sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Legado Científico de Stephen Hawking

por Sean Caroll
fonte: Preposterous Universe
tradução: Felipe Nogueira

Stephen Hawking é o raro cientista que também é uma celebridade e um fenômeno cultural. Mas ele também é o raro fenômeno cultural cuja celebridade é inteiramente merecida. Suas contribuições podem ser caracterizadas de forma bem simples: Hawking contribuiu mais para o nosso entendimento da gravidade do que qualquer outro físico desde Albert Einstein. 

"Gravidade" é uma palavra importante aqui. Durante grande parte da carreira de Hawking, a física teórica como comunidade esteve muito mais interessada na física de partículas e em outras forças da natureza - eletromagnetismo e as forças forte e fraca. A gravidade "clássica" (ignorando as complicações da mecânica quântica) foi descoberta por Einstein na sua teoria da relatividade geral, e  a gravidade quântica (criando uma versão quântica da relatividade geral) parecia muito difícil. Aplicando seu prodigioso intelecto à força mais conhecida da natureza, Hawking foi capaz de chegar a diversos resultados que surpreenderam completamente a comunidade. 

Por aclimatação, o resultado mais importante de Hawking é a realização que buracos negros não são completamente negros - eles emitem radiação, da mesma maneira como objetos comuns. Antes desse artigo famoso, ele provou teoremas importantes sobre buracos negros e singularidades, e depois estudou o universo como um todo. Em cada fase de sua carreira, as contribuições dele foram centrais. 

O Período Clássico

Enquanto trabalhava na sua tese de doutorado em Cambridge no meio da década de 1960, Hawking ficou interessado na questão da origem e o destino final do universo. A ferramenta certa para investigar esse problema é a relatividade geral, a teoria de Einstein do espaço, tempo e gravidade. De acordo com a relatividade geral, o que percebemos como "gravidade" é uma consequência da curvatura do espaço-tempo. Entendendo como a curvatura é criada por massa e energia, podemos prever como o universo evolui. Isso pode ser visto como o período "clássico" do Hawking, contrastando a relatividade geral clássica com suas investigações posteriores na teoria quântica dos campos e na gravidade quântica. 

Por volta da mesma época, Roger Penrose em Oxford provou um resultado impressionante:  de acordo com a relatividade geral, sob amplas circunstâncias, espaço e tempo colapsariam em si mesmos formando uma singularidade. Se a gravidade é a curvatura do espaço-tempo, uma singularidade é um momento no tempo quando essa curvatura se torna infinitamente grande. Esse teorema mostrou que singularidades não eram apenas curiosidades, elas são uma característica importante da relatividade geral.       

O resultado de Penrose se aplicava a buracos negros  regiões de espaço-tempo cujo campo gravitacional é tão forte que nem a luz não consegue escapar. Dentro de um buraco negro, a singularidade se esconde no futuro. Hawking pegou a ideia de Penrose e virou ao contrário, mirando no universo passado. Ele mostrou que, sob circunstâncias gerais parecidas, o espaço deve ter surgido a partir de uma singularidade: o Big Bang. Cosmólogos modernos falam (de forma confusa) tanto sobre o "modelo" de Big Bang, que é uma teoria muito bem sucedida que descreve a evolução de um universo em expansão ao longo de bilhões de anos, quanto sobre a "singularidade" do Big Bang, o que ainda não afirmamos entender.

Hawking então mudou seu foco para buracos negros. Um outro resultado interessante de Penrose demonstrou que é possível extrair energia de um buraco negro em rotação, essencialmente sangrando seu spin até que não esteja mais em rotação. Hawking foi capaz de demonstrar que, embora é possível extrair energia, a área do horizonte de eventos circundante ao buraco o negro sempre aumentará em qualquer processo físico. Esse "teorema de área" foi importante por si só, mas foi também evocativo de uma área completamente separada da física: termodinâmica, o estudo do calor.

A termodinâmica obedece um conjunto de leis famosas. Por exemplo, a primeira lei diz que a energia é preservada, enquanto a segunda lei diz que a entropia  uma medida do nível de desordem do universo  nunca diminui para um sistema isolado. Trabalhando com James Bardeen e Brandon Carter, Hawking propôs um conjunto de leis para a "mecânica de buraco negro", em uma analogia similar com a termodinâmica. Assim como na termodinâmica, a primeira lei da mecânica de buraco negro garante que a energia é preservada. A segunda lei é o teorema de área de Hawking, que a área do horizonte de eventos nunca diminui. Em um outras palavras, a área do horizonte de eventos é análoga à entropia de um sistema termodinâmico - ambos tendem a aumentar com o tempo.

Evaporação do Buraco Negro            

Hawking e seus colaboradores estavam orgulhosos das leis da mecânica de buraco negro, mas eles vinham essas leis simplesmente como uma analogia formal, não uma conexão literal entre gravidade e termodinâmica. Em 1972, um estudante de pós-graduação na Universidade da Princeton chamado Jacob Bekenstein sugeriu que tinha algo a mais além de uma analogia. Bekenstein, usando como base alguns engenhosos experimentos de pensamento, sugeriu que o comportamento de buracos negros não apenas parecia com termodinâmica, de fato é termodinâmica. Em particular, buracos negros têm entropia.

Como muitas ideias agressivas, essa ideia foi recepcionada com resistência por parte dos especialistas - e nesse momento,  Stephen Hawking era o especialista do mundo em buracos negros. Hawking estava cético e por boas razões. Se a mecânica de buraco negro é apenas uma forma de termodinâmica, isso quer dizer que buracos negros possuem temperatura. E objetos que possuem temperatura emitem radiação - a famosa "radiação do corpo negro" que desempenhou um papel central no desenvolvimento da mecânica quântica. Então, se Bekenstein estivesse certo, isso implicaria que buracos negros não são realmente negros (embora o próprio Bekenstein não foi tão longe assim).

Para endereçar esse problema seriamente, é preciso olhar além da relatividade geral, uma vez que a teoria de Einstein é puramente "clássica" - ela não incorpora os insights da mecânica quântica. Hawking sabia que os físicos Russos Alexander Starobinsky e Yakov Zel'dovich tinham investigado os efeitos quânticos na vizinhança de buracos negros e tinham previsto um fenômeno chamado "superradiância". Assim como Penrose tinha demonstrado que é possível extrair energia de um buraco negro em rotação, Starobinsky e Zel'dovich mostraram que um buraco negro em rotação pode emitir radiação espontaneamente via mecânica quântica. Hawking não era um especialista nas técnicas da teoria quântica de campos, que na época eram o território dos físico de partículas e não de relativistas gerais. Mas ele era um estudioso rápido e se lançou na difícil tarefa de entender os aspectos quânticos de buracos negros, para que ele pudesse encontrar o erro de Bekenstein.

Em vez disso, ele se surpreendeu, e no processo virou a física teórica de cabeça para baixo. O que eventualmente Hawking descobriu era que Bekenstein estava certo — buracos negros têm entropia —e que as implicações extraordinárias dessa ideia eram verdade — buracos negros não são completamente negros. Nos referimos à "entropia de Bekenstein-Hawking" de buracos negros, que emitem "radiação Hawking" nas suas "temperaturas Hawking".

Há uma maneira boa e informal de entender a radiação Hawking. A mecânica quântica diz (entre outras coisas) que não é possível atribuir um estado clássico definitivo para um sistema; há sempre uma incerteza intrínseca naquilo que veremos ao olharmos para o sistema. Isso é verdade até para o espaço vazio - quando se olha perto o suficiente, aquilo que pensamos ser espaço vazio está repleto de "partículas virtuais"  constantemente vindo a existir e deixando de existir.  Hawking demonstrou que, na vizinha de um buraco negro, um par de partículas virtuais podem se separar, uma caindo no buraco negro e a outra escapando como radiação. Surpreendentemente, a partícula em queda tem uma entropia negativa se medida por um observador externo ao buraco negro. O resultado é que a radiação leva gradualmente a massa do buraco negro - o buraco negro evapora.

O resultado de Hawking tinha implicações óbvias e profundas relacionadas à maneira como pensamos sobre buracos negros. Em vez de ser um ponto final cósmico, onde matéria e energia desaparecem para sempre, eles são objetos dinâmicos que eventualmente vão evaporar completamente. Mas mais importante para a física teórica, essa descoberta lançou uma questão que ainda não sabemos a resposta: quando matéria cai dentro de um buraco negro e o buraco negro evapora, para onde vai a informação?

Se queimarmos uma enciclopédia, podemos pensar que a informação contida na enciclopédia é perdida para sempre. Mas de acordo com a mecânica quântica, a informação não está nada perdida; se pudéssemos capturar cada fragmento de luz e cinza que saíram do fogo, em teoria é possível reconstruir tudo que foi queimado, até o conteúdo impresso nas páginas do livro. Mas buracos negros, se o resultado de Hawking for considerado ao pé da letra, parecem destruir a informação, pelo menos da perspectiva do mundo externo. Esse impasse é o "enigma da perda de informação de buracos negros" e tem chateado os físicos por décadas.

Nos últimos anos, o progresso no entendimento da gravidade quântica (apenas no nível de experimento de pensamento) tem convencido mais pessoas de que a informação é realmente preservada. Em 1997, Hawking fez uma aposta com os físicos Americanos Kip Thorne e John Preskill; Hawking e Thorne disseram que a informação é destruída, Preskill disse que a informação era preservada de alguma forma. Em 2007, Hawking admitiu que perdeu a aposta, dizendo que buracos negros não destroem a informação. Entretanto, Thorne ainda não concedeu a sua parte da aposta e o próprio Preskill pensa que a concessão de Hawking foi prematura. A radiação e entropia de buracos negros continuam sendo princípios que guiam a nossa busca por um melhor entendimento da gravidade quântica. 

Cosmologia Quântica

O trabalho de Hawking na radiação de buracos negros se baseava em uma combinação de ideias quânticas e clássicas. No seu modelo, o buraco negro em si era tratado classicamente, de acordo com as regras da relatividade geral; enquanto isso, as partículas virtuais próximas ao buraco negro eram tratadas usando as regras da mecânica quântica. O objetivo final de muitos físicos é construir uma verdadeira teoria da gravidade quântica, na qual o espaço-tempo seria parte de um sistema quântico.

Se há um lugar onde a mecânica quântica e a gravidade têm um papel central, é na origem do universo. E foi nessa questão, não surpreendente, que Hawking dedicou a parte final da sua carreira. Ao fazer isso, ele estabeleceu a agenda para o projeto ambicioso dos físicos de entender de onde o nosso universo veio.

Na mecânica quântica, um sistema não tem uma posição ou velocidade; seu estado é descrito por uma "função de onda", que nos diz a probabilidade de mensurarmos uma posição ou velocidade específica ao observamos o sistema. Em 1983, Hawking e James Hartle publicaram um artigo entitulado simplesmente "A Função de Onda do Universo". Eles propuseram um procedimento simples onde - em principio! - o estado de todo o universo poderia ser calculado. Não sabemos se a função de onda Hartle-Hawking é realmente a correta descrição do universo. De fato, porque ainda não temos uma completa teoria quântica da gravidade, não sabemos nem se o procedimento faz sentido. Mas o artigo deles mostrou que podemos falar do início do universo de uma forma científica.

Estudar a origem do universo oferece a expectativa de conectar a gravidade quântica a características observáveis do universo. Cosmólogos acreditam que pequenas variações na densidade de matéria originada de tempos bem iniciais gradualmente cresceram na distribuição de estrelas e galáxias que observamos hoje. Uma teoria completa da origem do universo pode ser capaz de prever essas variações e executar esse programa é a maior ocupação de físicos atualmente. Hawking fez uma série de contribuições a esse programa, a partir da sua função de onda do universo e no contexto do modelo do "universo inflacionário" proposto por Alan Guth.

Apenas falar sobre a origem do universo é um passo provocante. Isso lança a expectativa de que ciência pode ser capaz de prover uma completa e auto-contida descrição da realidade - uma expectativa que vai além da ciência, até os reinos da filosofia e teologia. Hawking, sempre provocante, nunca se esquivou dessas implicações. Ele gostava de lembrar de uma conferência de cosmologia organizada pelo Vaticano, na qual o Papa João Paulo II supostamente disse aos cientistas para não investigar a origem do universo, "porque esse foi o momento da criação e então o trabalho de Deus". Repreensões como essa não frearam Hawking; ele viveu sua vida em uma incansável busca nas questões mais fundamentais que a ciência pode atacar.       
        

O Presente Mais Profundo de Hawking à Física

por Sean Carroll
fonte: NY Times
tradução: Felipe Nogueira

Stephen Hawking se foi, mas ele deixou algo incrivelmente precioso: um enigma intricado e frustrante, e que os cientistas lutarão para solucionar nos próximos anos. O enigma do Dr. Hawking é uma peça importante da talvez maior pergunta na física atualmente: como podemos conciliar a gravidade com a mecânica quântica?

Os anos iniciais do século XX presenciaram duas incríveis revoluções científicas. Uma foi a teoria da relatividade. Liderados por Albert Einstein, os físicos descartaram o espaço e tempo absolutos de Isaac Newton e os substituíram por um contínuo e unificado espaço-tempo quadridimensional. São as dobras e ondulações do espaço-tempo, descobriu Einstein, que dão origem ao que experimentamos como a força da gravidade.

A outra revolução — até mais profunda que relatividade — foi a mecânica quântica. Quando examinamos o comportamento de partículas sub-atômicas, descobrimos que elas não podem ser descritas com a linguagem precisa da física clássica. Em vez disso, as partículas sub-atômicas aparecem como ondas de probabilidades e o melhor que podemos fazer é calcular a chance de uma específica medição retornar um ou outro resultado.

Gradualmente, tudo que sabemos sobre o mundo físico foi sendo colocado dentro da mecânica quântica. O comportamento da matéria, eletricidade e magnetismo, e as forças sub-atômicas funcionando dentro do núcleo de átomos — tudo encaixou elegantemente no paradigma quântico.

A única exceção é a gravidade. Por razões técnicas e conceituais, a visão de Einstein do espaço-tempo curvado vem resistido teimosamente à conciliação com as regras da mecânica quântica. A busca por uma teoria que unifique os dois paradigmas  uma teoria da "gravidade quântica" — é talvez o projeto mais ambicioso na física teórica moderna.

"Teórica" é uma palavra importante nesse contexto, porque é praticamente impossível fazer experimentos que diretamente revelem qualquer coisa sobre a gravidade quântica. A mecânica quântica se revela na escala sub-atômica, enquanto a gravidade se torna perceptível apenas quando temos massas astronomicamente grandes. Não há situação facilmente acessível onde as duas são importantes ao mesmo tempo.

É aqui que Stephen Hawking aparece. Quando experimentos reais são elusivos, nos voltamos para experimentos de pensamento. Na década de 1970, Dr. Hawking descreveu a mãe de todos os experimentos de pensamento, um que mantem os físicos acordados a noite.

O experimento de pensamento de Hawking começa com um buraco negro. De acordo com a relatividade de Einstein, um buraco negro é uma região de espaço-tempo onde a gravidade se tornou tão forte que nada consegue escapar. Mas o Dr. Hawking se perguntou como que partículas quânticas se comportam na vizinha de tal objeto. Afinal, a mecânica quântica é uma teoria de probabilidades; talvez o impossível de acordo com Einstein seja possível no mundo quântico.

E, de fato, é possível. Os cálculos do Dr. Hawking relevaram, como ele colocou de forma maliciosa, que "buracos negros não são tão negros". Eles na realidade emitem um contínuo feixe de partículas, conhecidas como radiação Hawking. Essas partículas carregam fragmentos da massa do buraco negro, que então evaporará completamente, um fenômeno conhecido como evaporação Hawking. 

Então, este é o experimento de pensamento: jogue um livro em um buraco negro. O livro carrega informação. Talvez a informação seja sobre física ou a trama de um romance — pode ser qualquer tipo de informação. Mas até onde sabemos, a radiação Hawking que sai do buraco negro é a mesma independente do que entrou no buraco negro. A informação é aparentemente perdida — para aonde que foi?

Então, temos o "enigma da perda de informação em buracos negros", talvez o presente mais profundo do Dr. Hawking para a física. Em questão está o destino do princípio da conservação de informação. Sem a relatividade geral, a mecânica quântica prevê que a informação é preservada; de forma similar, sem a mecânica quântica, a relatividade geral prevê que a informação é preservada, mesmo que alguma parte fique escondida no buraco negro. É, então, estranho que a junção das duas teorias acarrete no desaparecimento da informação.

Por um longo período, Dr. Hawking argumentou, contra a intuição de outros líderes na física, que a informação é simplesmente apagada do buraco negro e que teríamos que aprender a lidar com isso. Mas eventualmente ele mudou de ideia (algo que ele sempre fazia com vontade), concedendo em 2004 que a informação está provavelmente retida na radiação que sai do buraco negro. A questão, no entanto, está muito longe de estar resolvida.

O experimento de pensamento da perda da informação do Dr. Hawking é maior pista que temos de como a gravidade quântica deve operar. Mesmo não tendo uma teoria completa ainda, sabemos muito sobre a mecânica quântica e sabemos muito sobre a gravidade. Isso é suficiente para nos convencer que radiação Hawking é real, mesmo que nunca tenha sido observada diretamente. Isso significa que qualquer teoria da gravidade quântica terá de explicar de alguma forma como a informação escapa do buraco negro ou como é destruída.

A radiação do buraco negro e o enigma da perda da informação certamente não são as únicas contribuições do Dr. Hawking à física moderna. Voltando ao alicerce mais firme da relatividade clássica, ele provou uma série de teoremas fundamentais sobre o comportamento de buracos negros e expansão do universo. De forma mais especulativa, Dr. Hawking e o físico James Hartle propuseram uma candidata para a "função de onda do universo", o estado quântico descrevendo toda a realidade. No meio termo, Dr. Hawking fez contribuições para perguntas profundas como a origem da estrutura do universo e se é possível construir uma máquina do tempo (Não é, ele argumentou).

Ele fez isso tudo em adição, é claro, ao seu alcance a uma audiência popular compartilhando com ela sua paixão pela física e os mistérios do universo. Dr. Hawking foi um cientista extraordinariamente influente, assim como um ser humano corajoso e determinado. Eles nos deixou muita coisa para pensar.              
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Sean Carroll (@seancarroll) é um físico teórico no Instituto de Tecnologia da Califórnia e autor do livro The Big Picture: On the Origins of Life, Meaning, and the Universe Itself.       

quarta-feira, 7 de março de 2018

Os Cães Ficaram Mais Espertos Através da Domesticação? Entrevista com Dr. Brian Hare










por Felipe Nogueira

Dr. Brian Hare é um Professor Associado do Departamento de Antropologia Evolutiva na Universidade de Duke e no Centro de Neurociência Cognitiva. Hare é pioneiro e especialista na área de psicologia dos cães. Junto com Vanessa Woods, Brian Hare escreveu sobre a revolução no estudo da cognição canina no fascinante livro Seu Cachorro É Um Gênio! Como os Cães São Mais Inteligentes do Que Se Pensa. Na palavra dos autores, o livro é “como a ciência cognitiva passou a entender a genialidade dos cães através de jogos experimentais, sem usar outra tecnologia além de brinquedos, vasilhames, bolas, e tudo o mais que houvesse em uma garagem”.
   
Hare e outros pesquisadores mostraram diversas vezes que os cachorros são bons em entender as intenções de comunicação dos humanos. Com a ajuda de um brilhante experimento com raposas iniciado por Dmitri Belyaev em 1950 que continua até os dias de hoje, a pesquisa de Hare descobriu o que permitiu aos cães desenvolverem essa habilidade impressionante: domesticação. Depois de 45 gerações, as raposas de Belyaev no grupo experimental tinham orelhas caídas, rabos enrolados e eram muito melhores na leitura dos gestos humanos do que as raposas no grupo controle. A questão é que Belyaev não selecionou pelas melhores raposas em ler os gestos humanos; em vez disso, ele selecionou as raposas menos medrosas e mais amigas em relação aos humanos. Como Hare e Woods escreveram no livro: “A domesticação, ao selecionar para procriação as raposas mais amigáveis, provocara uma evolução cognitiva”. 

Para entender ainda mais as limitações e flexibilidades da cognição canina, pesquisadores têm criado laboratórios dedicados, como o Centro de Cognição Canina de Duke, criado por Hare.

Dr. Brian Hare
Nogueira: No seu livro, você fala da genialidade dos cães. O que você quer dizer com ser um gênio?
Hare: Se fossemos falar de QI alto, ou quem seria recrutado pela NASA, teríamos um livro bem pequeno. Na minha opinião, a grande descoberta na revolução da cognição é que a cognição não é um traço dimensional único. Na realidade, é todo um conjunto de habilidades que podem variar de forma independente e nem sabemos quantas existem. Por exemplo, uma pessoa pode ser ótima em matemática, mas uma péssima comunicadora. Em relação às espécies, cada uma evoluiu para resolver um conjunto de problemas que as ajudaram a sobreviver e reproduzir em seus ambientes particulares; os cães não são diferentes. O meu livro Seu Cachorro É Um Gênio tenta explicar como uma espécie que parece ser bem comum é tão bem sucedida. Os cachorros são bem sucedidos de uma perspectiva evolutiva porque, em todos os lugares que há pessoas, há cães. É o mamífero mais bem sucedido – depois dos humanos e talvez vacas. É isso que o livro explora: os cães possuem algum tipo de genialidade psicológica ou cognitiva? Sim, eles mostram um nível incomum de sofisticação para resolução de problemas.

Nogueira: Conte como começou a pesquisar a cognição dos cachorros.
Hare: O psicologista do desenvolvimento Michael Tomasello, meu orientador de pesquisa na época, estava me explicando como a comunicação gestual é muito importante no desenvolvimento humano. Ele pensava não ser apenas crucial para evolução humana, mas algo único dos humanos. A teoria dele era que as crianças desenvolveram a habilidade de usar os gestos humanos e entender intenções de comunicação. Então, eu disse para ele que meu cachorro também conseguia fazer isso. Foi quando eu aprendi o que é a ciência, porque mesmo sendo uma ideia importante de como os humanos evoluíram, Tomasello ficou curioso. Ele me disse: “vou te ajudar a achar uma forma de provar que estou errado”. Isso é incrível! Quando descobrimos que ele estava errado sobre os cachorros, ele ficou empolgado, nos dizendo para fazer mais experimentos. As pessoas acham que a ciência envolve pessoas em jalecos de laboratórios criando ideias geniais, mas na realidade é uma maneira de refutar ideias.

Nogueira: Como foi o primeiro experimento com cães?
Hare: Usamos uma técnica poderosa, mas muito simples: tínhamos dois recipientes e escondemos comida em um deles. Então apontamos para onde escondemos, tentando ajudar o cachorro1. Grandes primatas são péssimos nessa tarefa. Eles não mostram muita flexibilidade cognitiva, já que eles precisam aprender o gesto. E, todas as vezes que você usa um novo gesto, eles precisam aprender de novo. Em comparação, crianças por volta de um ano de idade entendem gestos que eles nunca viram antes, mostrando um grau de flexibilidade não observado nos grandes primatas. Fizemos com os cães a mesma série de experimentos que foi realizada com primatas e crianças. A grande surpresa foi que cães são mais parecidos com as crianças.
Esse foi um experimento controlado: os cachorros não estavam usando olfato, nem reagindo ao movimento. Na ciência, há dois passos. Primeiro, é preciso demonstrar um fenômeno. Seja ondas gravitacionais ou cachorros seguindo gestos, você precisa demonstrar o fenômeno. Então, tenta-se explicar. Frequentemente, as pessoas estão preocupadas em explicar antes mesmo de demonstrar que o fenômeno existe. Após demonstrarmos que os cães estavam seguindo o gesto de apontar, nós queríamos saber se eles apenas sentiram o cheiro da comida escondida. Descobrimos que lobos, raposas e cães preferem usar seus olhos. Quando eles não conseguem a informação que precisam pela visão, aí que eles usam olfato. Nesses experimentos, descobrimos que os cães priorizam as informações da visão e memória em comparação com o olfato. 

Nogueira: Um dos experimentos fascinantes mencionado no livro usa uma barreira opaca. Poderia elaborar?
Hare: Esse é o trabalho da Juliane Kaminsky, Michael Tomasello e Josep Call2. Eles colocaram uma bola atrás de cada uma de duas barreiras, uma opaca e uma transparente. O cachorro pode ver as duas bolas. Na condição experimental, um humano está no lado oposto das barreiras e pede para o cachorro buscar a bola. O surpreendente é que os cachorros não pegaram a bola da barreira opaca, que o humano não consegue ver através; eles favoreceram a bola da barreira transparente. Na condição de controle, onde humano e o cão estão no mesmo lado, vendo a mesma coisa, os cães escolhem a bola de forma aleatória. Esse experimento sugere que os cachorros sabem o que os humanos conseguem e não conseguem ver.
Nogueira: Quais são as possíveis explicações para os cães serem tão bom em ler os gestos humanos?
Hare: Um nível de explicação é que os cachorros aprenderam lentamente, já que eles viram esses gestos muitas vezes. Essa ideia pode ser testada usando um gesto que os cães nunca viram antes, como apontar com o pé. Pode se usar um gesto doido, como colocar um objeto em cima de um recipiente onde está a comida escondida. Crianças humanas e cachorros seguem esses gestos, mas chimpanzés não. Com isso, essa hipótese de aprender devagar foi descartada. A parte difícil é como saber se os cães realmente possuem uma estratégia flexível sofisticada, uma teoria da mente, o que significa que eles estão pensando no pensamento de outros indivíduos? A melhor evidência sobre animais que possuem teoria da mente vem dos grandes primatas e talvez pássaros, como corvos. Em relação aos cachorros, na realidade, não temos o experimento conclusivo para eliminar explicações alternativas. Então, não temos evidências extraordinárias que os cachorros possuem teoria da mente. Por exemplo, o experimento da barreira opaca, onde o cachorro sabe o que pessoa consegue e não consegue ver, não foi replicado. Quando estamos estudando algo como a teoria da mente, buscamos múltiplos experimentos onde o animal mostra o mesmo tipo de habilidade. Temos isso com grandes primatas, mas não temos isso ainda com os cachorros.

Nogueira: De onde vêm as habilidades impressionantes dos cachorros?
Hare: Testamos várias hipóteses. A primeira era que como os cachorros são parentes dos lobos, que são inteligentes e talvez fossem bons em ler os gestos humanos. A outra foi experiência: eles interagiram conosco e aprenderam devagar. Finalmente, consideramos se foi algo ocorrido durante a domesticação. E a evidência favorece a domesticação: a seleção dos mais amigáveis com humanos foi o que permitiu aos cachorros serem mais habilidosos na leitura e na utilização dos humanos para resolver problemas. Isso foi uma surpresa: por que ser selecionado por ser amigável torna alguém mais inteligente?   

Nogueira: Como que a pesquisa de Belyaev com as raposas ajudaram a responder essa pergunta?
Hare: Esse brilhante experimento foi conduzido por um grupo de cientistas na Sibéria liderado por Dmitri Belyaev. Eles tinham dois grupos de raposas separados: o grupo experimental e o grupo controle. O grupo controle foi procriado de forma aleatória. No grupo experimental, Belyaev selecionou pelas raposas mais receptivas ou aquelas mais gostavam da interação com as pessoas. Em outras palavras, Belyav selecionou pelas raposas mais amigáveis e deixou que procriassem. Depois de muitas gerações, o grupo experimental de raposas mostrou uma alta frequência de características que Belyaev não selecionou, como orelhas caídas, caudas enroladas e pelagem multicolorida. As raposas também tinham mudanças psicológicas relacionadas à redução da agressão e aumento da atitude amigável. O experimento foi importante para nossa pesquisa porque eles tinham uma população que havia sido domesticada experimentalmente. Era uma grande oportunidade para testar a ideia de que a domesticação realmente é a seleção contra a agressão e pelos mais amigáveis com as pessoas. Faz sentido: como você pode ter um animal domesticado, se ele apenas quer te atacar ou é tão medroso que não consegue chegar perto de você? As raposas também nos levaram às perguntas sobre a psicologia: Essa habilidade impressionante de ler os gestos humanos e de usar os humanos como ferramentas sociais é também um produto da seleção pelos mais amigáveis? A resposta é “sim”: as raposas domesticadas agiram como cachorros na questão da habilidade de ler os gestos humanos, enquanto as raposas do grupo controle se comportaram mais como lobos.   

Nogueira: No seu livro, você menciona que “sem experimento, estaríamos escorregando da ciência para o campo da ficção”. Poderia elaborar por que precisamos de experimentos?
Hare: Publicamos um artigo na Science eliminando as duas primeiras hipóteses4. A primeira era que as habilidades impressionantes dos cachorros de interpretar os gestos humanos evoluíram nos lobos e foram herdadas. Segunda: muita experiência deu essas habilidades aos cachorros. Não encontramos evidências para essas hipóteses. Então, favorecemos a hipótese da domesticação. Não tínhamos evidência para ela, só tínhamos evidência contra as duas outras hipóteses. Se Belyaev não tivesse feito seu experimento de domesticação, estaríamos empacados nesse ponto. O trabalho de Belyaev estabeleceu a possibilidade de testar se a domesticação tornou os cachorros capazes de ler os gestos humanos. Fizemos um experimento com as raposas e ficamos surpresos: mesmo elas não sendo selecionadas para serem mais inteligentes ou melhores no uso dos gestos humanos, elas eram como um resultado de serem selecionadas por serem amigáveis. Tínhamos evidência direta que foi a domesticação5. As pessoas pensam que domesticamos os cachorros e tornamo-los mais inteligentes, mas não significa que é verdade.  

Nogueira: Se isso não é verdade, o que provavelmente aconteceu?
Hare: As pessoas pensam que criamos os cães como a nossa imagem. A melhor evidência sugere que os animais tinham uma vantagem se eles fossem amigáveis com pessoas; eles iriam reproduzir mais. Eu estava comendo em uma área externa de um restaurante e tinha pardais roubando comida a poucos centímetros de mim. Esses pardais estão comendo bastante, estão bem alimentados e saudáveis. Isso porque eles não têm medo das pessoas. Eu acho que algo similar a isso ocorreu com os cachorros. Em algum ponto da evolução humana, os humanos criaram uma nova fonte de comida. Se um animal fosse amigo o suficiente e não tivesse medo da população humana, ele seria um grande vencedor evolutivo. Então, uma população de lobos nos escolheu, não fomos nós que os escolhemos. Uma vez que os caçadores-coletores competiam com lobos, não fazia sentido trazer um animal como um lobo perto das suas crianças. Os lobos perceberam, assim como os pássaros do restaurante, que os restos ao redor dos acampamentos humanos são um recurso ótimo. Depois de algumas poucas gerações, eles mostrariam mudanças morfológicas, como aquelas que vimos nas raposas, possibilitando as pessoas diferenciar entre esses lobos e aqueles lobos que competíamos. Essa teria sido uma grande vantagem seletiva.

Nogueira: Como a evolução está relacionada com essas mudanças?
Hare: A seleção contra a agressão e por ser amigável com as pessoas criou várias mudanças além daquelas na morfologia e psicologia. Uma vez que existiam essas diferenças, a seleção pode agir nelas também. A questão é que essas novas mudanças não foram criadas; os humanos não pensaram em criar cães com orelhas caídas, por exemplo. Alguns indivíduos tinham orelhas caídas devido à seleção contra a agressividade. Com isso, as pessoas poderiam procriar esses indivíduos para criar mais orelhas caídas. Em outras palavras, tiramos vantagem da variância criada pela seleção contra a agressividade.
A evolução não é nada diferente da gravidade. Se eu soltar uma bola, não posso impedir a sua queda, é imparável. A evolução também é imparável. O fato de não conseguimos ver a evolução não significa que não esteja ocorrendo o tempo todo. Outro exemplo é um cervo que vem comer no quintal da minha casa. Normalmente, cervos próximos aos humanos não é uma boa ideia. Se alguém vive a alguns quilômetros da minha casa, um cervo no seu quintal rapidamente vai virar jantar. Mas, onde eu moro no subúrbio, todo mundo pensa que os cervos são fofos e adoráveis. Onde eu moro, há uma maior proporção de cervos com diferentes cores de pelos, há mais cervos brancos e albinos. As pesquisas mostram que os cervos que estão invadindo áreas urbanas são maiores, mais sociais e possuem mais descendentes do que aqueles vivendo distantes dos humanos. 

Nogueira: Esse processo de domesticação que ocorreu com os cães provavelmente ocorreu com outros animais, o que chamamos de convergência da evolução. O que encontramos, por exemplo, quando comparamos chimpanzés e bonobos em relação à agressividade e atitude com os estranhos?
Hare: Os bonobos serviram como um caso de teste para a hipótese de que foi a seleção natural, e não a seleção artificial, que causou a domesticação. Chamamos de autodomesticaçao: as espécies através da seleção natural interagindo com o ambiente terminaram como animais domesticados. Muitas mudanças entre lobos e cachorros são encontradas entre chimpanzés e bonobos. Os chimpanzés são como os lobos da família dos primatas. Se estivermos falando de características morfológicas e comportamentais, os bonobos são como os cães dos primatas. 
Nogueira: Nesta revista Skeptic, defendemos o pensamento baseado em evidência. Como você comunicou com o público, qual você acha que é a melhor abordagem para trazer as pessoas do pensamento baseado na fé para o pensamento baseado em evidências, para, por exemplo, aumentar a aceitação da evolução?
Hare: Nos Estados Unidos, as pessoas pensam que os Cristãos têm um problema com a evolução, mas a Igreja Católica diz que a evolução é consistente com a doutrina Católica. As pessoas adoram a formar grupos contrários: a ciência é algo que outras pessoas fazem. A resposta típica dessa briga entre grupos é que se alguém é religioso e de fé, essa pessoa não pode acreditar na ciência porque a ciência é anti-religião. As pessoas usam estratégias para atacar a ciência, ou pensamento evolutivo, como se fossem o grupo externo. Como alguém que estuda evolução, a primeira coisa a ser notada é que humanos evoluíram para enxergar grupos distintos em todos os lugares. Se dissermos algo do tipo “você é religioso e você não é como eu sou”, acabou a conversa. Como um comunicador da ciência, eu vou dizer que a Igreja Católica não tem problema com a minha pesquisa com o objetivo de desligar essa resposta da diferenciação de grupos. O objetivo do meu livro Seu Cachorro É Um Gênio é empolgar pessoas que nunca leram sobre evolução e ciência cognitiva para lerem, porque elas se importam com cachorros. Darwin iniciou A Origem das Espécies intencionalmente com um capítulo sobre domesticação, porque ele sabia que as pessoas eram familiarizadas e não se sentiam ameaçadas por esse tema. Acho que temos de fazer o mesmo.
        
Nogueira: Obrigado por essa ótima entrevista e continue com sua pesquisa fascinante! 


Referências
1.    Hare B, Tomasello M. 2005. Human-like social skills in dogs? Trends in Cognitive Sciences 9: 439–444. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/16061417.  
2.    Kaminski J, Bräuer J, Call J, Tomasello M. 2009. Domestic dogs are sensitive to a human’s perspective. Behaviour 146: 979-998 https://doglab.shh.mpg.de/ pdf/Kaminski_et_al_2009a_dogs_sensitive_humans _perspective.pdf.
3.    Hare, B Hare, B., Homo sapiens Evolved via Selection for Prosociality. Annu Rev Psychol. 68:155-186: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27732802
4.    Hare B., M. Brown, C. Williamson, and M. Tomasello. 2002. “The domestication of social cognition in dogs.” Science. 298: 1634-6.
5.    Hare B., et al. 2005. “Social cognitive evolution in captive foxes is a correlated by-product of experimental domestication.” Current Biology. 15: 226-30.


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Existe um consenso científico sobre armas de fogo -- e a NRA não vai gostar

por David Hemenway
Tradução: Felipe Nogueira

Após a tragédia de Sandy Hook, jornalistas me ligaram com frequência perguntando por informações sobre armas de fogo. Eles queriam saber se leis de armas mais rigorosas reduzem a taxa de homicídio (eu disse que elas reduzem) e se leis de posse armas mais permissivas reduzem a taxa de crimes em geral (eu disse que não reduzem). Descobri que, nas suas matérias, os jornalistas escrevem que eu disse uma coisa e que outros pesquisadores de armas de fogo disseram o oposto. Fiquei incomodado com essa situação reportada da "minha palavra contra a dele" - porque eu sabia que a evidência científica estava do meu lado.

Um dos jornalistas com quem reclamei me disse que ele cobriu mudança climática por muitos anos. Ele me explicou que os jornalistas só foram capazes de parar com o relato "balanceado" dessa questão quando achados objetivos indicaram que a grande maioria dos cientistas pensa que a mudança climática está ocorrendo e que é causada pelos humanos.

Então, decidi determinar objetivamente, através de questionários, se existia um consenso científico sobre armas de fogo. O que achei não agradará a National Rifle Association.

Meu primeiro passo foi juntar uma lista de cientistas relevantes. Decidi que, para estar apto para responder o questionário, o pesquisador deveria ter publicado sobre armas de fogo em um periódico científico com revisão por pares e que o pesquisador deveria ser um cientista em atividade - alguém que tenha publicado um artigo nos últimos quatro anos. Eu estava interessado em ciência social e questões políticas, então queria que os artigos fossem relevantes diretamente. Não estava interessado em cientistas fazendo pesquisa em ciência forense, história, tratamento médico, questões psiquiátricas, engenharia ou armas diferentes das armas de fogo (por exemplo, pistola de pregos)

A maioria dos cientistas que estava publicando artigos relevantes era das áreas de criminologia, econômica, política pública, ciência política e saúde pública. Como normalmente há muito mais autores em artigos de saúde pública que nos de criminologia, para ter uma lista balanceada, decidi incluir apenas o primeiro autor. Estudantes de graduação que trabalham para mim identificaram mais de 300 primeiros autores distintos e encontraram mais de 280 endereços de email.

No mês de Maio de 2015, começamos a enviar pequenos questionários mensais. A primeira pergunta de cada questionário perguntava se cada um concordava com uma afirmação particular relacionada às armas de fogo. As pergunta seguintes pediam para avaliar a qualidade da literatura científica, assim como o seu próprio nível de familiaridade com a literatura científica com aquele tópico em particular. 

"É claro que é possível encontrar pesquisadores que estão do lado da NRA, acreditando que as armas tornam nossa sociedade mais segura, em vez de mais perigosa. Como mostrei, entretanto, eles são a minoria." 

Então, por exemplo, um questionário perguntou se ter uma arma em casa aumenta o risco de suicídio. Um grande parcela das 150 pessoas que responderam, 84%, disse sim. 

Esse resultado não é tão surpreendente assim, porque a evidência cientifica é abundante. Inclui uma dezena de estudos em nível do indivíduo que investigam por que algumas pessoas cometem suicídios e outras não e quase o mesmo número de estudos em nível de área ampla que tentam explicar diferenças nas taxas de suícidio entre cidades, estados e regiões. Esses estudos de área descobriram que as diferenças nas taxas de suicídio ao longo do país são menos explicadas pelas diferenças nas taxas de saúde mental ou na idealização de suicídio do que pelas diferenças nos níveis de posse de arma de fogo dentro das residências.  

Uma meta-análise de estudos científicos sobre armas e suicídios, publicada em 2014 e conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco, concluiu que o acesso à arma de fogo aumenta o risco de suicídio. Similarmente, a Estratégia Nacional de Prevenção de Suicídio de 2012 da National Action Alliance for Suicide Prevention e do Cirurgião Geral dos Estados Unidos concluiu que "acesso à arma de fogo é um fator de risco para suicídio nos Estados Unidos".  

Como eu disse, eu não fiquei surpreso com os resultados desse questionário. Mesmo assim, foi bom poder documentar que a grande maioria dos pesquisadores de armas chegou à mesma conclusão sobre armas de fogo e suicídio através de suas leituras individuais da literatura científica.  

Também encontrei ampla confiança de que uma arma em uma residência casa aumenta o risco de uma mulher vivendo nessa residência ser vítima de homicídio (72% concordam, 11% discordam) e que uma arma na casa torna-a um local mais perigoso (64%) ao invés de um local mais seguro (5%). Existe um consenso de que as armas não são usadas em defesa pessoal mais do que são usadas no crime (73% vs. 8%) e que uma mudança para leis mais permissivas de porte de arma não reduziu a taxa de crime (62% vs. 9%). Finalmente, há consenso que leis mais rígidas de armas reduzem homicídio (71% vs. 12%). 

É claro que é possível encontrar pesquisadores que estão do lado da NRA, acreditando que as armas tornam nossa sociedade mais segura, em vez de mais perigosa. Como mostrei, entretanto, eles são a minoria. 

O consenso científico nem sempre está certo, mas é o melhor guia que nós temos para entender o mundo. Será que os jornalistas poderiam por favor parar de fingir que os cientistas, assim como políticos, estão igualmente divididos sobre as armas? Não estamos.  

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David Hemenway é professor na Escola de Saúde Pública de Harvard e diretor do Harvard Injury Control Research Center

sábado, 22 de julho de 2017

What the Health: Um filme com uma ideologia

por Harriet Hall
fonte: Science-Based Medicine.org
tradução: Felipe Nogueira

O documentário "What the Health" expõe o conto de fadas que todas as principais doenças (doença cardíaca, diabetes, câncer e muitas outras) podem ser evitadas e curadas através da eliminação de carne e laticínios da dieta. É uma descarada polêmica para o veganismo, enviseado e enganador,  não sendo uma fonte confiável de informação científica.


                                         



Muitas pessoas me pediram para revisar o documentário What the Health, e como estava disponível através da minha assinatura do Netflix, então assisti, fazendo anotações. A tese do documentário é que carne e laticínios estão nos matando e que todas as principais doenças podem ser evitadas e curadas adotando uma dieta baseada em plantas. Apresenta testemunhos emotivos e estudos científicos selecionados e sugere que a maioria das organizações de saúde e agências governamentais foram "compradas" pela Big Food (indústria alimentícia) e Big Pharma (indústria farmacêutica) e estão conspirando para esconder a verdade do público. 

O documentário começa com o aforismo de Hipócrates "Que seu remédio seja seu alimento e que seu alimento seja seu remédio". Hipócrates morreu em 370 A.C. e antes disso havia muita coisa no caminho da medicina eficaz e antes da ciência ter aprendido muito sobre alimentos (como a existência de vitaminas).  Então, Hipócrates dificilmente é uma autoridade com credibilidade, mas mesmo que fosse, o apelo à autoridade é uma falácia lógica. O filme tenta convencer os telespectadores que alimento é remédio, e que alimento é todo remédio que precisamos para prevenir e curar obesidade, diabetes, doença cardíaca, câncer, e várias outras doenças crônica. Não me convenceu.

O produtor do filme, Kip Anderson, se descreve como um ex-hipocondríaco que antigamente assumia que ele estava destinado pela sua genética a desenvolver doença cardíaca, câncer e diabetes, assim como outros da família dele. Em algum momento na vida, ele foi exposto à crença de que uma alimentação saudável pode prevenir e curar todas essas doenças. Essa foi uma revelação completa e ele se sentiu traído. Ele diz, "a sensação era de que essa informação tinha sido escondida". Ele prosseguiu, entrevistando médicos e outros que acreditavam nessa crença, além de encontrar no Google informações que apoiavam a crença. O viés da confirmação foi eficiente, como sempre é. Ele falhou em obedecer a minha Lei da SkepDoc: antes de aceitar uma afirmação, tente descobrir quem discorda e por que. A maioria de nós não acredita que todas essas doenças podem ser evitadas e curadas pela dieta, porque não há evidências para isso. 

Carne processada   

Ele cita um resumo de estudos epidemiológicos mostrando que comer uma única porção de carne processada por dia aumenta o risco de câncer de cólon em 18%. Em primeiro lugar, estudos epidemiológicos apenas mostram correlação, não causalidade. Segundo, esse aumento de 18% é no risco relativo, não no risco absoluto. Terceiro, não leva em consideração a taxa base de câncer de cólon. Em uma estimativa, o seu risco de desenvolver câncer de cólon até 65 anos é 2,9%, caso você não coma carne processada, e 3,4% se você comer uma porção ao dia. Então, de 100 pessoas que evitam carne processada, 2,9 desenvolverão câncer de cólon. De 100 pessoas que comem uma porção ao dia, 3,4 desenvolverão câncer de cólon: a diferença em risco absoluto é um caso a mais de câncer de 200 pessoas, o que soa muito menos alarmante que o cenário dos 18%. E pode haver muitos fatores de confusão que influenciam o real risco de uma pessoa, como genética, consumo de sal (carne processada como bacon possui um alto conteúdo de sal), tabagismo, e outros fatores que podem ser mais comuns em pessoas que comem muitas carnes processadas. 

Ele faz um grande alarde da classificação de carne processada da IARC (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer) como carcinogênico do Grupo 1, o mesmo grupo de cigarro, amianto e plutônio. O documentário interpreta isso como se cachorros-quentes e bacons fossem tão perigosos quanto cigarros, mas isso simplesmente não é verdade. Cigarros aumentam o risco de câncer de pulmão em 1900%! A página de informações da OMS afirma claramente que a classificação no Grupo 1 é baseado na força da evidência de que carne processada causa câncer, não no nível do risco. NÃO significa que tudo nesse grupo é igualmente perigoso. Eles concluíram que carne processada causa câncer de cólon, mas que havia evidências insuficientes de uma associação com câncer de estômago. 

Mas a OMS NÃO recomendou que as pessoas parassem de comer carne. Eles explicaram, "comer carne tem  conhecidos benefícios para saúde. Muitas recomendações nacionais de saúde recomendam as pessoas a limitar o consumo de carne processada e vermelha, que estão ligadas ao aumento no risco de morte por doença cardíaca, diabetes, e outras doenças". 

Carne vermelha    

A IARC classificou carne vermelha como carcinogênico do Grupo 2, mas isso apenas quer dizer que que há evidências limitadas para uma associação com câncer colorretal e possivelmente câncer pancreático e de próstata. Eles explicam: 

Evidências limitadas significam que uma associação positiva foi observada entre a exposição a esse agente e câncer, mas outras explicações para essas observações (tecnicamente chamadas acaso, viés e fatores de confusão) não puderam ser eliminadas.  
Cheque de realidade: o documentário apresenta uma versão alarmista da informação que tem sido amplamente aceita por décadas e faz parte de diretrizes nutricionais. O consenso é que carne processada deve ser limitada; mas os dados sobre carne vermelha não processada não são claros. Apenas veganos recomendam a eliminação total de carne. 

Mortes evitáveis 

O documentário afirma que a alimentação causa a maioria das doenças e que 70% das mortes são evitáveis através de mudanças no estilo de vida. Eles dizem que obesidade é uma "sentença de morte" que certamente vai levar à diabetes e frequentemente ao câncer. Um estudo recente analisou a associação entre fatores da dieta e mortalidade por doença cardiovascular e doença cardíaca. Como um todo, dez fatores relacionados à dieta foram responsáveis por 45,4% das mortes. Apenas 0,4% dessas mortas foram associadas com alto consumo de carnes vermelhas não processadas e 8,2% com um alto consumo de carnes processadas. Baixo consumo de frutas e vegetais foram associadas com 7,5% e 7,6% das mortes respectivamente. De acordo com o CDC, algo entre 20 e 40% das cinco principais causas de morte podem ser prevenidas por mudanças no estilo de vida, mas não apenas mudanças na dieta. O cigarro é a causa número de mortes evitáveis, e não dieta inadequada; outros fatores de estilo de vida importantes são uso de álcool, falta de exercício, exposição ao sol, e não usar de cintos de segurança e capacetes. A estimativa de 70% é um exagero; a verdadeira proporção de mortes evitáveis pelo estilo de vida é provavelmente menor que 50%. E a dieta tem um impacto relativamente pequeno comparado ao outros fatores de estilo de vida. O documentário nos diz que fatores da dieta são mais importantes que tabagismo, mas claramente isso não é verdade. Nos diz que dietas baseadas em plantas vão parar e reverter doença cardíaca e que câncer de mama pode ser evitado pela dieta. Como eu gostaria!

Diabetes    

Estamos no meio de uma epidemia de diabetes (de adulto/tipo II). O documentário nos diz que diabetes não é causada por açúcar: carne e gordura causam diabetes. Diz que carboidratos não engordam, apenas gorduras. Diz que o corpo não pode converter carboidrato em gordura (sim, pode!). Eles mencionam um estudo de Harvard mostrando que um porção de carne processada ao dia aumenta o risco de diabetes em 51%, mas essa revisão sistemática de 2017 diz que aumenta o risco em 19%. E lembre, isso é risco relativo, não risco absoluto. 

O documentário diz que o risco de diabetes do tipo 1 aumenta pela exposição a laticínios na juventude, mas esse estudo diz o oposto. Exposição precoce não é um fator de risco e pode na verdade reduzir o risco. Esses são apenas dois de muitos exemplos de como o documentário seleciona apenas os estudos que apoiam suas crenças e ignora informação contraditória. 

Carne de frango

A carne de frango é melhor que a carne vermelha? Eles dizem, "É uma questão se você prefere tomar um tiro ou ser enforcado". Dizem que carne de frango é a principal fonte de colesterol na dieta americana e a principal fonte de sódio porque os frangos recebem injeções de água salgada. Eles  nos contam que o risco de câncer de próstata é quatro vezes maior com consumo de carne de frango. (Não é verdade: essa meta-análise não encontrou nenhuma associação). Um comediante saiu de um evento da ADA (American Diabetes Association) onde serviam frango, dizendo que era como servir álcool numa reunião dos Alcoólicos Anônimos. O documentário diz que a carne de frango é carcinogênico e restaurantes de fast-food podem ser exigidos de anunciarem essa afirmação. Mas advinha? Frutas e vegetais também possuem carcinogênicos! Mas eles não recomendam alertarem os veganos sobre os carcinogênicos que eles estão ingerindo pelas plantas. Claramente, um peso, duas medidas.   

Ovos

O documentário nos diz que gemas de ovos são pura gordura e colesterol (não é verdade; elas contem metade das proteínas do ovo junto com vitaminas, aminoácidos essenciais e outros nutrientes). Um "especialista" nos diz que gema de ovo tinge nossas células vermelhas (!?), afinam o sangue, e alteram níveis de hormônio. Eles afirmam que comer um ovo diminui a longevidade tanto quanto fumar 5 cigarros. Eu duvido. 

Queijo 

Eles nos dizem que queijo é um dos piores alimentos; eles descrevem como "pus de vaca coagulado" É viciante, metaboliza em um composto que se liga a receptores de heroína no cérebro. Pode causar síndrome da morte súbita infantil ou autismo. 450 drogas são administradas nos animais e as companhias escondem informação sobre o que há nos seus produtos. 

Peixe

Eles dizem que as diretrizes nutricionais estão erradas em sugerir a substituição de carne vermelha por peixe. Peixe contem mercúrio, PCBs, colesterol, pesticidas, herbicidas. Peixes de cativeiro contém antibióticos e antifúngicos. 

Leite

Eles dizem que leite de vaca é "terrível". Está cheio de coisas ruins, como gorduras saturadas, colesterol, e pus. Um pediatra diz que causa eczema, acne, constipação, refluxo e anemia ferropriva em crianças. Ele diz que é o alimento mais alergênico. Laticínios estão relacionados com muitos tipos de câncer, assim como asma, esclerose múltipla, diabetes do tipo 1, e doenças reumatológicas e autoimunes. Leite não constrói ossos fortes: pessoas que bebem leite têm mais fraturas e não vivem muito. Não devemos beber leite: a intolerância à lactose é a norma em adultos. Americanos africanos têm alta prevalência de intolerância à lactose. O governo os encoraja a consumir leite, mesmo sabendo que isso irá adoecê-los; isso seria um tipo de "racismo institucionalizado". Mencionam também racismo em conjunto com a pulverização em fazendas de suínos, afirmando que a poluição é maior onde há comunidades Africo Americanas. 

Outras afirmações questionáveis

Comer "toxinas de bactérias de carne morta" causa um imediato surto de inflamação, levando a imediato danos em minutos, estreitando nossas artérias e reduzindo a capacidades das artérias de relaxarem pela metade (?!). Comer carne causa dano no cérebro que é diagnosticado erradamente como Alzheimer. A doença da vaca louca está matando pessoas e o governo não admite. Muitos estudos são financiados pelas indústrias da carne, ovo e laticínios para deliberadamente criar dúvida, assim como a indústria do cigarro fez quando disse "a dúvida é o nosso produto". As recomendações de dieta do Governo vêm de um painel composto de representantes da indústria. O governo aprisiona as pessoas que vão contra eles e até criminaliza pessoas por simplesmente tirar uma foto ou filmar o que ocorrer dentro de uma indústria de animal. Os delatores são silenciados por leis "ag-gag". Aparentemente, o governo está em comparação com as indústrias farmacêutica, alimentícia e com organizações como American Diabetes Association (ADA) e American Cancer Society (ACS); todos motivados em fazer dinheiro, não em manter as pessoas saudáveis. Somos anatomicamente frugívoros (comedores de frutas), não onívoros: você pode saber isso porque não temos o tipo de dente necessário para um carnívoro rasgar, morder sua presa até a morte. (Eles esquecem que temos cérebros e ferramentas que nos equipam para caçar, matar e cozinhar carne, sem a menor necessidade de caninos e garras. Prova adicional que somos frugívoros é que achamos batidos feito com frutas mais saborosos que os feitos com carne!

Criticas à medicina convencional

Eles são bem críticos à medicina convencional. Els mencionam os mesmos argumentos fracos para críticar médicos que debancamos muitas vezes. Os médicos não estão interessados em prevenção (absurdo! Foram eles inventaram a prevenção). Médicos não consideram as causas subjacentes da doença (eles sempre consideram, quando há evidência para uma causa subjacente). Médicos condenam pacientes a tomar medicações para o resto da vida; se você seguir a recomendação deles, você nunca vai melhorar (se você seguir o conselho, você pode não ser curado de uma doença incurável, mas viverá mais). As pessoas que tomam estatinas ainda tem ataque cardíaco (verdade, mas eles têm menos ataques). Médicos não aprendem sobre nutrição (absurdo, eles entendem os princípios, mas deixam a recomendação individual de dieta para nutricionistas). A indústria farmacêutica e os médicos investiram bastante em manter as pessoas doentes (mesmo se eles não se importassem com seus pacientes, certamente teriam investido bastante em ficar eles mesmos saudáveis e manter saudáveis seus amigos e entes queridos).

Ligando para American Cancer Society

Nas primeiras de muitas vinhetas de ligaçãoes telefônicas, o produtor do filme, Kip Anderson, liga para American Cancer Society perguntando o motivo pelo qual eles não avisam sobre os perigos da carne vermelha no site da sociedade. Ele é colocado em espera, mas eventualmente é concedido uma entrevista. A entrevista é cancelada e a sociedade para de responder quando percebem que ele apenas quer argumentar com eles sobre dieta e câncer. Não fiquei surpresa. A recomendação da sociedade é baseada em avaliações por especialistas de toda evidência publicada e não é provável que eles mudem de ideia porque um único indivíduo, que não é cientista, com um propósito aparece para argumentar com eles.

O truque da ligação telefônica é repetido com a American Diabetes Association. O produtor quer saber por que eles não colocam claramente no site que carne vermelha causa diabetes e como eles conseguem incluir uma receita de camarão enrolado com bacon! Ele eventualmente consegue entrevistar um portavoz da ADA, que responde educadamente que há evidências insuficientes que a dieta pode curar diabetes, e diz "nós recomendamos uma dieta saudável". Ele reconhece que há estudos, mas argumenta que muitos deles não foram replicados ou estão errados; é por isso que fazemos revisão por pares. O produtor Anderson continua mencionando estudos individuais até que o porta-voz perde a paciência e interrompe a entrevista, explicando que não quer entrar numa discussão. Anderson interpreta isso como se a ADA não tivesse interessada em prevenção ou cura.

Então, ele liga para a American Heart Association, perguntando por que eles incluem uma receita de bife e ovos. Ele obtém uma resposta similar. Ele interpreta essas inquisições telefônicas sem respostas como obstrução e uma tentativa organizada de esconder a verdade. Ele descobre que a ACS, ADA e AHA e outras organizações convencionais são financiadas em parte por produtores de alimento, como Dannon, Kraft, Tyson e cadeias de restaurante fast-food como KFC. Ele diz que não podemos confiar nessas organizações, porque estão pegando dinheiro das companhias que causam as doenças que eles querem prevenir.

Como um analogia, eu não consigo parar de pensar como a American Academy of Pediatrics responderia a uma ligação aleatória exigindo que seu site avisasse que vacinas podem causar autismo e reclamando que médicos não podem ser confiáveis, porque são pagos pela indústria farmacêutica que vendem vacinas. Eu não os culparia, caso desligassem o telefone.

Os benefícios de uma dieta vegana

A American Diabetes Association fez uma declaração sobre dietas veganas/vegetarianas, listando vários benefícios para saúde, mas lembrando que há variabilidade nas dietas e a necessidade de avaliar individualmente a adequação nutricional.

O filme afirma que os pacientes que sofrem com artrite reumatóide podem parar de tomar suas medicações, mas essa revisão sistemática concluiu que os efeitos das intervenções nas dietas são incertos.

Muitos dos argumentos para o veganismo não são relacionados à saúde, mas morais. Animais sofrem pelo confinamento, as condições são insalubres, eles produzem gazes do efeito estufa e são ruins para o ambiente.

Testemunhos

Eles entrevistas pessoas que viraram veganas cujos testemunhos são inacreditáveis. Uma mulher obesa foi ao médico por causa de asma; depois de um exame PCR (não é indicado!), o médico dela supostamente disse que "ela estava próxima de um ataque cardíaco em 30 dias". Acho difícil de acreditar que algum médico faria tal previsão. Ela supostamente apresentou remissão completa da asma e dor crônica apenas duas semanas adotando uma dieta baseada em plantas; ela foi capaz de parar seus remédios da asma, dor, doença cardíaca e depressão.

Atletas de elite que viraram veganos relatam melhorias nas recuperações de lesões e uma performance de "100%". Uma paciente afirmou que dieta baseada em plantas curou seu câncer de tireoide em um 1 ano. Uma paciente agendada para substituição bilateral de quadril disse que foi capaz de andar sem dor e parar todas suas medicações após duas semanas. Permaneço cética.

O produtor do filme fornece o seu próprio testemunho que "dentro de poucos dias eu pude sentir meu sangue correndo pelas minhas veias com uma nova vitalidade" (eu não consigo sentir o sangue correr pelas minhas veis; você consegue?) Ele se recusa comer até um pequeno pedaço de alimento animal, não por questões de saúde, mas porque ele não consegue apoiar uma indústria que está causando tanto sofrimento em comunidades, famílias e todas as vidas no planeta. Ele rejeita o argumento "tudo em moderação" porque a evidência não mostra que comer pequenas porções de alimento animal é saudável.

Conclusão: espetáculo, não ciência 

Há indiscutíveis vantagens à saúde de uma dieta baseada em platas, mas a evidência é insuficiente para recomendar que todo mundo adote uma dieta vegana. O documentário What the Health não é balanceado, mas é uma polêmica alarmista e enviesada. Faz "contagem de cerejas" nos estudos científicos, exagera, e faz afirmações não verdadeiras, se baseia em testemunhos e entrevistas com "especialistas" questionáveis, e falha em colocar a evidência em perspectiva. Não apresenta nenhuma evidência para apoiar a afirmação que uma dieta vegana pode prevenir e curar a maioria das doenças. Simplesmente não é uma fonte confiável de informações de saúde.

O consenso de cientistas, médicos, e nutricionistas é que uma dieta vegana pode ser saudável, mas não é a única dieta saudável. Nós como sociedade devemos comer mais plantas, mas não precisamos rejeitar totalmente comida animal. Uma dieta saudável pode incluir ovo, leite, queijo, peixe, marisco, alguma carne vemelha e até uma pequena quantidade de carne processada. Certamente não há evidências claras que nos convenceria que todo mundo deveria completamente abandonar alimento animal. Não precisamos cortar ovos, bacon e um steak ocasional. Há riscos para quase tudo que fazemos (até carcinogênicos em uma dieta vegana) e a maioria de nós aceitaria um pequeno risco hipotético para poder consumir as comidas que gostamos. Até melhores evidências aparecerem, acho que a abordagem "moderação em todas as coisas" é bem razoável.