistema; há sempre uma incerteza intrínseca naquilo que veremos ao olharmos para o sistema. Isso é verdade até para o espaço vazio - quando se olha perto o suficiente, aquilo que pensamos ser espaço vazio está repleto de "partículas virtuais"  constantemente vindo a existir e deixando de existir.  Hawking demonstrou que, na vizinha de um buraco negro, um par de partículas virtuais podem se separar, uma caindo no buraco negro e a outra escapando como radiação. Surpreendentemente, a partícula em queda tem uma entropia negativa se medida por um observador externo ao buraco negro. O resultado é que a radiação leva gradualmente a massa do buraco negro - o buraco negro evapora.

O resultado de Hawking tinha implicações óbvias e profundas relacionadas à maneira como pensamos sobre buracos negros. Em vez de ser um ponto final cósmico, onde matéria e energia desaparecem para sempre, eles são objetos dinâmicos que eventualmente vão evaporar completamente. Mas mais importante para a física teórica, essa descoberta lançou uma questão que ainda não sabemos a resposta: quando matéria cai dentro de um buraco negro e o buraco negro evapora, para onde vai a informação?

Se queimarmos uma enciclopédia, podemos pensar que a informação contida na enciclopédia é perdida para sempre. Mas de acordo com a mecânica quântica, a informação não está nada perdida; se pudéssemos capturar cada fragmento de luz e cinza que saíram do fogo, em teoria é possível reconstruir tudo que foi queimado, até o conteúdo impresso nas páginas do livro. Mas buracos negros, se o resultado de Hawking for considerado ao pé da letra, parecem destruir a informação, pelo menos da perspectiva do mundo externo. Esse impasse é o "enigma da perda de informação de buracos negros" e tem chateado os físicos por décadas.

Nos últimos anos, o progresso no entendimento da gravidade quântica (apenas no nível de experimento de pensamento) tem convencido mais pessoas de que a informação é realmente preservada. Em 1997, Hawking fez uma aposta com os físicos Americanos Kip Thorne e John Preskill; Hawking e Thorne disseram que a informação é destruída, Preskill disse que a informação era preservada de alguma forma. Em 2007, Hawking admitiu que perdeu a aposta, dizendo que buracos negros não destroem a informação. Entretanto, Thorne ainda não concedeu a sua parte da aposta e o próprio Preskill pensa que a concessão de Hawking foi prematura. A radiação e entropia de buracos negros continuam sendo princípios que guiam a nossa busca por um melhor entendimento da gravidade quântica. 

Cosmologia Quântica

O trabalho de Hawking na radiação de buracos negros se baseava em uma combinação de ideias quânticas e clássicas. No seu modelo, o buraco negro em si era tratado classicamente, de acordo com as regras da relatividade geral; enquanto isso, as partículas virtuais próximas ao buraco negro eram tratadas usando as regras da mecânica quântica. O objetivo final de muitos físicos é construir uma verdadeira teoria da gravidade quântica, na qual o espaço-tempo seria parte de um sistema quântico.

Se há um lugar onde a mecânica quântica e a gravidade têm um papel central, é na origem do universo. E foi nessa questão, não surpreendente, que Hawking dedicou a parte final da sua carreira. Ao fazer isso, ele estabeleceu a agenda para o projeto ambicioso dos físicos de entender de onde o nosso universo veio.

Na mecânica quântica, um sistema não tem uma posição ou velocidade; seu estado é descrito por uma "função de onda", que nos diz a probabilidade de mensurarmos uma posição ou velocidade específica ao observamos o sistema. Em 1983, Hawking e James Hartle publicaram um artigo entitulado simplesmente "A Função de Onda do Universo". Eles propuseram um procedimento simples onde - em principio! - o estado de todo o universo poderia ser calculado. Não sabemos se a função de onda Hartle-Hawking é realmente a correta descrição do universo. De fato, porque ainda não temos uma completa teoria quântica da gravidade, não sabemos nem se o procedimento faz sentido. Mas o artigo deles mostrou que podemos falar do início do universo de uma forma científica.

Estudar a origem do universo oferece a expectativa de conectar a gravidade quântica a características observáveis do universo. Cosmólogos acreditam que pequenas variações na densidade de matéria originada de tempos bem iniciais gradualmente cresceram na distribuição de estrelas e galáxias que observamos hoje. Uma teoria completa da origem do universo pode ser capaz de prever essas variações e executar esse programa é a maior ocupação de físicos atualmente. Hawking fez uma série de contribuições a esse programa, a partir da sua função de onda do universo e no contexto do modelo do "universo inflacionário" proposto por Alan Guth.

Apenas falar sobre a origem do universo é um passo provocante. Isso lança a expectativa de que ciência pode ser capaz de prover uma completa e auto-contida descrição da realidade - uma expectativa que vai além da ciência, até os reinos da filosofia e teologia. Hawking, sempre provocante, nunca se esquivou dessas implicações. Ele gostava de lembrar de uma conferência de cosmologia organizada pelo Vaticano, na qual o Papa João Paulo II supostamente disse aos cientistas para não investigar a origem do universo, "porque esse foi o momento da criação e então o trabalho de Deus". Repreensões como essa não frearam Hawking; ele viveu sua vida em uma incansável busca nas questões mais fundamentais que a ciência pode atacar.       
        

O Presente Mais Profundo de Hawking à Física

por Sean Carroll
fonte: NY Times
tradução: Felipe Nogueira

Stephen Hawking se foi, mas ele deixou algo incrivelmente precioso: um enigma intricado e frustrante, e que os cientistas lutarão para solucionar nos próximos anos. O enigma do Dr. Hawking é uma peça importante da talvez maior pergunta na física atualmente: como podemos conciliar a gravidade com a mecânica quântica?

Os anos iniciais do século XX presenciaram duas incríveis revoluções científicas. Uma foi a teoria da relatividade. Liderados por Albert Einstein, os físicos descartaram o espaço e tempo absolutos de Isaac Newton e os substituíram por um contínuo e unificado espaço-tempo quadridimensional. São as dobras e ondulações do espaço-tempo, descobriu Einstein, que dão origem ao que experimentamos como a força da gravidade.

A outra revolução — até mais profunda que relatividade — foi a mecânica quântica. Quando examinamos o comportamento de partículas sub-atômicas, descobrimos que elas não podem ser descritas com a linguagem precisa da física clássica. Em vez disso, as partículas sub-atômicas aparecem como ondas de probabilidades e o melhor que podemos fazer é calcular a chance de uma específica medição retornar um ou outro resultado.

Gradualmente, tudo que sabemos sobre o mundo físico foi sendo colocado dentro da mecânica quântica. O comportamento da matéria, eletricidade e magnetismo, e as forças sub-atômicas funcionando dentro do núcleo de átomos — tudo encaixou elegantemente no paradigma quântico.

A única exceção é a gravidade. Por razões técnicas e conceituais, a visão de Einstein do espaço-tempo curvado vem resistido teimosamente à conciliação com as regras da mecânica quântica. A busca por uma teoria que unifique os dois paradigmas  uma teoria da "gravidade quântica" — é talvez o projeto mais ambicioso na física teórica moderna.

"Teórica" é uma palavra importante nesse contexto, porque é praticamente impossível fazer experimentos que diretamente revelem qualquer coisa sobre a gravidade quântica. A mecânica quântica se revela na escala sub-atômica, enquanto a gravidade se torna perceptível apenas quando temos massas astronomicamente grandes. Não há situação facilmente acessível onde as duas são importantes ao mesmo tempo.

É aqui que Stephen Hawking aparece. Quando experimentos reais são elusivos, nos voltamos para experimentos de pensamento. Na década de 1970, Dr. Hawking descreveu a mãe de todos os experimentos de pensamento, um que mantem os físicos acordados a noite.

O experimento de pensamento de Hawking começa com um buraco negro. De acordo com a relatividade de Einstein, um buraco negro é uma região de espaço-tempo onde a gravidade se tornou tão forte que nada consegue escapar. Mas o Dr. Hawking se perguntou como que partículas quânticas se comportam na vizinha de tal objeto. Afinal, a mecânica quântica é uma teoria de probabilidades; talvez o impossível de acordo com Einstein seja possível no mundo quântico.

E, de fato, é possível. Os cálculos do Dr. Hawking relevaram, como ele colocou de forma maliciosa, que "buracos negros não são tão negros". Eles na realidade emitem um contínuo feixe de partículas, conhecidas como radiação Hawking. Essas partículas carregam fragmentos da massa do buraco negro, que então evaporará completamente, um fenômeno conhecido como evaporação Hawking. 

Então, este é o experimento de pensamento: jogue um livro em um buraco negro. O livro carrega informação. Talvez a informação seja sobre física ou a trama de um romance — pode ser qualquer tipo de informação. Mas até onde sabemos, a radiação Hawking que sai do buraco negro é a mesma independente do que entrou no buraco negro. A informação é aparentemente perdida — para aonde que foi?

Então, temos o "enigma da perda de informação em buracos negros", talvez o presente mais profundo do Dr. Hawking para a física. Em questão está o destino do princípio da conservação de informação. Sem a relatividade geral, a mecânica quântica prevê que a informação é preservada; de forma similar, sem a mecânica quântica, a relatividade geral prevê que a informação é preservada, mesmo que alguma parte fique escondida no buraco negro. É, então, estranho que a junção das duas teorias acarrete no desaparecimento da informação.

Por um longo período, Dr. Hawking argumentou, contra a intuição de outros líderes na física, que a informação é simplesmente apagada do buraco negro e que teríamos que aprender a lidar com isso. Mas eventualmente ele mudou de ideia (algo que ele sempre fazia com vontade), concedendo em 2004 que a informação está provavelmente retida na radiação que sai do buraco negro. A questão, no entanto, está muito longe de estar resolvida.

O experimento de pensamento da perda da informação do Dr. Hawking é maior pista que temos de como a gravidade quântica deve operar. Mesmo não tendo uma teoria completa ainda, sabemos muito sobre a mecânica quântica e sabemos muito sobre a gravidade. Isso é suficiente para nos convencer que radiação Hawking é real, mesmo que nunca tenha sido observada diretamente. Isso significa que qualquer teoria da gravidade quântica terá de explicar de alguma forma como a informação escapa do buraco negro ou como é destruída.

A radiação do buraco negro e o enigma da perda da informação certamente não são as únicas contribuições do Dr. Hawking à física moderna. Voltando ao alicerce mais firme da relatividade clássica, ele provou uma série de teoremas fundamentais sobre o comportamento de buracos negros e expansão do universo. De forma mais especulativa, Dr. Hawking e o físico James Hartle propuseram uma candidata para a "função de onda do universo", o estado quântico descrevendo toda a realidade. No meio termo, Dr. Hawking fez contribuições para perguntas profundas como a origem da estrutura do universo e se é possível construir uma máquina do tempo (Não é, ele argumentou).

Ele fez isso tudo em adição, é claro, ao seu alcance a uma audiência popular compartilhando com ela sua paixão pela física e os mistérios do universo. Dr. Hawking foi um cientista extraordinariamente influente, assim como um ser humano corajoso e determinado. Eles nos deixou muita coisa para pensar.              
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Sean Carroll (@seancarroll) é um físico teórico no Instituto de Tecnologia da Califórnia e autor do livro The Big Picture: On the Origins of Life, Meaning, and the Universe Itself.       

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os Cães Ficaram Mais Espertos Através da Domesticação? Entrevista com Dr. Brian Hare










por Felipe Nogueira

Dr. Brian Hare é um Professor Associado do Departamento de Antropologia Evolutiva na Universidade de Duke e no Centro de Neurociência Cognitiva. Hare é pioneiro e especialista na área de psicologia dos cães. Junto com Vanessa Woods, Brian Hare escreveu sobre a revolução no estudo da cognição canina no fascinante livro Seu Cachorro É Um Gênio! Como os Cães São Mais Inteligentes do Que Se Pensa. Na palavra dos autores, o livro é “como a ciência cognitiva passou a entender a genialidade dos cães através de jogos experimentais, sem usar outra tecnologia além de brinquedos, vasilhames, bolas, e tudo o mais que houvesse em uma garagem”.
   
Hare e outros pesquisadores mostraram diversas vezes que os cachorros são bons em entender as intenções de comunicação dos humanos. Com a ajuda de um brilhante experimento com raposas iniciado por Dmitri Belyaev em 1950 que continua até os dias de hoje, a pesquisa de Hare descobriu o que permitiu aos cães desenvolverem essa habilidade impressionante: domesticação. Depois de 45 gerações, as raposas de Belyaev no grupo experimental tinham orelhas caídas, rabos enrolados e eram muito melhores na leitura dos gestos humanos do que as raposas no grupo controle. A questão é que Belyaev não selecionou pelas melhores raposas em ler os gestos humanos; em vez disso, ele selecionou as raposas menos medrosas e mais amigas em relação aos humanos. Como Hare e Woods escreveram no livro: “A domesticação, ao selecionar para procriação as raposas mais amigáveis, provocara uma evolução cognitiva”. 

Para entender ainda mais as limitações e flexibilidades da cognição canina, pesquisadores têm criado laboratórios dedicados, como o Centro de Cognição Canina de Duke, criado por Hare.

Dr. Brian Hare
Nogueira: No seu livro, você fala da genialidade dos cães. O que você quer dizer com ser um gênio?
Hare: Se fossemos falar de QI alto, ou quem seria recrutado pela NASA, teríamos um livro bem pequeno. Na minha opinião, a grande descoberta na revolução da cognição é que a cognição não é um traço dimensional único. Na realidade, é todo um conjunto de habilidades que podem variar de forma independente e nem sabemos quantas existem. Por exemplo, uma pessoa pode ser ótima em matemática, mas uma péssima comunicadora. Em relação às espécies, cada uma evoluiu para resolver um conjunto de problemas que as ajudaram a sobreviver e reproduzir em seus ambientes particulares; os cães não são diferentes. O meu livro Seu Cachorro É Um Gênio tenta explicar como uma espécie que parece ser bem comum é tão bem sucedida. Os cachorros são bem sucedidos de uma perspectiva evolutiva porque, em todos os lugares que há pessoas, há cães. É o mamífero mais bem sucedido – depois dos humanos e talvez vacas. É isso que o livro explora: os cães possuem algum tipo de genialidade psicológica ou cognitiva? Sim, eles mostram um nível incomum de sofisticação para resolução de problemas.

Nogueira: Conte como começou a pesquisar a cognição dos cachorros.
Hare: O psicologista do desenvolvimento Michael Tomasello, meu orientador de pesquisa na época, estava me explicando como a comunicação gestual é muito importante no desenvolvimento humano. Ele pensava não ser apenas crucial para evolução humana, mas algo único dos humanos. A teoria dele era que as crianças desenvolveram a habilidade de usar os gestos humanos e entender intenções de comunicação. Então, eu disse para ele que meu cachorro também conseguia fazer isso. Foi quando eu aprendi o que é a ciência, porque mesmo sendo uma ideia importante de como os humanos evoluíram, Tomasello ficou curioso. Ele me disse: “vou te ajudar a achar uma forma de provar que estou errado”. Isso é incrível! Quando descobrimos que ele estava errado sobre os cachorros, ele ficou empolgado, nos dizendo para fazer mais experimentos. As pessoas acham que a ciência envolve pessoas em jalecos de laboratórios criando ideias geniais, mas na realidade é uma maneira de refutar ideias.

Nogueira: Como foi o primeiro experimento com cães?
Hare: Usamos uma técnica poderosa, mas muito simples: tínhamos dois recipientes e escondemos comida em um deles. Então apontamos para onde escondemos, tentando ajudar o cachorro1. Grandes primatas são péssimos nessa tarefa. Eles não mostram muita flexibilidade cognitiva, já que eles precisam aprender o gesto. E, todas as vezes que você usa um novo gesto, eles precisam aprender de novo. Em comparação, crianças por volta de um ano de idade entendem gestos que eles nunca viram antes, mostrando um grau de flexibilidade não observado nos grandes primatas. Fizemos com os cães a mesma série de experimentos que foi realizada com primatas e crianças. A grande surpresa foi que cães são mais parecidos com as crianças.
Esse foi um experimento controlado: os cachorros não estavam usando olfato, nem reagindo ao movimento. Na ciência, há dois passos. Primeiro, é preciso demonstrar um fenômeno. Seja ondas gravitacionais ou cachorros seguindo gestos, você precisa demonstrar o fenômeno. Então, tenta-se explicar. Frequentemente, as pessoas estão preocupadas em explicar antes mesmo de demonstrar que o fenômeno existe. Após demonstrarmos que os cães estavam seguindo o gesto de apontar, nós queríamos saber se eles apenas sentiram o cheiro da comida escondida. Descobrimos que lobos, raposas e cães preferem usar seus olhos. Quando eles não conseguem a informação que precisam pela visão, aí que eles usam olfato. Nesses experimentos, descobrimos que os cães priorizam as informações da visão e memória em comparação com o olfato. 

Nogueira: Um dos experimentos fascinantes mencionado no livro usa uma barreira opaca. Poderia elaborar?
Hare: Esse é o trabalho da Juliane Kaminsky, Michael Tomasello e Josep Call2. Eles colocaram uma bola atrás de cada uma de duas barreiras, uma opaca e uma transparente. O cachorro pode ver as duas bolas. Na condição experimental, um humano está no lado oposto das barreiras e pede para o cachorro buscar a bola. O surpreendente é que os cachorros não pegaram a bola da barreira opaca, que o humano não consegue ver através; eles favoreceram a bola da barreira transparente. Na condição de controle, onde humano e o cão estão no mesmo lado, vendo a mesma coisa, os cães escolhem a bola de forma aleatória. Esse experimento sugere que os cachorros sabem o que os humanos conseguem e não conseguem ver.
Nogueira: Quais são as possíveis explicações para os cães serem tão bom em ler os gestos humanos?
Hare: Um nível de explicação é que os cachorros aprenderam lentamente, já que eles viram esses gestos muitas vezes. Essa ideia pode ser testada usando um gesto que os cães nunca viram antes, como apontar com o pé. Pode se usar um gesto doido, como colocar um objeto em cima de um recipiente onde está a comida escondida. Crianças humanas e cachorros seguem esses gestos, mas chimpanzés não. Com isso, essa hipótese de aprender devagar foi descartada. A parte difícil é como saber se os cães realmente possuem uma estratégia flexível sofisticada, uma teoria da mente, o que significa que eles estão pensando no pensamento de outros indivíduos? A melhor evidência sobre animais que possuem teoria da mente vem dos grandes primatas e talvez pássaros, como corvos. Em relação aos cachorros, na realidade, não temos o experimento conclusivo para eliminar explicações alternativas. Então, não temos evidências extraordinárias que os cachorros possuem teoria da mente. Por exemplo, o experimento da barreira opaca, onde o cachorro sabe o que pessoa consegue e não consegue ver, não foi replicado. Quando estamos estudando algo como a teoria da mente, buscamos múltiplos experimentos onde o animal mostra o mesmo tipo de habilidade. Temos isso com grandes primatas, mas não temos isso ainda com os cachorros.

Nogueira: De onde vêm as habilidades impressionantes dos cachorros?
Hare: Testamos várias hipóteses. A primeira era que como os cachorros são parentes dos lobos, que são inteligentes e talvez fossem bons em ler os gestos humanos. A outra foi experiência: eles interagiram conosco e aprenderam devagar. Finalmente, consideramos se foi algo ocorrido durante a domesticação. E a evidência favorece a domesticação: a seleção dos mais amigáveis com humanos foi o que permitiu aos cachorros serem mais habilidosos na leitura e na utilização dos humanos para resolver problemas. Isso foi uma surpresa: por que ser selecionado por ser amigável torna alguém mais inteligente?   

Nogueira: Como que a pesquisa de Belyaev com as raposas ajudaram a responder essa pergunta?
Hare: Esse brilhante experimento foi conduzido por um grupo de cientistas na Sibéria liderado por Dmitri Belyaev. Eles tinham dois grupos de raposas separados: o grupo experimental e o grupo controle. O grupo controle foi procriado de forma aleatória. No grupo experimental, Belyaev selecionou pelas raposas mais receptivas ou aquelas mais gostavam da interação com as pessoas. Em outras palavras, Belyav selecionou pelas raposas mais amigáveis e deixou que procriassem. Depois de muitas gerações, o grupo experimental de raposas mostrou uma alta frequência de características que Belyaev não selecionou, como orelhas caídas, caudas enroladas e pelagem multicolorida. As raposas também tinham mudanças psicológicas relacionadas à redução da agressão e aumento da atitude amigável. O experimento foi importante para nossa pesquisa porque eles tinham uma população que havia sido domesticada experimentalmente. Era uma grande oportunidade para testar a ideia de que a domesticação realmente é a seleção contra a agressão e pelos mais amigáveis com as pessoas. Faz sentido: como você pode ter um animal domesticado, se ele apenas quer te atacar ou é tão medroso que não consegue chegar perto de você? As raposas também nos levaram às perguntas sobre a psicologia: Essa habilidade impressionante de ler os gestos humanos e de usar os humanos como ferramentas sociais é também um produto da seleção pelos mais amigáveis? A resposta é “sim”: as raposas domesticadas agiram como cachorros na questão da habilidade de ler os gestos humanos, enquanto as raposas do grupo controle se comportaram mais como lobos.   

Nogueira: No seu livro, você menciona que “sem experimento, estaríamos escorregando da ciência para o campo da ficção”. Poderia elaborar por que precisamos de experimentos?
Hare: Publicamos um artigo na Science eliminando as duas primeiras hipóteses4. A primeira era que as habilidades impressionantes dos cachorros de interpretar os gestos humanos evoluíram nos lobos e foram herdadas. Segunda: muita experiência deu essas habilidades aos cachorros. Não encontramos evidências para essas hipóteses. Então, favorecemos a hipótese da domesticação. Não tínhamos evidência para ela, só tínhamos evidência contra as duas outras hipóteses. Se Belyaev não tivesse feito seu experimento de domesticação, estaríamos empacados nesse ponto. O trabalho de Belyaev estabeleceu a possibilidade de testar se a domesticação tornou os cachorros capazes de ler os gestos humanos. Fizemos um experimento com as raposas e ficamos surpresos: mesmo elas não sendo selecionadas para serem mais inteligentes ou melhores no uso dos gestos humanos, elas eram como um resultado de serem selecionadas por serem amigáveis. Tínhamos evidência direta que foi a domesticação5. As pessoas pensam que domesticamos os cachorros e tornamo-los mais inteligentes, mas não significa que é verdade.  

Nogueira: Se isso não é verdade, o que provavelmente aconteceu?
Hare: As pessoas pensam que criamos os cães como a nossa imagem. A melhor evidência sugere que os animais tinham uma vantagem se eles fossem amigáveis com pessoas; eles iriam reproduzir mais. Eu estava comendo em uma área externa de um restaurante e tinha pardais roubando comida a poucos centímetros de mim. Esses pardais estão comendo bastante, estão bem alimentados e saudáveis. Isso porque eles não têm medo das pessoas. Eu acho que algo similar a isso ocorreu com os cachorros. Em algum ponto da evolução humana, os humanos criaram uma nova fonte de comida. Se um animal fosse amigo o suficiente e não tivesse medo da população humana, ele seria um grande vencedor evolutivo. Então, uma população de lobos nos escolheu, não fomos nós que os escolhemos. Uma vez que os caçadores-coletores competiam com lobos, não fazia sentido trazer um animal como um lobo perto das suas crianças. Os lobos perceberam, assim como os pássaros do restaurante, que os restos ao redor dos acampamentos humanos são um recurso ótimo. Depois de algumas poucas gerações, eles mostrariam mudanças morfológicas, como aquelas que vimos nas raposas, possibilitando as pessoas diferenciar entre esses lobos e aqueles lobos que competíamos. Essa teria sido uma grande vantagem seletiva.

Nogueira: Como a evolução está relacionada com essas mudanças?
Hare: A seleção contra a agressão e por ser amigável com as pessoas criou várias mudanças além daquelas na morfologia e psicologia. Uma vez que existiam essas diferenças, a seleção pode agir nelas também. A questão é que essas novas mudanças não foram criadas; os humanos não pensaram em criar cães com orelhas caídas, por exemplo. Alguns indivíduos tinham orelhas caídas devido à seleção contra a agressividade. Com isso, as pessoas poderiam procriar esses indivíduos para criar mais orelhas caídas. Em outras palavras, tiramos vantagem da variância criada pela seleção contra a agressividade.
A evolução não é nada diferente da gravidade. Se eu soltar uma bola, não posso impedir a sua queda, é imparável. A evolução também é imparável. O fato de não conseguimos ver a evolução não significa que não esteja ocorrendo o tempo todo. Outro exemplo é um cervo que vem comer no quintal da minha casa. Normalmente, cervos próximos aos humanos não é uma boa ideia. Se alguém vive a alguns quilômetros da minha casa, um cervo no seu quintal rapidamente vai virar jantar. Mas, onde eu moro no subúrbio, todo mundo pensa que os cervos são fofos e adoráveis. Onde eu moro, há uma maior proporção de cervos com diferentes cores de pelos, há mais cervos brancos e albinos. As pesquisas mostram que os cervos que estão invadindo áreas urbanas são maiores, mais sociais e possuem mais descendentes do que aqueles vivendo distantes dos humanos. 

Nogueira: Esse processo de domesticação que ocorreu com os cães provavelmente ocorreu com outros animais, o que chamamos de convergência da evolução. O que encontramos, por exemplo, quando comparamos chimpanzés e bonobos em relação à agressividade e atitude com os estranhos?
Hare: Os bonobos serviram como um caso de teste para a hipótese de que foi a seleção natural, e não a seleção artificial, que causou a domesticação. Chamamos de autodomesticaçao: as espécies através da seleção natural interagindo com o ambiente terminaram como animais domesticados. Muitas mudanças entre lobos e cachorros são encontradas entre chimpanzés e bonobos. Os chimpanzés são como os lobos da família dos primatas. Se estivermos falando de características morfológicas e comportamentais, os bonobos são como os cães dos primatas. 
Nogueira: Nesta revista Skeptic, defendemos o pensamento baseado em evidência. Como você comunicou com o público, qual você acha que é a melhor abordagem para trazer as pessoas do pensamento baseado na fé para o pensamento baseado em evidências, para, por exemplo, aumentar a aceitação da evolução?
Hare: Nos Estados Unidos, as pessoas pensam que os Cristãos têm um problema com a evolução, mas a Igreja Católica diz que a evolução é consistente com a doutrina Católica. As pessoas adoram a formar grupos contrários: a ciência é algo que outras pessoas fazem. A resposta típica dessa briga entre grupos é que se alguém é religioso e de fé, essa pessoa não pode acreditar na ciência porque a ciência é anti-religião. As pessoas usam estratégias para atacar a ciência, ou pensamento evolutivo, como se fossem o grupo externo. Como alguém que estuda evolução, a primeira coisa a ser notada é que humanos evoluíram para enxergar grupos distintos em todos os lugares. Se dissermos algo do tipo “você é religioso e você não é como eu sou”, acabou a conversa. Como um comunicador da ciência, eu vou dizer que a Igreja Católica não tem problema com a minha pesquisa com o objetivo de desligar essa resposta da diferenciação de grupos. O objetivo do meu livro Seu Cachorro É Um Gênio é empolgar pessoas que nunca leram sobre evolução e ciência cognitiva para lerem, porque elas se importam com cachorros. Darwin iniciou A Origem das Espécies intencionalmente com um capítulo sobre domesticação, porque ele sabia que as pessoas eram familiarizadas e não se sentiam ameaçadas por esse tema. Acho que temos de fazer o mesmo.
        
Nogueira: Obrigado por essa ótima entrevista e continue com sua pesquisa fascinante! 


Referências
1.    Hare B, Tomasello M. 2005. Human-like social skills in dogs? Trends in Cognitive Sciences 9: 439–444. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16061417.  
2.    Kaminski J, Bräuer J, Call J, Tomasello M. 2009. Domestic dogs are sensitive to a human’s perspective. Behaviour 146: 979-998 https://doglab.shh.mpg.de/ pdf/Kaminski_et_al_2009a_dogs_sensitive_humans _perspective.pdf.
3.    Hare, B Hare, B., Homo sapiens Evolved via Selection for Prosociality. Annu Rev Psychol. 68:155-186: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27732802
4.    Hare B., M. Brown, C. Williamson, and M. Tomasello. 2002. “The domestication of social cognition in dogs.” Science. 298: 1634-6.
5.    Hare B., et al. 2005. “Social cognitive evolution in captive foxes is a correlated by-product of experimental domestication.” Current Biology. 15: 226-30.