quinta-feira, 19 de abril de 2012

Antioxidantes? É mais complicado que isso.

por Harriet Hall
Tradução: Felipe Nogueira Barbara de Oliveira
Fonte: Skeptic



Estou ficando muito aborrecida com antioxidantes. Assim como os cães de Pavlov, estou ficando condicionada a me contorcer quando escuto a palavra “antioxidante”, porque frequentemente está acompanhada de simplificações, distorções e verdades parciais. A publicidade está em todos lugares, em revistas, na Internet, no rádio, em livros, em lojas. Antioxidantes prometem prevenir doenças cardíacas, câncer, cataratas, doença de Alzheimer, até mesmo rugas; eles farão você viver mais e manterão sua mente brilhante, enquanto fazem você se sentir jovem novamente. Bem, quem não quer isso? Todos os dias eu sou bombardeada com recomendações de alimentos, suplementos, e cremes para a pele que são “uma boa fonte de antioxidantes”, “cheios de antioxidantes”, ou produtos “anti-envelhecimento”. Todos sabem que antioxidantes são maravilhosos. Todos com exceção de cientistas céticos que compreendem que é um pouco mais complicado que isso.


Antioxidantes previnem oxidação. Oxidação é o processo no qual oxigênio combina-se com outras substâncias. Quando oxigênio combina-se com ferro, chamamos de ferrugem. Mas o que é “ferrugem” no nosso corpo? Radicais livres ou espécies reativas de oxigênio são moléculas ou íons que possuem um elétron não pareado desesperado para completar um par. Metabolismo normal cria radicais livres como superóxido e radicais de hidroxila. Eles são necessários para a vida; precisamos deles para matar bactérias, para o processo de sinalização celular, e para outras funções. Mas como radicais livres vão reagir indiscriminadamente com qualquer coisa, eles também podem causar danos, por exemplo reagindo com DNA, causando mutações. Estresse oxidativo (excesso de radicais livres) foi associado com câncer, doenças cardíacas e muitas outras desordens; mas não está claro se eles são causa, resultado, ou um espectador inocente que “apenas pegou carona no passeio”. Algumas pessoas acreditam que o dano acumulado de radicais livres causa o envelhecimento e morte prematura; eles assumem que evitar o dano com antioxidantes aumentaria a nossa expectativa de vida.


Precisamos de radicais livres para funcionarmos adequadamente, mas em excesso eles podem causar danos. Nossos corpos sabem o suficiente para não deixar o caos reinar descontroladamente. Eles produzem enzimas neutralizantes, como superóxido dismutase, catalase e peroxidases, para manter a população de radicais livres sob controle. Nossos corpos fazem uso das vitaminas antioxidantes A, C e E da nossa alimentação, e produzem metabólitos como bilirrubina e ácido úrico com propriedades antioxidantes.


Podemos fazer nossa parte em manter a defesa dos nossos corpos garantindo uma dieta adequada em nutrientes. Mas podemos, devemos, fazer mais? Quanto mais é suficiente? Devemos tomar suplementos? É sedutor pensar que podemos prolongar nossas vidas. Se antioxidantes são bons, então mais antioxidantes não seria, necessariamente, melhor?


Infelizmente, é mais complicado que isso. Como explica Ben Goldacre no seu livro Bad Science,

Bioquímica humana é uma vasta rede interligada. Uma intervenção em um lugar pode ter consequências inesperadas; existem mecanismos de feedback, mecanismos compensatórios. Taxas de mudanças em uma área localizada podem ser limitadas por fatores inesperados que estão bem distantes do lugar que você está alterando, e excesso de uma coisa em um lugar pode distorcer o caminho e fluxo usuais, produzindo resultados contra-intuitivos.


Droga! Pseudociência e marketing parece tão fácil e direto e preto no branco; por que ciência real tem de ser tão difícil?


O que acontece quanto ingerimos mais antioxidantes do que precisamos? O excesso é excretado? Eles apenas ficam sentados não fazendo nada? Eles fazem algo que não esperávamos? Seria legal saber.


Há boa evidência de que pessoas que comem mais frutas e vegetais estão menos propensas a desenvolver câncer, doenças cardíacas e outras doenças – e estão mais propensas a viver mais. É facil assumir que são os antioxidantes nas frutas e vegetais os responsáveis, mas isso pode não ser verdade. Outros componentes nesses alimentos (como flavonóides) ou a mistura de componentes na dieta podem ser os responsáveis. Ou pessoas que comem menos frutas e vegetais estão comendo mais de alguma coisa que causa tais doenças.


Se antioxidantes em alimentos reduzem a incidência dessas doenças, é apenas lógico pensar que suplementos de antioxidantes também reduziriam a incidência ainda mais. Infelizmente, estudos controlados tem mostrado consistentemente que ou eles não tem efeito ou fazem as coisas piorar. Não é a primeira vez que a realidade interveio rudemente acabando com uma boa idéia. Estudos após estudos não mostraram nenhum beneficio de antioxidantes para doenças cardíacas, câncer, doença de Parkinson, doença de Alzheimer, ou longevidade. Um estudo mostrou que uma combinação de antioxidantes diminuiu a progressão de uma estabilizada, moderada a severa, degeneração macular, porém mais pesquisas são necessárias para confirmar esses resultados.


Estudos observacionais iniciais sugeriram que suplementos de vitamina E reduzem o risco de doença cardíaca. Eu lembro de ler um relatório de um cardiologista quando o entusiasmo ainda estava em alta. Ele e seus parceiros receitavam altas doses de vitamina E para seus pacientes, além deles próprios tomarem. Depois que eles e muitos dos pacientes desenvolveram sintomas de gripe, finalmente caiu a ficha que eles estavam experimentando efeitos tóxicos de overdose de vitamina E. Eles diminuíram a dose, mas continuaram a usar. Depois, melhores estudos mostraram malefícios ao invés de benefícios. Sujeitos tomando vitamina E estavam mais propensos a desenvolver falha cardíaca.


Suplementos de antioxidantes podem causar danos. Eles podem ser tóxicos em altas doses, podem ligar-se a minerais na dieta, impedindo sua absorção, e podem aumentar o risco de câncer de pulmão. Um estudo terminou precocemente porque pacientes tomando betacaroteno possuíram uma chance 46% maior de desenvolver câncer pulmonar. Mulheres na pós-menopausa que tomaram suplementos de vitamina A tiveram mais fraturas. Alguns estudos mostraram aumentos de adenomas colorretais. Há razões para pensar que antioxidantes podem interferir com tratamentos de câncer.


Uma análise de 68 testes clínicos com quase um milhão de indivíduos encontrou que suplementos de antioxidantes foram adequadamente testados e não possuem benefício. Os que acreditam em antioxidantes argumentam que os estudos podem não ter testado as substâncias corretas ou podem não ter usado as doses ótimas.


A indústria da “superalimentação” tem capitalizado na loucura de antioxidantes. A receita é simples: escolha uma fruta, de preferência alguma exótica e tropical. Afirme que é um “superalimento” com benefícios únicos. Desenvolva um concentrado, uma pílula, ou uma mistura com outros ingredientes especiais. Faça propagandas com afirmação que podem escapar das restrições da FDA. Solicite testemunhos, fabrique-os se necessário. Escolha diversos de seus amigos para experimentar, podendo afirmar que está “clinicamente testado”. Comece uma empresa de marketing multinível. Cobre altíssimos preços. Faça altos orçamentos. Suco de noni, açaí, mangostão, goji, camu-camu; até o menos exótico chá verde, blueberries e romãs tem gerado fortunas. O conceito de superalimentação envolve uma falácia. Essas frutas não oferecem nenhum benefício que não pode ser obtido de componentes de uma dieta saudável. O fato que eles possuem muita quantidade de um nutriente é insignificante, dado que você pode obter a mesma quantidade comendo mais outros alimentos que contem quantidades menores. Uma pílula de 650 mg de Tylenol não funciona nada melhor que duas pílulas de 325 mg.


Todos os tipos de suplementos de antioxidantes são vendidos. Cada um afirma benefícios únicos, mas apoiam essas afirmações com testemunhos ao invés de evidências reais. Alguns dependem de um artifício como um processo manufaturado diferenciado ou melhor absorção. Eles podem afirmar um efeito sinergético de uma certa combinação de ingredientes, mas tais afirmações nunca são apoiadas por estudos publicados. Como eles decidiram combinar esses ingredientes? Alguém na empresa usou intuição ou atirou um dardo no alvo?


Um produto anti-envelhecimento, Protandim, afirma agir por uma abordagem diferente. “Persuade o seu corpo a aumentar a própria produção de antioxidantes” e supostamente “ajuda a prevenir danos causados por radicais livres às células do corpo de forma mil vezes mais efetiva que qualquer terapia antioxidante convencional... diminuindo a taxa de envelhecimento celular para o nível de 20 anos de idade.” O que tem nesse produto? Cardo de leite, bacopa, ashwagandha, extrato de chá verde e turmérico. Hmm... e como exatamente essa combinação particular persuade o seu corpo a aumentar sua produção de antioxidantes?


Como eles sabem que funciona? Eles têm a grande quantidade de apenas um estudo em humanos: mostrou um aumento no exame de sangue TBARS ([sigla em inglês para] Substâncias Reativas ao Ácido Tiobarbitúrico). Eles têm um estudo mostrando que reduziu a incidência de câncer de pele em ratos. Eles possuem alguns outros estudos em ratos e tubos de ensaio. Eles não possuem nenhuma evidência dos efeitos clínicos em humanos, muito menos de expectativa de vida aumentada. Mas eles possuem muitos testemunhos e você pode assinar para torna-se um distribuidor.


Seja cauteloso com afirmações baseadas em melhoras em exames laboratoriais. Há muitos deles, como TBARS e pontuações ORAC ([sigla em inglês] para Capacidade de Absorção de Radicais de Oxigênio); você mesmo pode comprar um teste de urina caseiro para medir o nível de peróxido lipídico. A mesma substância pode mostrar tanto efeitos pró-oxidantes ou anti-oxidantes, dependendo do teste que você escolher. O corpo humano é um ambiente mais complicado que o tubo de ensaio. Nenhum desses testes in vitro foram validados como efeitos antioxidantes in vivo ou como algum beneficio clínico. Não foi mostrado que produtos com altos níveis de TBARS melhoram o estado de um paciente em alguma métrica objetiva. Vitamina E, que sabemos ser um poderoso antioxidante no corpo, possui uma baixa pontuação ORAC.


Antioxidantes são importantes para saúde, mas radicais livres também. Precisamos saber mais antes de recomendar com confiança a ingestão de antioxidantes para todo mundo. A Associação Americana do Coração não recomenda a ingestão de suplementos antioxidantes; eles estão esperando até melhores evidências estarem disponíveis. Por enquanto, eles dizem o que Mamãe dizia: “Coma seus vegetais.” Esse é um conselho prudente para outras razões de saúde também; é um arremesso certeiro.

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